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Cientista político, sócio-diretor da Augurium Consultoria e membro das Academias Paulista de Letras e Brasileira de Ciências, Bolívar Lamounier escreve quinzenalmente na seção Espaço Aberto

Opinião|Gorbachev e a perpétua vocação autocrática russa

A atual agressão russa contra a Ucrânia mostra que, no que tange à Rússia, seus heroicos esforços foram baldados.

Atualização:

No dia 30 de agosto o mundo perdeu um dos grandes estadistas de nossa época: Mikhail Gorbachev (1931-2022).

Tive a honra de conhecê-lo pessoalmente, como relatarei a seguir. Em outubro de 2001, as fundações Fride (Fundación para las Relaciones Internacionales y el Diálogo Exterior), presidida por Diego Hidalgo, empresário, e The Gorbachev Foundation of North America promoveram em Madri um grande seminário intitulado Conferência sobre Transição e Consolidação Democrática. Essa conferência foi a origem do Clube de Madri, entidade integrada por ex-presidentes e ex-primeiros-ministros com a missão de apoiar iniciativas internacionais em prol da democracia.

No início de 2001, tive o privilégio de ser convidado, junto com outros 15 renomados intelectuais de várias partes do mundo, a participar, em Madri, de uma reunião preparatória da conferência, que seria realizada em outubro daquele ano. Deu-se, porém, como se recorda, que no dia 11 de setembro uma organização terrorista levou a cabo um ataque em Nova York, destruindo as chamadas Torres Gêmeas. Diante desse fato, sem dúvida a mais audaciosa operação terrorista de que se tem notícia, as fundações organizadoras rapidamente consultaram os futuros participantes sobre se a conferência deveria ser mantida. A resposta, unânime, foi positiva, até porque, no entender de todos, a entrada em cena do terrorismo a tornara ainda mais importante. Assim foi que, nos dias 19 a 27 de outubro, nos reunimos e lançamos as bases do Clube de Madri, cujos principais patronos, além do próprio Gorbachev, foram o ex-presidente norte-americano Bill Clinton e o rei Juan Carlos.

Parece-me importante situar o presente relato em seu devido contexto, remontando à situação em que se encontrava a União Soviética no final da década de 1960. Conforme registrei em meu livro Tribunos, Profetas e Sacerdotes (Companhia das Letras, 2014, páginas 77-79), “o catastrófico funcionamento da economia socialista estava à vista de todos. Havendo tentado fazê-la funcionar repetidas vezes mediante reformas cosméticas, os governos (do Leste Europeu) endividaram-se até o pescoço com importações e financiamentos junto aos bancos ocidentais. Viam-se praticamente todos a braços com uma conta de juros astronômica, a ser paga em moedas fortes. Em seu monumental estudo sobre o segundo pós-guerra na Europa (Postwar – A History of Europe Since 1945, Penguin, 2005), o historiador Tony Judt informa que a dívida da Europa do Leste (excluindo a Romênia) em moeda forte subiu de US$ 6,1 bilhões em 1971 para US$ 66,1 bilhões em 1980. Caminhava para US$ 95,6 bilhões em 1988”.

A grande questão era: como reformar de verdade o socialismo? Havia a convicção geral de que a reforma teria de vir de dentro, mas quem a iniciaria? O Partido Comunista, com certeza, não, pois ele era o principal beneficiário do status quo. Mas eis que, na primeira metade dos anos 80, a troica gerontocrática que vinha dirigindo o país – Brezhnev, Andropov e Chernenko – morre em rápida sucessão. Com o falecimento deles, o Partido Comunista perdia o núcleo da resistência às reformas e a bola passava para Gorbachev, expoente de uma geração mais jovem. No início, ele também acreditava que os problemas pudessem ser resolvidos dentro do sistema comunista: não se tratava de desmontá-lo, mas de modernizá-lo. Foi gradualmente que ele se convenceu do contrário: sem uma reforma do sistema político, a crise econômica só faria se aprofundar. O partido não tinha como reformar a economia se, antes, não se reformasse a si mesmo. E o que valia para a URSS valia para todo o Leste.

A missão que Gorbachev se viu obrigado a assumir era, portanto, muito maior do que ele imaginara ao chegar ao topo. Estaria ele talvez a ponderar a complexidade de seu papel quando, na madrugada de 26 de abril de 1986, chegou-lhe a notícia do que acontecera na Ucrânia: a explosão de um dos quatro reatores nucleares de Chernobyl. Segundo o já citado Tony Judt, a explosão liberou na atmosfera o equivalente a mais de cem vezes as radiações de Hiroshima e Nagasaki somadas. Apesar de tal catástrofe, um discurso proferido por Gorbachev ante o Comitê Central do Partido Comunista em 1987 dá uma ideia da resistência que ele enfrentava. Dividido em sete partes, as seis primeiras reproduziam a tradicional narrativa soviética, endeusando Lenin e encontrando méritos em todos os seus antecessores, entre os quais o próprio Stalin. Só na sétima parte ele abordou com clareza suas ideias de reforma e advogou a coexistência pacífica entre países com sistemas econômicos antagônicos. Cinco anos depois, a tentativa militar de reverter as reformas de Gorbachev fracassa, Boris Yeltsin concentra o poder e a URSS deixa simplesmente de existir.

Daquele ponto em diante, Gorbachev dedicou-se sem ambiguidades à causa da democracia, fazendo dura oposição a Vladimir Putin, o tirano de plantão. A atual agressão russa contra a Ucrânia mostra que, no que tange à Rússia, seus heroicos esforços foram baldados.

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SÓCIO-DIRETOR DA CONSULTORIA AUGURIUM, É MEMBRO DAS ACADEMIAS PAULISTA DE LETRAS E BRASILEIRA DE CIÊNCIAS. SEU ÚLTIMO LIVRO É ‘IMAGENS DA VIRTUDE E DO PODER’ (EDITORA DESCONCERTOS)

Opinião por Bolívar Lamounier
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