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Lula x Bolsonaro em SP: Por que pesquisas eleitorais dão resultados discrepantes? Entenda

Nesta semana, Ipec deu vantagem de 16 pontos porcentuais a petista, enquanto Quaest apontou Bolsonaro em empate técnico

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Por Davi Medeiros
Atualização:

Duas pesquisas eleitorais relativas à disputa presidencial em São Paulo aferiram resultados bastante discrepantes nesta semana. Enquanto o Ipec mostrou o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 16 pontos de vantagem sobre o presidente Jair Bolsonaro (PL) no Estado, o resultado da Quaest colocou o chefe do Executivo empatado com o petista na margem de erro. Ambas as sondagens foram feitas na primeira semana de setembro, ou seja, praticamente no mesmo período.

Lula e Bolsonaro apresentam desempenhos discrepantes em pesquisas realizadas no Estado de São Paulo. Foto: Amanda Perobelli/REUTERS e Dida Sampaio/ESTADÃO

Especialistas consultados pelo Estadão afirmam que essa diferença é causada por questões metodológicas. O coordenador do Conselho de Opinião Pública da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), João Francisco Meira, diz que duas sondagens só poderiam ser rigorosamente comparadas se aplicassem o mesmo questionário e usassem a mesma amostra, ou seja, o mesmo grupo representativo da população.

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“Você tem de ver amostra, questionário e variáveis como escolaridade, renda e religião. Provavelmente, há diferenças importantes das variáveis entre as duas amostras. Finalmente, ainda tem a questão da dispersão geográfica. São Paulo é um Estado muito grande, tem de espalhar essa amostra”, afirma Meira. Um questionário aplicado no Morumbi, na capital paulista, por exemplo, terá respostas diferentes de um aplicado no interior, explica ele. Faz diferença, portanto, a dispersão geográfica, isto é, por quais locais os institutos espalham as entrevistas.

“Só são rigorosamente comparáveis pesquisas que usam o mesmo questionário, a mesma distribuição amostral e a mesma dispersão geográfica”, diz. “Se não for, você deve atribuir essa diferença ao design amostral de uma e de outra.”

Como a desatualização do Censo impacta uma pesquisa?

O cientista político Felipe Nunes, CEO da Quaest Pesquisa e Consultoria, afirma que a empresa trabalha com uma “profunda diferença metodológica” em relação ao Ipec. A peça-chave para entender a diferença, segundo ele, é a proporção de pessoas com baixa renda na amostra.

Já Meira observa que os institutos sofrem com dados oficiais desatualizados, uma vez que o último Censo é de 2010. “Muitas vezes, é preciso estimar.” A Quaest, por exemplo, considera que 25% da população de São Paulo recebe até dois salários mínimos. O Ipec, por sua vez, quando vai a campo, não faz a distinção por faixa de renda.

“Trata-se de uma profunda diferença metodológica. Nós, da Quaest, utilizamos cota de renda no campo, o Ipec, não. Por causa disso, nossas amostras são muito diferentes. Na ausência de um Censo atualizado, a Quaest usa a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) anual para calcular a proporção de renda familiar que precisa ser representada em nossas amostras. Nós encontramos 25% de pessoas com renda domiciliar de até 2 salários, exatamente o resultado encontrado na Pnad publicada em 2022”, afirma.

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Ordem das perguntas influencia na sondagem?

A CEO do Ipec, Márcia Cavallari, atribui a diferença à ordem das perguntas nos questionários aplicados. Ela confirma que o instituto não trabalha com cota por renda, por se tratar de uma variável “muito sensível e de difícil aplicação em campo”, mas observa que os resultados para governador estão semelhantes para ambos os institutos. Por isso, segundo ela, a ordem em que as perguntas seguintes foram feitas pode ter influenciado o resultado.

“As fontes prováveis das diferenças nos resultados das pesquisas normalmente decorrem do período de campo no qual são realizadas, da metodologia usada e do questionário aplicado”, afirma.

“O Ipec não controla suas amostras por renda por tratar-se de uma variável muito sensível e de difícil aplicação em campo. Além disso, não usamos a renda como variável de controle da amostra porque ela está sujeita à economia do País e pode mudar muito ao longo do tempo. Optamos por controlar a amostra com variáveis mais estáveis”, explicou Márcia. “De toda forma, não acho que essa diferença metodológica possa ser a causa da diferença dos resultados das duas pesquisas, pois na pergunta para governador, que está logo no início do questionário, os resultados estão bem alinhados. As diferenças maiores ocorrem na pergunta de intenção de voto para senador e presidente, e daí a ordem dos dois questionários é bem diferente. Neste caso, atribuo mais a diferença ao questionário.”

Ferramentas e confiabilidade

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Vale destacar que as pesquisas eleitorais, assim como qualquer análise estatística, se propõem a fornecer um retrato aproximado da realidade. Pode haver dissonância nos resultados de um instituto para o outro. Meira ressalta que é importante para o eleitor interpretar os dados em uma série histórica, observar o desempenho dos candidatos em uma trajetória ao longo da campanha. Por isso, há elementos que apontam a confiabilidade de uma sondagem.

Como mostrou o Estadão, as eleições deste ano são marcadas por um aumento de 582% nos questionamentos judiciais ligados a sondagens. Para auxiliar o eleitor na depuração dos dados, o Estadão lançou um agregador de pesquisas: a Média Estadão Dados equilibra discrepâncias metodológicas entre diferentes sondagens e calcula o panorama mais provável do cenário eleitoral. A plataforma, interativa, permite ao usuário consultar votos totais e válidos, entre outros recortes.

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