A aprovação das chamadas pautas-bomba pelo Senado nesta semana representou mais uma derrota do governo Lula. O resultado expôs a desarticulação política de seus líderes, especialmente o do Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), e do Senado, Jaques Wagner (PT-BA), e explicitou também a falta de coerência entre discurso e prática dos governistas. Resultado: a fatura poderá ser um rombo no orçamento que chega a R$ 250 bilhões para a União, Estados e municípios.
Um exemplo ocorreu na Comissão de Constituição e Justiça, na aprovação de um regime de aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde. Enquanto os senadores de oposição Oriovisto Guimarães (PSDB-PR) e Tereza Cristina (PP-MS) alertavam para o impacto orçamentário que a matéria poderia trazer, chegando inclusive a pedir vista, os parlamentares do PT e aliados do Planalto defendiam a aprovação da matéria.
Foram favoráveis à aprovação os petistas Fabiano Contarato (ES) e Rogério Carvalho (SE), além de Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB) e Weverton Rocha (PDT-MA).
“É evidente que esse pessoal (agentes comunitários) merece, mas não adianta aprovar e não ter dinheiro para pagar”, alertou Guimarães.
“Só acho que estamos abrindo uma porteira. Temos uma série de categorias querendo isso”, disse Tereza Cristina, que retirou o pedido de vista diante da insistência de governistas.
Líderes ausentes
Irritado com a falha na articulação, e ciente de que os senadores estão mais interessados em acenar para suas bases eleitorais do que em proteger o governo, o Palácio do Planalto já sinalizou que deve ir ao Supremo Tribunal Federal (STF) para conter a entrada em vigor dos projetos aprovados pelos senadores, inclusive os aliados.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também conta com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PR), para ajudá-lo a travar a tramitação de uma das medidas. A pauta da Casa já está paralisada por conta da urgência do projeto de lei que trata do fim da escala de 6x1, e o governo conta com isso para ganhar tempo.
Uma das pautas-bomba aprovadas, a renegociação de dívidas de produtores rurais, um aceno do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), à bancada do agronegócio, voltará à Câmara porque foi modificada pelos senadores. Lula também pode vetar ao menos parcialmente o projeto.
“Sempre dá para segurar na Câmara”, disse um aliado de Hugo Motta, reclamando, entretanto, que “a disputa de Lula e Alcolumbre sobrou para o Hugo”.
Após a derrota do governo, interlocutores de Jaques Wagner afirmaram que ele minimizou mais uma vez as atitudes de Alcolumbre, acreditando que o presidente do Senado não pautaria as propostas com a proximidade das eleições, e que teria sinalizado que não o faria. A Coluna do Estadão entrou em contato e o espaço está aberto para manifestação de Jaques Wagner.
Para o economista André Perfeito, da Garantia Capital, a briga entre Congresso e governo pode tornar mais agudo o processo de percepção fiscal que se traduz em juros mais elevados.
“Esse mal estar político está se traduzindo de forma econômica, através da indisciplina fiscal dessas pautas-bomba, que vai se traduzir numa leitura reiterada de juros elevados no Brasil. E isso tem custos para a sociedade como um todo”, afirmou Perfeito à Coluna.

Governo acumula derrotas no Senado
Desde o ano passado, o governo acumula derrotas no Senado, em uma relação cada vez mais estremecida entre o presidente Lula e Davi Alcolumbre.
- Em junho de 2025, o Congresso derrubou três decretos de Lula sobre a alta do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), uma perda de arrecadação que foi estimada em R$ 10 bilhões para o ano. O governo contava com o aumento no IOF para cobrir o rombo nas contas públicas e foi ao STF para tentar manter em vigor os decretos. O ministro Alexandre de Moraes restabeleceu parcialmente a validade dos decretos;
- Em agosto do ano passado, o governo perdeu a presidência da CPMI do INSS por uma falha de articulação política. Na época, Randolfe chegou a dizer que “o time entrou de salto alto e subestimou o adversário”;
- Em abril deste ano, o advogado-geral da União, Jorge Messias, foi rejeitado para a vaga aberta no STF, o primeiro “não” dado pelo Senado a uma indicação desde 1894. A derrota fragorosa expôs falhas na articulação do governo Lula e a força de Davi Alcolumbre junto aos pares;
- No dia seguinte, o Congresso derrubou o veto de Lula ao projeto da Dosimetria, que reduz a pena para os condenados por atos golpistas do 8 de Janeiro, e que pode beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).



