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Opinião|Seja quente ou seja frio

É hora de o Brasil reafirmar seu compromisso com os princípios ocidentais. Definir-se perante a comunidade internacional.

Atualização:

“Somente os tolos exigem perfeição, os sábios se contentam com a coerência”, sentencia um provérbio chinês. A busca por seu autor, e mesmo se de fato ele seria chinês, não leva a lugar algum. Porém, é inegável que a frase enseja grande sabedoria, principalmente se considerarmos a premissa da coerência no escopo da escala de valores que escolhemos para guiar nossa vida.

Princípios. São eles que conduzem o processo civilizatório. Isso é notável em cada período de nossa história. Desde que o homem se reconheceu como ser social, os princípios pautam condutas, que pautam relações, legislações e definem o desenvolvimento dos povos.

Desde que a história da vida passou a ser escrita, os princípios se revelaram. Verdadeiros códigos que regram comportamentos, houve épocas em que eles obedeciam a um sistema moral, vindo desde muito antes.

Religiosidade e espiritualidade definiram vários deles. Os egípcios respeitavam a morte porque acreditavam na continuidade da vida, e tentavam viver corretamente. Os Dez Mandamentos balizaram a forma de ser e agir dos cristãos, posteriormente guiados pela Bíblia. Alcorão e Torá orientam muçulmanos e judeus. Budismo, hinduísmo, taoísmo, espiritismo e tantas outras formas de crer trazem, em essência, premissas a atender de maneira coesa e coerente. Isso representa honrar a fé escolhida e, assim, honrar a si próprio e aos outros.

Ao transportarmos essa análise para o contexto das relações entre as nações, verificamos que os países bem-sucedidos são coerentes com seus valores. Os alinhados à atitude ocidental não hesitam em defender a democracia e os diretos humanos. Os alinhados com a visão oriental não deixam de ressaltar a importância do Estado provedor, do controle social em nome do bem comum.

Mas e o Brasil? Como se definiria perante esse contexto? Temos aí um caldo de grande complexidade, se analisarmos a forma ambígua com que se tem mostrado ao mundo nos últimos anos.

O que pensar de um país que se diz ocidental democrático e se alinha a governos antidemocráticos ou estimula laços com nações que não têm o menor respeito pela vida humana, apenas em razão de sua pretensa ideologia?

Tal fato pode parecer irrelevante diante da conjuntura. A pandemia fraturou a globalização, caminho que considerávamos sem volta. A logística mundial foi totalmente desestruturada. Por necessidade, os países se voltaram para si mesmos. Era preciso cuidar das respectivas populações, combater o vírus, cessar as mortes.

Como ninguém faz – ou é – nada sozinho, coisa que a globalização ensinou, o que se vê agora é a reorganização do universo comercial, mas dando um passo atrás: os blocos se estão rearticulando. Não é um retrocesso, mas um recuo cauteloso que, esperemos, seja momentâneo.

Já vivemos em blocos, e isso não foi bom para o conjunto da humanidade. O lado ocidental, ancorado no capitalismo, deslanchou por longo período. O oriental, por seu lado, estacionou. As nações se isolaram em seus feudos ideológicos. E um continente inteiro, a África, foi praticamente esquecido, posto ser um território que não se define. Em muitos de seus países, cada novo ditador rasga princípios. Por exemplo, Simandou, no sudeste da Guiné, teria potencial para se tornar a maior mina de minério de ferro do mundo, maior que Carajás. Mas quem nela investiu – caso da brasileira Vale – perdeu bilhões de dólares. Perdeu para a incoerência.

A partir do duro aprendizado, as nações ocidentais e orientais se reorientaram. Fim da guerra fria e primórdios da globalização romperam o anterior status quo. Nas pegadas dos Tigres Asiáticos, a China se abriu – o mundo ficou maior. Rússia e EUA estiveram unidos na corrida espacial – o universo chegou mais perto. Comércio bilateral evoluiu para multilateral – a humanidade ganhou.

Pena que a pandemia fez retroagir. Mas acreditemos que isso seja freio de arrumação. Questão de tempo, a lucidez retorna. Os princípios existem. A questão é saber quais são aqueles que guiam o Brasil.

Temos de decidir se fazemos ou não parte do bloco ocidental. O próximo governo, seja ele qual for, terá de ajudar os brasileiros nessa tomada de decisão. E ela não pode se submeter a viés ideológico sem que se faça ponderada avaliação das consequências. Afinal, a opção tem de ser coerente com aquilo que somos e não pode oscilar conforme humores do governo de plantão. Um parceiro comercial confiável não age assim; não é volúvel. Nunca! E quem pensa que assim fazendo está manipulando o jogo, ao fim e ao cabo, termina descartado.

A Índia procura transitar comercialmente com Oriente e Ocidente, mas o que esse modelo tem resultado em investimentos naquele país?

Não é questão de hermetismo. Negócios são negócios, mas o negociador quer saber claramente com quem está lidando. Em que acredita. O que defende. Se tem princípios e age de acordo com eles.

É hora de o Brasil reafirmar seu compromisso com os princípios ocidentais. Definir-se sem tergiversações perante a comunidade internacional para transmitir confiança e atrair os imprescindíveis investimentos produtivos. Basta de meio-termo. “Seja quente ou seja frio. Não seja morno, senão te vomito” (Apocalipse 3:16).

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DIRETOR DO GRUPO JAFET, É VICE-PRESIDENTE DE RELAÇÕES INSTITUCIONAIS DO SECOVI-SP

Opinião por Basilio Jafet