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Opinião|Ironia e sarcasmo

Sua visão sobre os contemporâneos não era a melhor: ‘Caráter dos homens deste tempo: querem os fins, mas não as consequências. Conquistas, sem mortos; revoluções, sem cabeças cortadas; amor, sem filhos’

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convidado
Por José Renato Nalini

Não é comum que escritores coloquem tudo o que pensam em sua obra. A regra geral é a de que escrevem para serem lidos. Cuidam de um certo refinamento na linguagem, sem a intenção de chocar ou ferir suscetibilidades.

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Nem todos são assim. Giovanni Papini, cuja releitura é instigante, escreveu em 1933 “O saco do ogro”. É um exercício de erudição, de espírito florentino, diante da mordacidade e da ironia, onde tudo se mescla: ímpetos fervorosos com páginas poéticas pequenas resenhas de livros com recordação pessoal, puras criações fantásticas e reflexões filosóficas.

Ele começa por afirmar que na Itália não são bem aceitas as coletâneas de pensamentos, aforismos e extravagâncias como as que ele se propõe ofertar. São aceitas, por exceção, quando se trata de mortos, como “O Zibaldone” de Leopardi. As dos vivos merecem repúdio. “E como não tenho a intenção de morrer antes do tempo para me congraçar com os leitores, também me arrisco a publicar esta antologia de fragmentos”.

E continua: “advirto que estes fragmentos pertencem a diversas épocas de minha vida; muitos remontam à minha primeira juventude; outros, talvez a maioria, são recentíssimos. Que ninguém se maravilhe, pois, de encontrar de vez em quando diferenças de tom e talvez algumas contradições”.

Inicia com um capítulo que chama “Insinuações e Melancolias”, com o texto “Pais e Filhos”: “Jurghis – o poeta lituano que agora é embaixador – me dizia uma tarde, em Florença, falando de seu filho de sete anos: “Aprendi com ele muito mais do que nunca poderei ensinar-lhe”.

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É alguma coisa que suscita reflexões. Quem de nós não se surpreendeu com a cria, seres às quais demos vida e que, de repente, são tão melhores do que nós em tantos aspectos? É uma das recompensas maiores da maternidade/paternidade.

Outro texto instigante: “Infortúnios”: “Há homens para os quais é uma grande fortuna não possuir aquelas que são chamadas fortunas (dinheiro, glória, mulheres); e há outros que são infelizes por falta de verdadeiras infelicidades. Os primeiros conseguem ser grandes porque o prazer não os distrai nem a tranquilidade os adormece os outros, ainda que tenham gênio, não conseguem fazer nada porque nunca lhes há atormentado a necessária agulha da dor”.

Uma observação ainda atual para nós, é aquela que ele chama de “Fumo e Esperança”: “Não deixa de ter significado que dois grandes ingressos (tributos) do Estado provenham do tabaco e da loteria, quer dizer, do fumo e da esperança: ambos, narcóticos do espírito de natureza voluptuosa e quase imaterial”.

O cigarro, nada obstante a campanha ligando o seu uso com o câncer, continua presente e o vício é indomável. Há pessoas que não conseguem abandoná-lo. Já a loteria estatal campeia e arrecada milhões. Enquanto os viciados em cassinos são obrigados a recorrer à internet, onde o jogo é livre e incentivado, ou a viajar até outros países. Há bom senso nessa proibição?

Sobre lobos e dentistas Papini escreve: “Creio que ninguém lê o epistolário de Balzac, que, com efeito, não é belo. Mas eu li e fui premiado encontrando esta pergunta: “Os lobos têm dentista?”. Nesta frase há gênio e uma infinita possibilidade de aplicações. Nós, raças finas e enfermiças, temos uma infinidade de dentistas e, se eles nos tiram a dor de dentes, o esmalte já não é o mesmo”.

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Sobre a gratidão, esta virtude tão negligenciada, Papini depõe: “Não se pode pretender demasiado dos homens. O reconhecimento dos beneficiados não pode chegar ao ponto de perdoar os seus benfeitores”. Algo que Napoleão já afirmava. Ao lhe ser dito, no exílio em Santa Helena, que alguém se referira a ele com desdém e crueldade, respondeu: - “Estranho! Não me lembro de lhe haver feito qualquer favor!”. Por um estranho fenômeno, em lugar da gratidão, o favorecido passa a nutrir um bizarro estranhamento em relação ao seu benfeitor.

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O verdadeiro paradoxo, na visão de Papini, tem algumas características: “É preciso estar alerta contra aqueles paradoxos que têm o aspecto de poder converter-se em verdades. O verdadeiro paradoxo tem que ser tal, que não possa nunca entrar na cabeça da maioria, quer dizer, dos estúpidos”. Sobre o governo dos homens, é bem ácido: “Diz-se que os caolhos reinam sobre os cegos; mas os cegos, para se vingar, quiseram, com frequência, governar a quem tem ambos os olhos”.

Sua visão sobre os contemporâneos não era a melhor: “Caráter dos homens deste tempo: querem os fins, mas não as consequências. Conquistas, sem mortos; revoluções, sem cabeças cortadas; amor, sem filhos”.

Será que tudo mudou, ou é preciso concluir que Papini tinha certa razão?

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José Renato Nalini
Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo. Foto: Felipe Rau/Estadão
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