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Opinião|Se Darwin voltasse

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Charles Darwin (1809-1882), causou furor com o seu “A Origem das Espécies”, publicado em 1859. Para a elaboração desse estudo que mudou a concepção então vigente sobre a evolução humana, foi importante a viagem que fez no Beagle, navio da Marinha Real, entre 1831 e 1836.

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Era uma expedição científica e, nas prolongadas paradas em cada porto, havia possibilidade de estudos locais e coleta de material. Darwin passou também pelo Brasil. Maravilhou-se com a exuberância da Mata Atlântica.

Hoje parece incrível o que ele viu em Botafogo, bairro carioca. Ali havia profusão de árvores, samambaias, macacos e insetos. Segundo a crença geral, não havia insetos minúsculos nos trópicos. Ele constatou o contrário e alertou os entomologistas a respeito.

Também desmentiu os estudiosos das planárias, espécies irmãs das lesmas, consideradas animais exclusivamente aquáticos. Encontrou lesmas em espaços secos da floresta, sob troncos podres, dos quais elas se alimentavam.

O encanto com a mata dos trópicos extasiou Charles Darwin, que descreveu sua emoção: “O dia transcorreu deliciosamente. Mas esse talvez seja um termo pobre para expressar as emoções de um naturalista que, pela primeira vez, se aventurou sozinho em uma floresta brasileira. Para quem ama história natural, um dia como este proporciona um prazer tão profundo que não se pode esperar sentir algo assim novamente”.

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Porém, o que mais impressionou Darwin foi a crua realidade da escravidão. Ao deixar o Brasil, escreveu: “No dia 19 de agosto, finalmente, deixamos o litoral do Brasil. Agradeço a Deus e espero nunca mais visitar um país escravocrata. Até hoje, quando escuto um grito distante, lembro com dolorosa clareza o que senti ao passar por uma casa perto do Recife. Eu ouvi os mais terríveis gemidos”.

A maldade dos que possuíam escravos era de estarrecer e de contrariar a tentativa de afirmação de que os brasileiros eram donos bondosos e sensíveis de seus semelhantes sob servidão. Darwin o comprovou: “Perto do Rio de Janeiro, morei em frente a uma senhora que guardava torniquetes para esmagar os dedos de suas escravas. Vi ainda um menino de 6 ou 7 anos levar três chibatadas na cabeça com um chicote de açoitar cavalos (antes que eu pudesse interferir), simplesmente por ter me oferecido um copo de água que não estava limpo o bastante”.

Para André Aubert, que resenhou o livro “A viagem de Charles Darwin ao Brasil e suas contribuições para a Teoria da Evolução”, “foi inevitável imaginar o que Darwin pensaria se, quase duzentos anos depois, voltasse a nos visitar e encontrasse um País que devastou sem piedade a Mata Atlântica que tanto o fascinou e ensinou, e que evoluiu muito menos do que deveria na questão da injustiça social que o incomodava”.

Sim, o Brasil decepciona quem ousou sonhar com uma Pátria ecológica, a salvação do clima terrestre, mediante adequada preservação de sua densa cobertura vegetal. Só que o Brasil tem péssima companhia quando se constata o avanço da extrema direita na União Europeia e nos Estados Unidos.

O negacionismo ignorante contamina. Depois do Green Deal, aprovado pela Comissão Europeia em 2019, com a meta de redução das emissões de gases com efeito estufa em 55% até 2030 para atingir zero emissões líquidas até 2050, houve evidente retrocesso.

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É que em 2019 o mundo era outro. Houve benfazeja “onda verde”, com o êxito de partidos ecológicos principalmente na Alemanha e na França. Pandemia, guerra da Rússia contra a Ucrânia e consequente alta de inflação, fez com que os inimigos do ambiente mostrassem novamente as garras recolhidas.

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Embora o continente que abriga antiga civilização seja “simpático” à causa ambiental, a conversa muda de tom quando a adaptação da casa para maior eficiência energética dependa de recursos próprios. Ou quando se acena com a eliminação do uso de combustíveis fósseis. Os anacrônicos inimigos da natureza se valem dessa preocupação com o bolso para voltar com o discurso contra o verde e contra a vacina.

Para tornar tudo ainda mais preocupante, a volta do horror ecológico é ameaça cada vez mais consistente nos Estados Unidos e em outros países. O perigo ronda e está aí, para gáudio dos imediatistas e dos insensíveis. Darwin não se encantaria com a situação do globo em 2024.

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Foto do autor José Renato Nalini
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José Renato Nalini
Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário executivo de Mudanças Climáticas de São Paulo
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