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Opinião|Uma arte em extinção

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Escrever cartas é algo que já desapareceu. As mensagens hoje são rápidas, em WhatsApp. O Brasil é o país que mais se utiliza desse aplicativo. Mas escrever para parentes e amigos foi prazer e obrigação. A correspondência não é senão o envio de um conteúdo emotivo a alguém importante, quase sempre na esfera afetiva.

Os antigos abusavam de uma correspondência assídua e intensa. Há muitos livros que hoje guardam, como antiguidades, a troca de missivas entre amigos. Mário de Andrade foi um missivista profuso. Outro foi Machado de Assis, que se correspondia com muitas pessoas.

Retrato de Machado de Assis feito pelo fotógrafo Marc Ferrez Foto: Tiago Queiroz/Estadão

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Uma dessas obras, que podem ser consideradas arqueológicas, é exatamente a correspondência entre Machado de Assis e Magalhães de Azeredo. Hoje esquecido, Azeredo foi embaixador do Brasil junto à Santa Sé e faleceu em Roma a 4 de novembro de 1963, aos noventa e dois anos. Foi o último dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ingressara aos vinte e cinco anos.

Durante vinte anos ambos – Machado e Azeredo - trocaram cartas. A obra literária de Magalhães de Azeredo não se compara com a do bruxo do Cosme Velho. Porém, na epistolografia ele foi um dos mais prestigiados brasileiros. Era na verdade um sedutor, pois os amigos se abriam para ele, confessando particularidades e intimidades. Nele confiaram os maiores intelectuais brasileiros e estrangeiros de sua era: Olavo Bilac, Mário de Alencar, Coelho Neto, Joaquim Nabuco, Graça Aranha, Max Fleiuss, Eça de Queiroz, José Maria Heredia, Sully Proudhomme e Salvatore di Giacomo, dentre outros.

Cento e trinta e sete cartas de Machado de Assis o tornam a pessoa que mais trocou ideias confidenciais com o “Pai da Academia”. Azeredo tratava Machado de “Mestre e Amigo”.

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A primeira carta publicada no livro foi a resposta escrita por Machado em 14 de janeiro de 1894. Ao reclamar do calor da capital, Machado menciona que “o verão entrou com todos os seus fornos acesos. Há muito não temos estação tão cálida. Não há sequer a compensação das noites, que em muitos lugares são mais ou menos frescas. Aqui têm sido insuportáveis. A de ontem, após três noites de temporal, pode ser dormida com sossego. Sabe que padeço muito com o calor. Creio que já escrevi algures, mas faça de conta que não: nunca pude entender o verso de Álvares de Azevedo: “Sou filho do calor, odeio o frio”. Não odeio o frio, adoro-o, este aqui, ao menos, que é apenas uma fresca e deliciosa primavera”.

O que diria Machado de Assis em nossos dias, ele que também escrevia para os jornais, ao saber que 2023 foi o ano mais quente da História? Em 125 mil anos, a humanidade não enfrentou ano mais quente do que 2023.

Machado já sentia o peso dos anos. Numa carta de 26 de maio de 1895, afirmava: “Cansado de longos trabalhos, não robusto, vejo irem-se os anos, mais depressa do que vieram, e não sei se, em breve, terei de parar, à espera que passe o trem derradeiro, que me levará ao meu lugar eterno. Revertere ad locum tuum”.

Em 25 de abril de 1897, Machado menciona a sua obra de estimação: a Academia Brasileira de Letras: “Tenho que lhe dizer que, pelos estatutos, deve inaugurar-se no dia 1º de maio, e assim está combinado, mas quero ver se adiamos a cerimônia. Temos boa sala de empréstimo; melhor é que a inauguração se faça em sala definitiva, e há promessa de uma excelente; não está ainda concedida, mas a promessa vale pela concessão. De um ou de outro modo, creio que a Academia irá adiante”.

Machado nunca teve boa saúde. Em 25 de dezembro de 1898, dia de Natal, escreve: “Interrompi a carta por motivo de doença. Ainda sinto alguns vestígios do mal, mas este passou. Note que não fui para a cama e apenas faltei um dia ao gabinete, mas não podia acabar deveras a carta”.

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Embora desejoso de conhecer a Europa, o bruxo intuía que nunca iria viajar: “Onde estarei eu então? Uma das suas cartas (creio que a última) falava de me ver na Europa, e particularmente nessa Roma, que tanto e de tanta coisa fala. Sei que lhe daria prazer com isto, e pode adivinhar qual seria o meu. Entretanto, se não posso inteiramente dizer que não irei lá nunca, pois ninguém sabe onde estará amanhã, é todavia improbabilíssimo que lá vá. Terei vivido e morrido neste meu recanto, velha cidade carioca, sabendo unicamente de oitiva e de leitura o que há por fora e por longe”.

De fato, nunca foi à Europa. Mas é lido em todos os continentes, é atemporal e prova que até em sua correspondência, o legado é um patrimônio de que o Brasil deve se orgulhar.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-geral da Academia Paulista de Letras

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