A Tese de Impacto pela Mobilidade Social - Caminhos de atuação dos negócios de impacto para a prosperidade socioeconômica no Brasil – conduzida pela Fundação Grupo Volkswagen e pela Artemisia, com apoio técnico do Instituto Veredas – traçou um mapa consistente dos principais desafios da temática no país, além de construir um radar de demandas e alavancas no qual modelos de negócios inovadores têm atuado. O conteúdo traz, ainda, recomendações valiosas para que o ecossistema possa apoiar os empreendedores que têm se dedicado a construir soluções inovadoras para combater as desigualdades sociais e econômicas.
A Tese conta com quatro blocos: Compreendendo a Mobilidade Social (conceitos, contexto e desafios no Brasil); Negócios e Soluções de Impacto (inovações que podem contribuir para a mobilidade social no Brasil); Radar de Demandas (como contribuir para o avanço de inovações e negócios de impacto no tema); e Recomendações (conclusões, diretrizes e orientações práticas). Neste artigo, ressalto os pontos que me chamaram a atenção na primeira metade do estudo.

Na busca por ajudar o leitor a aprofundar a compreensão sobre o tema, o primeiro capítulo se dedica a explicar os principais conceitos sobre mobilidade social. Em conversa com Juliana Campedelli – gerente de Conhecimento da Artemisia e uma das coordenadoras da Tese –, ela comenta que o Brasil é marcado por desigualdades sociais profundas, por isso, a capacidade de um indivíduo ou uma família ascender economicamente esbarra em uma série de desafios complexos e interligados.
“Em uma sociedade com mobilidade social plena, qualquer pessoa, independentemente da sua origem, poderia alcançar uma determinada posição social. No entanto, isso raramente é possível, especialmente em países do Sul Global, como o Brasil”, afirma, acrescentando que a mobilidade social depende de uma combinação de múltiplos fatores atravessados por desigualdades: ao nascer; na infância e adolescência; na vida adulta; e nos territórios. “Para gerar real transformação, são necessárias estratégias para as diferentes etapas do ciclo de vida”, salienta Juliana.
Dado o cenário complexo, Juliana alerta que não há a pretensão de que os negócios de impacto, tecnologias e inovações sociais resolvam os problemas da desigualdade e da baixa mobilidade social diante das complexidades, limitações e da impossibilidade de atuação em determinados problemas, já que soluções criadas por negócios não existem para substituir as ações essenciais do Estado. Porém, ressalta que tais soluções podem atuar em lacunas específicas e aportar inovações importantes à sociedade.
Partindo dessa premissa, o segundo capítulo da Tese examina as soluções existentes no campo do empreendedorismo de impacto, mapeando negócios que têm atuado nas barreiras enfrentadas pelas pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica e na redução das disparidades. Após a análise de 120 negócios de impacto brasileiros, o levantamento destaca três alavancas prioritárias - Educação, Geração de Renda e Inclusão Financeira – nas quais modelos de negócios de impacto têm atuado.
Nessas alavancas, as intervenções de negócios mostram ter maior potencial de contribuição para a mobilidade social ascendente. Em Educação, a tese traz exemplos como o da Letrus, edtech que se dedica a desenvolver a capacidade de escrita e leitura de estudantes brasileiros (com foco especial aos alunos de escola pública), dada a importância dessas habilidades para acesso a futuras oportunidades. Já na alavanca de Geração de Renda, a Fazer Orçamento é citada por ajudar autônomos, MEIs e PMEs a alcançarem mais renda, estabilidade e segurança financeira. Na alavanca Inclusão Financeira, destaque para a fintech Jeitto, que oferece crédito acessível e transparente para a população em vulnerabilidade socioeconômica, com um score de crédito diferenciado e adaptado à realidade dessa população.
Na conversa, Juliana reforça que, ao elaborar a Tese, o intuito foi tornar o conhecimento sobre mobilidade social acessível e compreensível para todos os interessados: seja para um investidor ou empreendedor – buscando conhecimento para investir ou desenvolver soluções adequadas aos desafios dessa temática –, seja para um gestor de programas de fomento ou aceleração, que deseja entender melhor o cenário para apoiar o desenvolvimento de soluções de impacto positivo. É relevante ainda para um profissional do setor social, ou simplesmente um interessado no tema, que busca atualizar seus conhecimentos e contribuir para a construção de uma sociedade mais justa.
Em uma coluna futura, espero trazer mais elementos sobre os capítulos finais, com foco nas recomendações trazidas por essa Tese inédita que, aliás, já está disponível para download gratuito no site https://artemisia.org.br/mobilidadesocial/tese/.




