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Opinião|Causos do Vigário

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A religião católica, apostólica e romana foi a oficial do Estado brasileiro, até à proclamação da República. O governo provisório, por ato de 7 de janeiro de 1890, decretou a completa separação entre Igreja e Estado. Isso gerou alguns comportamentos insólitos de parte dos anticlericais. Na Paraíba, os Intendentes Municipais que passaram a gerir os negócios da cidade eram inimigos dos padres. Como em outros locais, espalhados pelo Brasil, começaram as questiúnculas e perseguições.

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Na comarca de Iguassu, ordenou-se a remessa para a Capela do Cemitério de uma imagem de Cristo Crucificado, em tamanho natural, que ornara a Sala do Júri. Uma parte da população se alvoroçou e criou-se um clima de excitada animosidade.

O Vigário, sob argumento de que no Cemitério não havia capela, pediu que o Cristo lhe fosse entregue para a Matriz. A Intendência invocou o fundamento de que a imagem era valioso bem do município e que não poderia ficar num templo. Criou-se tempestade em copo d’água.

Os católicos tramaram a remoção clandestina da imagem, durante a noite. Mas, como em cidade pequena tudo se sabe, a tentativa foi frustrada. Nova empreitada, agora bem sucedida. Mas no dia seguinte, a imagem voltava para a sua origem, o cemitério. As beatas começaram a propagar a tese do milagre.

Um dos inimigos da Igreja era o velho advogado Jeronymo Macario Figueira de Melo, mais conhecido como “Dr. Macario”. Morava defronte à casa paroquial, habitada pelo Vigário Alvarenga Salles. Caminhavam ambos, certo dia, pelas respectivas calçadas, quando o padre volta para casa e apanha um rebenque e outras armas. Dizia que o Dr. Macário proferira impropérios e o ofendera em sua honra.

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Outro sacerdote muito jovem, Padre João Nunes Cardoso de Rezende, que viera para ajudar o Vigário, também entrou no duelo verbal e ofendeu o Dr. Macário. Este gritou, alto e bom som, que iria processar ambos “os senhores de batina”. E que arrolaria personalidades que, atraídas pela discussão, chegaram à cena do crime.

Feita a promessa, cuidou de cumpri-la. Redigiu queixa por crime de ameaça e, em relação ao mais moço, por injúrias verbais. Advogado experiente, a peça não podia ser ignorada pelo juiz. Padre Rezende foi condenado e o Vigário Sales submetido ao Tribunal do Júri.

Ocorre que as testemunhas eram inquiridas e reperguntadas com excepcional zelo e à procura de todas as minúcias. A instrução se prolongou indefinidamente.

Durante a tramitação do processo, caiu o Governo local, sob o comando do governador Portela. A nova direção mudou os Intendentes Municipais e ali, quem assumiu o poder foi um paroquiano cumpridor de seus deveres religiosos. Oficiou ao Vigário, com autorização para fazer o traslado do Cristo, até então na capela tosca do Cemitério, para que fosse condignamente alojado na Matriz da cidade.

O Vigário, triunfante, quis tripudiar sobre os adversários. Quis dar à trasladação o máximo esplendor e significado. Preparou uma solene procissão de desagravo. Convocou os fieis, convidou os vigários e demais clero e associações religiosas das cidades vizinhas.

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Só que o processo continuava e, talvez por influência do Dr. Macário, que era amigo do escrivão, deu-se que o interrogatório do Vigário fosse marcado justamente para o dia da procissão, às três da tarde.

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Nesse dia, a cidade em festa, em desusada animação, ruas embandeiradas e atapetadas com folhas de mangueira, à hora marcada, lá estava no Fórum o Vigário. Apesar de contrariado, não escondia sua satisfação. Era o dia de sua vitória. Pensou que o interrogatório terminasse a tempo de abrir e liderar a procissão.

Só que o queixoso, como lhe facultava a lei, passou a interrogar o indiciado. E o fez com rematado exagero. Insistindo em reperguntas. O tempo escoava e aproximava-se a hora da saída da procissão. Os sinos começaram a repicar. O interrogatório prosseguia calmo, minucioso, interminável.

Já retardada, não podendo esperar mais tempo, a procissão saiu. Sem o Vigário! O Dr. Macário só encerrou sua inquirição depois que a procissão, que saíra da necrópole, entrasse na Matriz.

Foi aquela história de que o bocado, como pode ocorrer, não fora saboreado por quem o tinha, com tanto carinho e esmero, preparado.

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Isso ocorreu no final do século XIX. Hoje, no Século XXI, ainda digladiam os que reconhecem a legitimidade de uma sociedade que se diz cristã conservar efígies do Cristo em dependências oficiais e os que entendem que a tese da secularidade do Estado é de ser levada a ferro e fogo.

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José Renato Nalini
Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário executivo de Mudanças Climáticas de São Paulo
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