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Carlos Bolsonaro aprovou menos de uma lei por ano em 23 anos na Câmara do Rio

Eleito em uma disputa contra a própria mãe, o vereador do Rio vai disputar o sexto mandato nesta eleição; o parlamentar não discursa em plenário desde 2015

Foto do author Rayanderson Guerra
Por Rayanderson Guerra

RIO – Em 23 anos de legislatura na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos) aprovou menos de um projeto de lei de autoria própria – e sem a coautoria de outros parlamentares – por ano. Das 43 leis aprovadas, 19 são assinadas apenas por Carlos Bolsonaro. Ativo nas redes sociais e considerado o “cabeça” por trás das estratégias de comunicação das campanhas vitoriosas do clã da zona oeste do Rio, Carlos como parlamentar não parla. Desde 2015, o vereador não faz um discurso em plenário.

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Segundo dados da Câmara Municipal, Carlos aprovou 67 propostas em que aparece como autor ou coautor: seis emendas à Lei Orgânica, cinco Leis Complementares, 43 Leis Ordinárias, sete Decretos Legislativos e seis Resoluções.

A trajetória do “zero dois” do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na Câmara Municipal foi alçada pelo pai no ano 2000, em uma vingança contra a então vereadora Rogéria Nantes Braga Bolsonaro, ex-mulher de Bolsonaro e mãe de três dos cinco filhos do ex-chefe do Executivo. O capitão reformado do Exército escalou Carlos, de 17 anos, para disputar com a mãe, de 40, a preferência do eleitorado carioca.

O vereador Carlos Bolsonaro em sessão da Câmara Municipal do Rio no dia 7 de junho de 2022 Foto: Flávio Marroso/CMRJ

Carlos Bolsonaro não respondeu aos contatos do Estadão até a publicação desta reportagem.

Mãe e filho concorreram naquela eleição de 1º de outubro. Ao fim da apuração, Carlos Bolsonaro venceu a própria mãe. Foi eleito com 16.053 votos, o mais jovem vereador do Rio. Rogéria, com 5.109, amargou a suplência e o fim de uma carreira política começada em 1992.

“Filho de troglodita, troglodita é”, disse Jair Bolsonaro ao Estadão dias depois da eleição, comemorando a vitória do filho, que atribuiu à “transferência de votos”. “Não foi uma eleição de filho contra mãe, mas sim de filho com o pai”, disse. “Para mim, ela já está morta há muito tempo”, complementou, referindo-se à ex-mulher, de quem já estava separado há três anos.

Eleito com o voto do eleitorado militar do Rio de Janeiro, Carlos fez alguns acenos ao grupo desde que assumiu o cargo, em 2001. Aprovou quatro leis com benefícios a agentes de segurança e seus familiares que vão desde a reserva de vagas a filhos de policiais militares que tenham sido mortos em serviço em escolas de ensino fundamental à isenção de impostos para viúvas de PMs, bombeiros e guardas civis.

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A atuação do jovem vereador, no entanto, foi discreta. Aprovou a alteração de regras para mudança de nomes de ruas e avenidas, regras sobre o uso de estacionamento na capital fluminense e criou o caderno cívico-escolar na rede de ensino da prefeitura.

A tímida atuação no processo legislativo se refletiu na participação de Carlos nos discursos e debates em plenário da Casa. Em apenas sete ocasiões assumiu a tribuna para falar aos colegas: em todas, com ataques direcionados a grupos minoritários, ao PT e ao PSOL.

“Vejam a que ponto chegamos! Quero fazer um apelo ao prefeito Eduardo Paes, visto que ele foi um dos pioneiros na aplicação do Plano Nacional em Defesa dos Direitos dos LGBT na cidade, com a criação do selo, com o estágio remunerado para gays, que não leve isso para as escolas de primeiro grau porque estarão incentivando nossas crianças a serem homossexuais, passando-lhes filmetes, sob a desculpa de que combatem a homofobia, mas que apenas estimulam o homossexualismo”, afirmou em discurso em maio de 2011.

‘Rachadinha’ na Câmara Municipal

E não foi pelos discursos inflamados, pelas leis aprovadas ou pela desenvoltura nos bastidores do Palácio Pedro Ernesto – sede do legislativo carioca – que o filho do ex-presidente ganhou os holofotes. Carlos Bolsonaro é alvo de investigação por suspeita de nomear no seu gabinete funcionários que lhe repassariam, totalmente ou em parte, seus salários, na prática conhecida como “rachadinha”. Ao todo, 11 servidores foram alvos de investigação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). A maioria é ligada a Ana Cristina Siqueira Valle, que não é mãe de Carlos, mas foi casada com o pai do vereador.

O vereador Carlos Bolsonaro em sessão na Câmara do Rio em 10 de maio de 2022 Foto: Renan Olaz/CMR

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Em 2023, um laudo do MP apontou que um ex-chefe de gabinete de Carlos recebeu, no acumulado de nove anos, mais de R$ 2 milhões de ex-servidores da equipe do vereador. Os procuradores também investigam Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro e ex-chefe do gabinete de Carlos. Sete parentes de Ana Cristina ocuparam cargos de confiança na equipe do vereador.

Carlos Bolsonaro nega os indícios de prática ilícita. Nas redes sociais, ele já chegou a dizer que o inquérito do MP estava “requentando” acontecimentos passados. “Na falta de fatos novos, requentam os velhos que obviamente não chegaram a lugar nenhum e trocam a embalagem para empurrar adiante a narrativa”, declarou o filho do ex-presidente em agosto de 2021, após ter a quebra de sigilos bancário e fiscal autorizada pela Justiça do Rio.

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