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Opinião|Axiomas sociais – reflexões para a sociedade moderna

Como podemos, coletivamente, remodelar nossos valores e práticas para enfrentar os desafios emergentes de nosso tempo?

Os axiomas sociais, enraizados nas tradições culturais, religiosas e legais, moldam as sociedades de maneiras profundas e variadas. A compreensão dessas premissas e sua influência ao longo do tempo oferece insights valiosos para os desafios atuais enfrentados pela humanidade.

No coração das sociedades do leste asiático está o confucionismo, enfatizando a harmonia, o respeito hierárquico e a piedade filial, que consiste em amar e respeitar seus pais, anciãos e ancestrais. Na China, por exemplo, essa filosofia influenciou fortemente a ética social e a governança. Contudo, isso também levou a uma rigidez social, limitando, em certos aspectos, a inovação e a expressão individual. O sistema de castas, profundamente enraizado no hinduísmo, criou uma estrutura social estável, mas também perpetuou a desigualdade e o preconceito, como observado em relatórios da ONU sobre direitos humanos na Índia.

A ênfase no individualismo, especialmente nos EUA e na Europa, incentivou inovações e avanços econômicos. No entanto, como apontado em estudos sociológicos, isso também resultou num enfraquecimento dos laços comunitários e numa maior disparidade econômica que cria dicotomias de fracassados e vencedores. Em contraste, a Sharia tem mantido forte coesão comunitária, mas em algumas regiões sua interpretação rígida levou a desafios em direitos humanos, especialmente em relação à igualdade de gênero, conforme relatado por organizações de direitos humanos.

Nos países nórdicos, os axiomas culturais estão profundamente enraizados em valores como a igualdade, a confiança comunitária e a importância da educação. Esta região é notável pelo forte senso de comunidade e pelo alto investimento em educação e saúde, refletindo um compromisso coletivo com o bem-estar de todos os membros da sociedade. Já a filosofia Ubuntu, na África, enfatiza a importância da comunidade e da cooperação. Mas, embora tenha fomentado fortes laços comunitários, enfrenta desafios na integração com abordagens globalizadas e individualistas.

Na cultura judaica, as premissas sociais são conectadas de forma intrínseca na ética e na tradição. Uma das pedras angulares é o conceito de Tikkun Olam, que significa “reparar o mundo”, incentivando os indivíduos a contribuir para a melhoria da sociedade. Esse princípio fomenta uma responsabilidade coletiva e individual em direção ao bem-estar comunitário e à justiça social.

Em países como Peru, Brasil e Rússia, as comunidades alemãs frequentemente excediam os locais em termos de sucesso econômico. Este fenômeno é atribuído à forte ênfase cultural na educação e na ética de trabalho dentro da comunidade alemã, contrastando significativamente com as normas locais. As diferenças culturais entre católicos e protestantes também trouxeram impactos em resultados. No livro Riqueza, pobreza e política, Thomas Sowell escreve: “Os protestantes, em geral, tinham uma visão mais positiva do trabalho do que os católicos. Eles acreditavam que o trabalho era uma forma de glorificar a Deus e de contribuir para o bem comum. Os católicos, por outro lado, tendiam a ver o trabalho como uma necessidade para sobreviver, mas não como uma fonte de realização ou satisfação”.

Ao olharmos para estes exemplos, surgem perguntas críticas para a sociedade moderna. Quais axiomas precisamos reformular ou adotar para abordar os desafios contemporâneos? Quanto do sucesso e do fracasso de diferentes sociedades se dá em razão dos seus axiomas culturais? Como os princípios de sustentabilidade, colaboração global e adaptabilidade podem ser integrados em culturas que historicamente valorizam princípios diferentes?

Será que os valores de eficiência e inovação tecnológica podem coexistir harmoniosamente com tradições que enfatizam a estabilidade e a hierarquia? Como as sociedades podem equilibrar a preservação de suas tradições culturais com a necessidade de adaptar-se a um mundo em rápida mudança? Onde está o equilíbrio entre religiosidade e ciência, individualismo e comunidade, hierarquia e igualdade de oportunidade? Quantos de nós, que desejamos, por exemplo, uma maior equidade na sociedade, ou enfrentar outros desafios de nossa civilização, realmente refletimos sobre os axiomas em forma de crenças e culturas necessárias em nossas nações para lidar com essas questões?

Os axiomas sociais são tanto um espelho do passado quanto um mapa para o futuro. À medida que refletimos sobre esses princípios fundamentais, convidamos a um debate aberto e crítico sobre como podemos, coletivamente, remodelar nossos valores e práticas para enfrentar os desafios emergentes de nosso tempo. É uma jornada que exige não apenas introspecção, mas também a coragem de questionar e, se necessário, reinventar.

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ESCRITOR, ECONOMISTA, É ESPECIALISTA EM TECNOLOGIAS

Opinião por Daniel R. Schnaider

Escritor, economista, é especialista em tecnologias