'Twitteiro' e próximo à Cúria, dom Odilo pode ser 1º papa latino-americano

Ativo em redes sociais como Twitter e Facebook e presença mais corriqueira em páginas de jornais do que costuma ocorrer com religiosos, o gaúcho dom Odilo Pedro Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo, tem estado no topo da lista de especulações para suceder Bento 16 no comando da Igreja Católica.

EDUARDO SIMÕES E ESTEBAN ISRAEL, Reuters

12 de março de 2013 | 17h29

Defensor ferrenho de questões caras à Igreja, como demonstrou ao atacar a liberação do aborto de fetos anencéfalos, dom Odilo, de 63 anos, conhece a Cúria Romana, o núcleo central da Igreja, e, portanto, tem acesso aos cardeais que convivem no cerne do catolicismo, no Vaticano.

O cardeal brasileiro já trabalhou na Santa Sé, de 1994 a 2001, como oficial da Congregação para os Bispos.

E após a nomeação como cardeal arcebispo, participa desde 2008 de conselhos consultivos que auxiliam o papa no Vaticano, como a Comissão de Cardeais para o estudo dos problemas organizativos e econômicos da Santa Sé, daí sua familiaridade com grande parte das questões que afetam a Igreja.

Embora a proximidade com a Cúria Romana possa ajudá-lo a se tornar o primeiro papa latino-americano da história, críticos afirmam que a eleição de dom Odilo aumentaria a centralização da Igreja e afastaria as reformas.

"Se você tiver um Odilo Scherer (como novo papa), você terá retomada essa ideia de centralização de controle da cúria sobre todos os bispos", disse o professor de Política e Ética da Unicamp Roberto Romano.

"Se ele for eleito ele vai representar essa linha que se tornou muito forte a partir do João Paulo 2o. Ele vai ter muito pouco a falar de América Latina. Ele vai falar muito mais de centralização e controle vertical do poder."

Pessoas próximas a dom Odilo, afirmam, porém, que em seu cargo atual ele tem trabalhado para tornar a Igreja mais aberta aos fiéis. Como arcebispo de São Paulo, a maior arquidiocese do Brasil, maior país católico do mundo, dom Odilo concentrou boa parte de seus esforços em melhorar a comunicação com os fiéis.

"Ele insistiu muito no trabalho pastoral, abrindo um espaço muito grande para os fiéis leigos", disse o porta-voz da Arquidiocese de São Paulo, Padre Cido Pereira, que convive com dom Odilo desde antes de ele assumir a arquidiocese, em 2007.

METRÔ E IPHONE

Natural de Cerro Largo, no Rio Grande do Sul, dom Odilo foi criado e iniciou sua carreira religiosa na paranaense Toledo, onde foi ordenado padre e chegou a dirigir uma paróquia e onde vive grande parte de sua família.

Com um gosto musical que vai de Beethoven a Chico Buarque, o religioso costuma andar de metrô pela capital paulista e carrega um iPhone 4S para se manter conectado às redes sociais.

"Dom Odilo é uma pessoa muito ativa... É uma pessoa muito alegre,", disse o padre Cido Pereira.

Além de sua conta no Facebook e no serviço de microblogs Twitter, onde faz desde reflexões religiosas até piadas com o trânsito de São Paulo a seus mais de 29 mil seguidores, dom Odilo assina artigos publicados no site da arquidiocese na Internet e em jornais de grande circulação.

É conhecido também por ser bastante firme ao tratar de pontos essenciais para a Igreja como aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo e pesquisa com células-tronco embrionárias. Além disso, lembra padre Cido Pereira, se de um lado "ele é muito gentil no trato pessoal", de outro "é extremamente exigente nas tarefas que confia às pessoas".

Em 2008 fez uma defesa enfática da oposição da Igreja à liberação do aborto de fetos anencéfalos, que à época estava em discussão no Supremo Tribunal Federal.

"A decisão do STF terá consequências, pois consagrará princípios para a posterior jurisprudência. E aí vai mais uma pergunta: depois dos anencéfalos, qual será o próximo grupo de 'incompatíveis com a vida', de incômodos e indesejados na lista da eliminação?", afirmou no artigo.

A ênfase na defesa de posições da Igreja e a proximidade com a Cúria Romana levaram alguns observadores a colocar dom Odilo como um conservador. O rótulo, no entanto, não é aceito por quem trabalha de perto com o cardeal.

"Nenhum papa, por mais progressista que seja, iria desistir ou iria pregar alguma coisa contra aquilo que faz parte da doutrina da Igreja", disse padre Cido.

"O que nós podemos esperar de um papa progressista, é que ele escute mais, que ele abra a Igreja e que seja mais carinhoso com todo o mundo, que ele tenha uma comunicação mais fácil", disse o porta-voz da Arquidiocese.

Para padre Cido, um exemplo de como essas qualidades podem ser vistas no cardeal está na sua postura em relação às igrejas evangélicas, para onde muitos católicos têm migrado no Brasil, o que, segundo especialistas, poderia minar suas chances no conclave. "Dom Odilo é muito claro nesse sentido: 'nós não vamos jamais entrar em uma guerra religiosa'."

(Reportagem adicional de Bruno Marfinati)

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