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Opinião|Bicho teimoso

Existe uma espécie de ojeriza à árvore, alimentada por essa falta de cultura ecológica. Já ouvi que árvore quebra os passeios e calçadas, deixa cair folhas e até que serve para bandido se esconder atrás dela

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convidado
Por José Renato Nalini

O homem não aprende. Continua a desmatar. Em todos os biomas e com a insensatez própria à insanidade. Será que não bastou a tragédia do Rio Grande do Sul para que todos se compenetrem de que precisamos cuidar melhor da Terra? Algo singelo, ao menos se comparado com outras providências que necessitariam de investimento que não sobra para a ecologia, mas que é bastante para armamento, para propaganda, para Fundões diversos, está ao alcance de todos: plantar mais árvores.

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Veja-se o que acontece com a Mata Atlântica. Aqueles pequenos nichos, que são até chamados “ilhas” de verde, perdem cobertura vegetal. Foi o que anunciou a Fundação SOS Mata Atlântica, amparada em dois levantamentos: o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântico, realizado em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe e o SAD – Sistema de Alertas de Desmatamento, levado a efeito pelo MapBiomas.

Tudo o que é destruído em áreas superiores a três hectares de floresta é detectado pelo Atlas. O SAD é ainda mais preciso: detecta desmatamentos a partir de 0,3 hectare e apurou que o desmatamento cresceu 9%, passando de 74.536 para 81.356.

É uma constatação lastimável e perigosa. Quase a totalidade da devastação foi motivado pela expansão agrícola, depois expansão urbana e mineração. Foram dizimados duzentos campos de futebol por dia! A Mata Atlântica, por ser o bioma de maior densidade populacional e, portanto, a mais maltratada, tende a desaparecer. O combate a ela é sem tréguas.

Não faltam leis. A Mata Atlântica possui uma legislação própria, mais severa do que o desfigurado Código Florestal, que sequer menciona o verbete “florestal” em seu texto. Só que no país em que há “leis que pegam e leis que não pegam”, nem todos os governos estaduais e municipais cumprem esse diploma. Na verdade, há tanto má-fé quanto ignorância. Enquanto isso, o mundo todo se preocupa com os fenômenos extremos que se repetirão e serão cada dia mais intensos.

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Existe uma espécie de ojeriza à árvore, alimentada por essa falta de cultura ecológica. Já ouvi que árvore quebra os passeios e calçadas, deixa cair folhas e até que serve para bandido se esconder atrás dela. Ouvi de representantes da ENEL que árvore é algo que nasce para cair sobre a fiação da energia elétrica. “Em vez de cair na paralela ao fio, cai na perpendicular e o arrebenta”. Só que a concessionária deveria cuidar de instalar fiação subterrânea, o que existe em todas as cidades da civilização. Aqui no Brasil, o espetáculo deprimente desses “ninhos” de fios entrelaçados que enfeiam a cidade e são um atestado de escancarado subdesenvolvimento.

Paris desenvolveu uma cidadania amante das árvores. Por isso suas árvores têm chips que acompanham a sua higidez. O plantio é constante e, para as Olimpíadas deste ano, a Prefeita Anne Hidalgo promete uma Paris verde e mais amena em relação à canícula dos verões europeus.

As árvores garantem sombra, reduzem a temperatura, praticam a ecotranspiração e, com isso, propiciam abençoada chuva. Será que alguém percebeu que em maio, até o dia 22, não havia caído sequer o índice de 5% das chuvas esperadas para todo o mês?

Existe muita gente boa cuidando de repor o trilhão de árvores de que o planeta se ressente. No Brasil, a Fundação Pitágoras, presidida por Helena Neiva, realiza um trabalho fascinante. Por sinal, recomendo a leitura do livro “O Mutirão das Árvores – Queremos sombra e água fresca”, de Cláudio de Moura Castro, notável educador e economista que vê o ambientalismo como salvação da humanidade, sem conotação ideológica esterilizante.

O Instituto Alana também planta. E as “formigas do Embaúba”, e heróis anônimos que refazem a mata ciliar, sem serem notados, a não ser pela natureza agradecida.

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O Rotary Club, instituição benemerente e de tanta tradição, também vai encarar a campanha da arborização em São Paulo. Muito promissora a promessa de Livio Giosa, que assumirá a Presidência do Rotary Club e a do governador do Distrito 4563, Diogo Mastrorocco e sua esposa, Silvia Cabriotti, que prometem plantar um milhão de novas árvores em São Paulo.

É preciso fazer com que essa febre benigna se propale. O desaparecimento da cobertura arbórea no extremo sul da capital equivale à extinção das nascentes que abastecem o Guarapiranga e a Billings. Com isso, haverá crise gravíssima de deficiência hídrica, a afetar milhões de pessoas. Será que esse bicho-teimoso, chamado ser humano, não tem consciência disso?

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José Renato Nalini
Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo. Foto: Daniel Teixeira/Estadão
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Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão.

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