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Opinião|Enterramento de fios: questão de prioridades

A razão básica para o cabeamento em SP não ser enterrado não é só o seu enorme custo, mas sim a escolha a ser feita

O vendaval que aconteceu no início de novembro e resultou na interrupção do fornecimento de energia para milhões de consumidores reacendeu o debate sobre o enterramento do cabeamento elétrico na cidade de São Paulo. Segundo alguns, essa medida poderia ter evitado a falta de energia, além de outras vantagens, e o benefício estético é a mais lembrada.

Enterrar os fios tem um custo enorme. Implica abrir valetas, passar fios, instalar transformadores e outros equipamentos no subsolo, manter tudo isso seco e à prova d’água, além de resolver as interferências com outras redes. Ademais, o enterramento não resolveria a questão da confiabilidade. São mais de 20 mil quilômetros de fiação na cidade. Em todos os planos discutidos e com poucas dezenas de quilômetros anuais sendo de execução viável, as tempestades continuariam afetando por séculos a fiação aérea remanescente.

A literatura econômica e as evidências internacionais indicam que o custo de implantação do cabeamento subterrâneo é de 10 a 20 vezes mais elevado do que o aéreo. Apesar de menos sujeita às intempéries, os custos de operação e manutenção de uma rede subterrânea são maiores. Na ocorrência de defeitos, a descoberta é mais difícil e os consertos são mais complexos e demorados, envolvendo escavações e trabalho em espaços exíguos, havendo ainda exigência de manutenção preventiva mais frequente e o uso de equipamentos mais caros.

Estimativas desses custos em São Paulo, segundo estudo feito pela Tendências Consultoria em 2015, indicam dispêndios anuais da ordem de R$ 5 bilhões (valores corrigidos pela inflação) para o enterramento de apenas 260 quilômetros de cabos por ano, segundo o Programa de Enterramento das Redes Aéreas (Pera) então estabelecido pela Prefeitura. Além disso, há custos adicionais de enterramento das redes de telefonia e iluminação e custos não contabilizáveis, como o transtorno causado pelas obras.

Não é possível que esses custos sejam arcados pelas concessionárias. Os montantes superam em várias vezes os investimentos que já são feitos na expansão e manutenção da rede existente.

Uma solução seria elevar as tarifas. O estudo feito em 2015 indicou que, ao fim de 12 anos, o custo da energia elétrica para o consumidor de São Paulo seria 5,5 vezes o custo então verificado. Esse aumento encareceria o custo de vida em São Paulo e quase todos os tipos de atividade econômica, pois a eletricidade é um insumo essencial.

A alternativa é realizar a instalação subterrânea dos fios utilizando recursos públicos. Em outras palavras, mediante aumento de impostos.

Mas a razão básica para o cabeamento não ser enterrado não é só o seu enorme custo, mas sim a escolha a ser feita. Se tal montante de recursos estivesse disponível, ainda assim não seria razoável enterrar a fiação. Com o custo de enterramento de 60 quilômetros de cabeamento pode-se fazer aproximadamente um quilômetro de metrô em São Paulo. Fazer metrô ou corredores de ônibus ou redes de esgoto parece mais urgente.

O cabeamento subterrâneo se justifica normalmente apenas por razões estéticas, que foi a razão principal usada quando o Pera tramitou na Câmara de Vereadores. É razoável apenas em locais de alta densidade de carga e elevado fluxo de pedestres, ou pela existência de arquitetura e patrimônio histórico ou na prevenção localizada contra condições extremas. O cabeamento subterrâneo é encontrado no centro de metrópoles com essas características ou em localidades de renda muito elevada, onde o benefício estético e o aumento da confiabilidade, uma vez já resolvidas necessidades mais prementes, têm um custo aceitável para a população.

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SÓCIO E DIRETOR DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA

Opinião por Ernesto Guedes