Um guia de viagem para quem não viaja

Um guia de viagem para quem não viaja

Relato de Burton Holmes, que visitou as cataratas do Iguaçu em 1918, poderia ficar exposto na fila de ingresso para o parque. Para lá, ninguém vai sem mais nem menos

Marcos Sá Correa, O Estadao de S.Paulo

02 de abril de 2010 | 00h00

Com 20 mil pessoas marchando para os portões do parque neste feriadão, nada mais refrescante do que um mergulho nas cataratas que o americano Burton Holmes visitou em 1918 no rio Iguaçu. A história está num de seus Travelogues, o 13.º volume da série de relatos de viagem que ele manteve por 60 anos, entre o fim do século XIX e meados do século XX. Holmes foi um legítimo blogueiro cem anos antes que a moda pegasse na internet. Ou que a internet existisse. Mas nunca teve nada a ver com a futura voga dos guias turísticos. Ele corria o mundo para que as pessoas conhecessem lugares remotos sem sair de casa - ou saindo para ir, no máximo, ao cinema mais próximo.

Porque Holmes também fez cinema falado antes do cinema falado. Ou seja, ele mesmo falava durante a projeção de seus filmes. Adotou o neologismo Travelogues - soando a "papo de viagem" - para evitar que a plateia debandasse diante da ameaça de ouvir uma palestra em sala de cinema. E seus livros são imitações propositais de velhos diários de bordo, colando impressões a imagens. Até aí, nada demais. Difícil era ir às cataratas naquela época, quando a Primeira Guerra Mundial mal havia acabado e só o périplo de Buenos Aires a Puerto Aguirre, onde começa a visita aos saltos do Iguaçu, vai da página 301 à 315. As 300 páginas anteriores, diga-se de passagem, percorrem Recife, Salvador, Rio e outros portos da rota para a Argentina. E cada cidade tem seu capítulo.

Na reta final da viagem, ele encarou hotéis "en liquidación", atendidos por "misantropos enigmáticos", antes de percorrer a cavalo os 20 quilômetros "encantadores" de uma "soberba avenida" na selva, sob "espantosas borboletas" que lhe coroava a cabeça com "auréolas coloridas". Ia a caminho das cataratas, que desbancaram as do Niágara. Mas, "oh! leitor!", que ninguém esperasse encontrar por lá, como no Niágara, trilhas pavimentadas, pontes e escadas. O Iguaçu tinha de ser conquistado a facão de mato.

Com a ajuda de índios, Holmes atracou no último dia uma "canoa de tronco" sobre a Garganta do Diabo, onde o rio parece-lhe "literalmente despencar num buraco redondo no meio da correnteza". Ali, descobriu que os índios nunca tinham feito aquilo. Mas não perdeu a chance de se debruçar numa ilhota pendurada sobre o abismo, sentindo a "pedra tremer com o impacto incessante do rio", para fotografar a cena indescritível.

Holmes não deixou de notar que, embora raramente visitadas, as cataratas do Iguaçú já tinham naquela ocasião inspirado projetos hidrelétricos a uma civilização incapaz de ver água caindo sem pensar em quilowatts. Fez votos de que, pelo menos, o essencial daquela paisagem escapasse do progresso "para a elevação do espírito humano". Ela escapou, como atestam hoje os sucessivos recordes de visitação às cataratas. Mas o livro de Holmes, que aos 90 anos chegou intato a um sebo de Foz do Iguaçu e foi parar na administração do parque, bem que poderia ficar exposto na fila de ingresso. Para ninguém pensar que às cataratas se vai assim, sem mais nem menos.

Marcos Sá Correa, Jornalista e escreve no blog marcossacorrea.com.br

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