Um olhar crítico no poder e nos poderosos

Um olhar crítico no poder e nos poderosos

Lula dizer que ‘nunca foi esquerdista’ muda o quê, na eleição, nas Américas e no mundo?

Petista tem uma posição razoavelmente confortável no primeiro turno, mas sua margem no segundo não lhe dá garantia de nada

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Foto do autor Eliane Cantanhêde

Não é novidade o presidente Lula dizer agora que “nunca foi esquerdista”, mas o local, o momento e o ambiente político da América do Sul indicam que, desta vez, há uma clara intenção eleitoral, para ficar bem com o grande capital no Brasil e no mundo. Logo, foi um movimento calculado, em pleno G7, o grupo dos países mais ricos.

Já em agosto de 2003, durante viagem à Venezuela, no seu primeiro mandato, Lula reagiu a uma pergunta minha com ênfase: “Em toda minha vida, nunca gostei de ser rotulado de esquerda e, quando me perguntaram se eu era comunista, eu respondi: ‘Sou torneiro mecânico’”.

O presidente Lula declarou que não é de esquerda Foto: Pedro Kirilos/Estadão

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A fala de Lula contra o “rótulo de esquerda” foi ao lado do então presidente venezuelano Hugo Chávez, temido pelo capital e pelas elites no Brasil, e pouco mais de um ano depois da “Carta aos Brasileiros”, em que, como candidato da esquerda, ele quis acalmar a direita, assumindo o compromisso de manter contratos nacionais e internacionais. Na “carta” e na fala em Caracas, Lula quis dizer algo como: “Sou de esquerda, mas não muito”.

Naquele primeiro ano de governo, ele estava sendo elogiado pela direita do que pela esquerda no Brasil e, na resposta para mim, disse: “Eu não negocio com os empresários porque sou presidente. Eu sempre negociei com os empresários, desde que era líder sindical”.

Desconversou, porém, sobre as críticas que recebia da esquerda, que atribuiu aos “corporativistas” contrários à reforma da Previdência. Não custa lembrar que esses “corporativistas” eram todos de esquerda e havia, entre eles, líderes e setores do próprio PT.

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Dando um salto de 23 anos, chegamos a um contexto muitíssimo diferente, com o mundo comandado por tipos como Trump, Putin, Netanyahu e o Brasil transformado numa ilha na América do Sul, onde sete países estão nas mãos da direita e só o Uruguai também está à esquerda, além dos pequenos Suriname e Guiana.

A eleição na Colômbia, historicamente de direita, aliada e base para operações militares dos EUA, é significativa. A guinada à esquerda durou pouco, apenas os quatro anos de Gustavo Petro, cujo candidato foi derrotado pelo advogado e empresário Abelardo de la Espriella, ou “El Tigre”, um “outsider” milionário sem passagem pelo poder público, cheio de elogios para Trump e Millei.

Assim como Keiko Fujimori no Peru, Espriella venceu por menos de 1% dos votos, confirmando que a polarização política não é exclusividade do Brasil, pelo contrário, perpassa a nossa região e se espalha mundo afora, mas o fato é que, pequena ou não, essa diferença vem favorecendo a direita.

Como o próprio Trump, o senador Flávio Bolsonaro comemorou o resultado na Colômbia, como “um triunfo das agendas de direita na América Latina” que, segundo ele, incluem a luta contra narcotráfico, corrupção e aumento de impostos, com liberdade e prosperidade.

Num post, o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcanti (RJ), foi mais direto: “Peru e Colômbia endireitando. Em outubro, será o Brasil”. Se depender de Trump e seus seguidores, na região e mundo afora, pode até ser, mas as eleições serão decididas pelos brasileiros.

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Pelas pesquisas, Lula tem uma posição razoavelmente confortável no primeiro turno, mas sua margem no segundo não lhe dá garantia de nada. A direita nacional vai se unir. Dizer que “nunca foi esquerdista” vai mudar alguma coisa?

Opinião por Eliane Cantanhêde

Também é comentarista da Rádio Jornal (PE)