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O Custo Brasil e a fuga de talentos

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Por Alexis Fonteyne e Benjamin Quadros
Atualização:
Alexis Fonteyne e Benjamin Quadros. FOTOS: DIVULGAÇÃO Foto: Estadão

Pesquisadores e profissionais recém-formados estão deixando as universidades direto para os aeroportos - ou para uma janela de videoconferência - para trabalhar em empresas de outros países, com empregos e condições de trabalho impensáveis para a realidade brasileira. Em um mundo liberal, nada mais justo que os trabalhadores escolham a melhor oportunidade para seu desenvolvimento profissional. O problema é que o Brasil não tem condições de competir, em níveis de igualdade, com a realidade exterior e perde mão-de-obra qualificada.

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Quando se fala de educação, o Brasil é repleto de contradições. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2019, o país investiu 5,6% do seu PIB em educação, enquanto a média das nações pesquisadas era de 4,4%. Claramente, a qualidade e execução dos gastos deixam a desejar, explicando por que o Brasil também possui um dos mais baixos desempenhos no Pisa, a principal avaliação internacional de desempenho escolar, ocupando a 54ª posição. Mesmo assim o país é um grande exportador de talentos, ou seja, estamos perdendo boa parte dos bons profissionais que conseguimos formar. Tudo isso tem explicação.

O Custo Brasil, que sufoca e limita os empregadores e os empreendedores, prejudica o ambiente de negócios, aumenta o risco e dificulta a retenção dos talentos, está empurrando nossos jovens e pesquisadores, para os braços de empregadores internacionais. Ele cria também empregadores não éticos, que usam modelos informais de contratação de funcionários, na tentativa de aumentar sua competitividade, mas, na verdade, estão destruindo o ambiente competitivo, sonegando impostos e as garantias sociais dos trabalhadores - criando uma instabilidade no mercado através da concorrência desleal por não seguir as complexas leis brasileiras.

Outro movimento que cresceu após a pandemia vem de empresas internacionais, sem base no Brasil, que oferecem propostas de trabalho tentadoras, embaladas em condições de remuneração e liberdade de trabalho. O resultado: jovens talentos brasileiros nem precisam ser expatriados, simplesmente prestam serviços de tecnologia e recebem sua remuneração de forma líquida, em dólar, euro ou até criptomoedas, sem todos custos e oneração da folha de pagamento, burlando também as complexas leis brasileiras de contratação de funcionários. Não há como competir!

De acordo com o estudo Decoding Digital Talent, conduzido pelo BCG e a The Network, 67% dos profissionais de tecnologia na América Latina mudariam para o exterior, sendo Canadá e Estados Unidos os países que atraem o maior volume de interesse. A D4U USA Group, assessoria legal imigratória que trabalha diretamente com escritórios de advocacia, por exemplo, teve um aumento de 152% em pleitos imigratórios em 2021, sendo que 20% dos pedidos realizados foram destinados a profissionais de tecnologia.

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Dados do Departamento Americano para Assuntos Consulares mostram que o Brasil entrou para a lista dos países com mais solicitações de vistos profissionais, aparecendo em 5º lugar para vistos EB1, e em 4º lugar para vistos EB2. Os números de 2021 ainda não foram divulgados, mas os vistos de trabalho emitidos pularam de 1.389 em 2019 para 1.899 em 2020, um aumento de 36%.

Na área de pesquisas, a situação não é diferente. De acordo com levantamento do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE), há atualmente de dois a três mil pesquisadores brasileiros no exterior. É importante notar que, apesar dos Estados Unidos e Canadá serem pontos naturais de atração, países como Suíça, Suécia, Irlanda, França e Dinamarca, dentre outros, também acabam por atrair nossos talentos.

No caso dos pesquisadores, pesa ainda as restrições orçamentárias dos últimos anos, já que o Brasil vive uma recessão prolongada, o que, culturalmente, dificulta a possibilidade de empresas privadas investirem diretamente nos campos de pesquisas das universidades públicas, como acontece no exterior.

Concorrência desleal de empresas não éticas e uma carga brutal de impostos que incide sobre quem deseja gerar emprego seguindo a legislação vigente, somadas aos baixos investimentos para manter os nossos melhores talentos no país, são barreiras que impedem o país de dar os saltos de desenvolvimento que precisa. Inovação, Pesquisa e Desenvolvimento são campos do conhecimento que impulsionam qualquer nação para o futuro. Investir nesses talentos tem o potencial de nos mover para frente, enquanto perdê-los pode representar a estagnação do país. Precisamos responder em qual século o Brasil quer estar e buscar os meios para que cheguemos lá.

*Alexis Fonteyne é deputado federal (Novo-SP) e presidente da Frente Parlamentar pelo Brasil Competitivo

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*Benjamin Quadros é CEO da BRQ e vice-presidente do Conselho de Administração da Brasscom

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