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'Operador' de Gim Argello diz que pegou 200 mil euros para caixa 2

Paulo Roxo, alvo da Vitória de Pirro, confessou ter pego dinheiro 'por fora' para a campanha do ex-senador preso pela Polícia Federal na última terça-feira, 12

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Por Mateus Coutinho , Julia Affonso e Fausto Macedo
Atualização:

Gim Argello foi preso na 28ª fase da Lava Jato. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O publicitário Paulo Roxo, suspeito de ser um dos operadores de propina para o ex-senador Gim Argello (PTB) disse em depoimento à Polícia Federal nesta sexta-feira, 15, que recebeu 200 mil euros em dinheiro vivo na Toyo Setal, do lobista Júlio Camargo, que seriam para o caixa 2 da campanha à reeleição do então senador, em 2014.

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Roxo relatou em detalhes que recebeu sozinho a quantia em julho daquele ano, quando se encontrou pela segunda vez com Júlio Camargo, lobista que era conselheiro na Toyo Setal, no Rio de Janeiro. Na ocasião, segundo relatou aos investigadores, ele foi ao escritório de Camargo depois de já acertada a doação de R$ 2 milhões da Toyo para a campanha da coligação "União e Força", formada por DEM, PR, PRTB, PMN e PTB e que tinha como candidato ao governo do DF José Roberto Arruda (PR) e ao senado pelo DF, Gim Argello (PTB).

 Foto: Estadão

"Foi atendido pela secretária de Júlio Camargo, a qual disse que ele estava em outro compromisso, mas havia pedido para que ela entregasse um envelope e, de maneira discreta, disse que o reinquirido (Paulo Roxo) poderia ficar à vontade na sala para ver o que tinha dentro", a partir de então, segundo Roxo, a secretária teria deixado a sala e ele se deparou com a quantia guardada no envelope."O reinquirido abriu e contou o dinheiro, constatando a existência de algo em torno de 200 mil euros", relatou à PF.

"O declarante então voltou num vôo partindo do aeroporto Santos Dumont para Brasília, onde chegou e foi direto encontrar com Gim Argello, provavelmente na casa dele, onde entregou o envelope com os duzentos mil euros a Gim, o qual recebeu com naturalidade sem mostrar surpresa". Roxo, então, disse que teria pedido ao ex-senador para não o colocar novamente neste tipo de situação, "pois aquilo se tratava de doação por fora, não oficial, a qual o reinquirido não tinha conhecimento" segue o relato.

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Segundo o publicitário, Argello teria desconversado. "Gim não reagiu ao que foi falado pelo reinquirido, 'estendendo a conversa'", disse. À Justiça Eleitoral, Argello declarou ter recebido R$ 1,4 milhão em doações para sua campanha eleitoral em 2014. Deste total, contudo, não há registro de doações da Toyo Setal.

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Roxo foi preso temporariamente na última terça-feira, 12, na operação Vitória de Pirro, 28ª fase da Lava Jato e que teve como alvo o ex-senador Gim Argello, acusado de cobrar propina de R$ 5,3 milhões da UTC e da OAS - a maior parte via doações oficiais para os partidos de sua coligação - para evitar a convocação de empreiteiros em duas CPIs que investigaram suspeitas de irregularidades na Petrobrás no Senado e no Congresso em 2014. À PF, Roxo também disse que o ex-senador nunca disse para ele ou Valério o motivo de ter conseguido as doações da UTC.

O depoimento de Roxo reforça as suspeitas de que o esquema para evitar a convocação de empresários nas CPIs envolveu também outras empreiteiras além das duas já descobertas pela Lava Jato. O MPF, contudo, aponta que não há provas de que os partidos da coligação de Argello tinham conhecimento que as doações tinham relação com as CPIs.

O juiz Sérgio Moro rejeitou o pedido do Ministério Público Federal para converter em preventiva a prisão dele e de Valério Neves, ambos suspeitos de operarem a propina a mando do ex-senador. O magistrado entendeu que a atuação dos dois estava subordinada a Argello e impôs restrições aos dois, como a proibição de deixar o País. Diante disso, Paulo Roxo e Valério Neves, que já haviam sido ouvidos na quinta-feira, foram reinquiridos pelos investigadores para esclarecer alguns pontos de seus depoimentos. Valério Neves não citou o episódio em seu novo depoimento.

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Entre os pontos que a Polícia Federal buscou esclarecer foi justamente o repasse "por fora" citado pelo delator Júlio Camargo, que também depôs na quinta-feira, e que Paulo Roxo não havia mencionado em seu depoimento de quinta. Na versão de Júlio Camargo, contudo, teriam sido repassados R$ 200 mil em duas parcelas.

A defesa de Gim Argello informou que não comenta investigações em andamento. A reportagem tentou contato com a defesa de Júlio Camargo nesta tarde, mas o advogado não atendeu ao celular.

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