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Opinião|Taiguara, Lennon e o idiota ofensivo

convidado

Um dos ensinamentos que os cabelos grisalhos me trouxeram é esse: não existe idiota inofensivo. Todo idiota é nocivo, perigoso, às vezes letal.

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Primeiramente, esclareço que não me refiro à acepção mais frequente do vocábulo: pessoa que carece de inteligência, tola, ignorante, estúpida, vaidosa, pretensiosa. Reporto-me às raízes etimológicas da expressão. Idiota, neste artigo, remonta ao grego antigo “idiotes” que indicava as pessoas que cuidavam apenas de seus interesses pessoais, em contraposição àqueles que se dedicavam à coletividade (“polis”), denominados “politikon”. Políticos eram aqueles que empregavam seu tempo, energia, habilidades e inteligência em causas de interesse público, como a defesa, a justiça, a administração etc. Idiotas, por sua vez, viviam somente para si mesmos.

Assim, na melhor tradição grega, considero idiotas aqueles que são omissos e/ou indiferentes, tanto diante de graves questões públicas, a exemplo das mudanças climáticas e do racismo, como de episódios de injustiça ou violência contra os mais frágeis que ocorrem nos ambientes de trabalho, doméstico etc. Ao presenciar uma situação de assédio moral ou de agressão física, o idiota é aquele que finge não ver e não ouvir. Esse idiota foi personagem da música “Nowhere Man” de John Lennon: “He’s as blind as he can be / Just sees what he wants to see”.

Montagem da exposição fotográfica no MIS 'John Lennon em Nova York por Bob Gruen' Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O idiota é aquele que jamais irá intervir para interromper uma violência, pois “não gosta de se envolver”. O idiota é aquele que jamais irá denunciar ou testemunhar. Só que, ao fugir dos problemas, geralmente esses se agravam e causam maior dano a outras pessoas e a sociedade.

O idiota age assim – ou melhor, não age – por uma combinação de covardia, egoísmo, conformismo, oportunismo, preguiça e, no limite, psicopatia. Em regra, o idiota é medíocre em tudo o que faz. É idiota, mas não é bobo, pois é bajulador dos poderosos e a sua omissão militante ao jamais emitir uma crítica ou ponto de vista próprio o faz “ficar bem com todo mundo” e lhe permite alcançar posições a que jamais ascenderia por mérito.

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Sim, o idiota é sedutor e engambela muitas pessoas, de variadas idades, mas imaturas emocionalmente, que consideram “maravilhoso” aquele ser gelatinoso que nunca tem opinião, não assume posição, não abraça nenhuma causa e foge de qualquer polêmica.

Em um dos seus mais memoráveis sermões, o padre Antonio Vieira destacou que a omissão é o pecado que mais facilmente se comete, porque se faz não fazendo, e mais dificilmente se reconhece. E no Dia do Juízo Final, “se vos há-de pedir estreita conta do que fizestes, mas muito mais estreita do que deixastes de fazer”. Para os omissos, sentencia Vieira, não há salvação possível.

Luiz Henrique Lima Foto: Arquivo pessoal

Em “Odeio os indiferentes” Antonio Gramsci assinala: “Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida.” Sua análise mostra como a apatia e a omissão na esfera pública favorecem a ascensão ao poder de formações autoritárias e extremistas. De fato, a omissão sempre beneficia o status quo e o conservadorismo. Se dependesse de gente desse tipo, ainda estaríamos na escravatura e sem o direito de voto para as mulheres. Como Gramsci, não pretendo desperdiçar minha compaixão com os indiferentes.

O genial compositor Taiguara, de quem tive a honra de ser chamado amigo, certa vez cantou: “A pior morte que existe é se viver inutilmente”. O idiota é alguém que vive inutilmente.

Um conselho: afaste-se dos idiotas. Eles não são inofensivos.

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*Luiz Henrique Lima é doutor em Planejamento Ambiental, professor e escritor

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