Vendaval de prejuízos em SP: sem energia, moradores tentam salvar comida da geladeira e trabalhar
Mais de um milhão de imóveis seguem sem energia elétrica na Grande São Paulo nesta quinta-feira, 11 de dezembro de 2025.
A prevenção a apagões como o que afeta a Grande São Paulo nesta semana – desta vez registrado após o vendaval mais forte que já atingiu a capital paulista, com ventos de até 98 km/h – passa por uma série de medidas de prevenção e reforço da rede, segundo especialistas consultados pelo Estadão. Nos próximos anos, dizem eles, eventos climáticos extremos devem ficar mais intensos e frequentes, o que eleva o risco de interrupções do serviço.
As soluções vão desde enterrar a fiação elétrica – alternativa de maior impacto, ainda que mais cara – até uma política mais estruturada de podas das árvores e um mapeamento mais ágil da velocidade dos ventos. Além de, claro, dinamizar o atendimento aos endereços afetados.
Em nota, a concessionária Enel diz ter “cumprido integralmente suas obrigações contratuais e regulatórias, assim como o Plano de Recuperação apresentado em 2024 à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica)”, e cita investimento recorde (leia mais abaixo).

Uma soma de fatores contribuiu para o blecaute desta seamna, que teve pico de 2,25 milhões de imóveis na tarde de quarta-feira, 10, e ainda atinge 731.492 imóveis na tarde desta sexta-feira, 12.
Para pesquisadores, as chuvas do começo da semana contribuíram para deixar o solo molhado ao longo dos dias seguintes. Com os fortes ventos, houve registros de queda de árvores em diferentes regiões – foram mais de 1,6 mil chamados até o fim da tarde de quinta, segundo o Corpo de Bombeiros. Galhos e troncam que caem na fiação causam interrupções do serviço.
A estimativa é de prejuízo, para o setor de comércio e serviços, de R$ 1,5 bilhão, segundo o setor. Moradores correm para salvar estoques de comida e usam até tomadas de shopping para trabalhar.
Auditoria de setor técnica do Tribunal de Contas da União (TCU), nove dias antes do blecaute, havia recomendado a intervenção federal na Enel, defesa semelhante à feita pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
O Ministério de Minas e Energia, por sua vez, apontou “disputa política” no debate, disse ter mobilizado equipes da concessionária para reparos, mas não falou em ação federal. O contrato com a Enel vale até 2028 e o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), acionou a Justiça para evitar a renovação antecipada.
Veja as principais estratégias para evitar novos blecautes, segundo os especialistas:
Enterramento de fiação elétrica
Solução apontada como mais eficiente para evitar a falta de energia, o enterramento da fiação avança devagar diante do custo alto – a estimativa é de que redes subterrâneas sejam cerca de 10 vezes mais caras do que os fios nos postes.
Em 2022, a promessa da gestão municipa era de 65,2 km até o fim do ano passado, o que não foi cumprido. Desde 2017, o programa SP Sem Fios enterrou 46,5 km de rede até agora – são cerca de 20 mil fios na capital.
A nova meta da Prefeitura é ultrapassar os 88 km até o fim de 2026, “dependendo do avanço conjunto das empresas responsáveis pelas obras (como a Enel e as empresas de telecomunicações) e pelos aportes financeiros”.
“O ideal mesmo seria enterrar todos os cabos, igual Nova York, Londres e Paris, mas o custo é 10 vezes maior do que uma rede aérea”, afirma Edval Delbone, engenheiro eletricista e professor do Instituto Mauá de Tecnologia. “Então, deveria ser feito, mas muito a longo prazo”, defende.
Redes compactas e automação
Delbone afirma que, enquanto o enterramento de fios não avança, uma alternativa é trabalhar com as chamadas redes compactas. “Hoje, a maior parte das redes é convencional: são três cabos, com três fases. O cabo é desencapado, não tem isolação, e fica em cima das cruzetas dos postes”, afirma.
“O que poderia ser feito é substituir as redes convencionais pelas compactas, em que os cabos ficam mais próximos e há um separador que os deixa um longe do outro”, explica. Além disso, os cabos desse tipo de rede têm uma pequena isolação, evitando os riscos de curto-circuito em extremos climáticos.
Segundo ele, redes desse tipo podem evitar com que ventanias ou quedas de galhos façam uma fase encostar na outra, muitas vezes resultando no desligamento do disjuntor. Tóquio, que enfrenta problemas climáticos variados, é considerada uma referência nesse sentido.

O engenheiro afirma que ganham força também recursos de automação, em que chaves desligam diante de fortes ventos, mas religam automaticamente após um tempo. “Depois de algumas tentativas, se o problema persistir, ela desliga e aí sim um técnico de manutenção vai ao local para fazer o religamento”, diz Delbone.
Podas e monitoramento de árvores
Especialistas afirmam que a poda de árvores, majoritariamente feita pela Prefeitura, deve ser trabalhada com mais inteligência, de modo a evitar quedas em momentos de chuva. Em Vancouver, no Canadá, por exemplo, há uma medida para impedir que árvores de troncos grandes fiquem perto de cabos elétricos.
Para Bruno Lima, coordenador do curso de Engenharia Elétrica da Universidade Presbiteriana Mackenzie, uma política mais efetiva de podas e plantio de árvores teria efeito até maior do que a adoção de redes compactas. “Quando cai uma árvore do tamanho das que caíram em São Paulo, mudanças na fiação podem não ser suficientes”, diz.
Ele afirma que em algumas regiões, como no Sumaré, na zona oeste, a Enel tem precisado “recondutorar” as linhas de distribuição. “Tem de relançar cabos de novo e até levantar postes. É uma situação em que precisa fazer a rede de novo, de tão danificada que ela foi”, destaca.
Na China, afirma ele, há estratégias para monitorar o desenvolvimento das plantas, inclusive com sensores. “São tecnologias usadas para fazer a previsão do crescimento das árvores, de acordo com cada espécie, e para ter melhor previsão de quando a poda deve ser realizada ou a árvore retirada.”
Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), aponta que a Prefeitura vem trabalhando em um novo mapa das cerca de 650 mil árvores da cidade usando a tecnologia LiDAR, que permitirá acompanhamento mais preciso das espécies pela cidade. Esse processo, no entanto, ainda não foi concluído.
A última contagem foi feita há 10 anos, por meio de fotos aéreas, sem detalhamento sobre o estado das árvores. O novo censo arbóreo começou pela Vila Mariana, zona sul, e será estendido a todos os bairros.
Tecnologia e mapeamento de ventanias
Lima cobra ainda que concessionárias como a Enel devem focar em análise preditiva, com investimento em algoritmos e inteligência artificial. “Isso permite prever melhor as situações e deslocar as equipes mais rápido para os locais onde a rede tem uma necessidade maior de manutenção”, diz.
Segundo pesquisadores, cidades do interior e do litoral paulista que também enfrentaram vendaval têm redes primárias de distribuição mais simples. O controle, diante disso, se torna menos complexo do que em uma cidade do porte de São Paulo, além de a assistência da concessionária poder ser feita de forma mais dinâmica.
Em São Paulo, destacam-se negativamente bairros como Lapa, Pompéia e Vila Madalena, na zona oeste, onde são comuns fiações mais antigas e árvores altas, uma combinação perigosa para a falta de luz.

Em 2025, a Prefeitura diz ter feito 170 mil podas preventivas e removido 11 mil árvores com perigo de queda após laudo de engenheiro agrônomo, conforme a Secretaria Municipal das Subprefeituras.
“A Prefeitura está com 172 equipes de manejo arbóreo nas ruas. Na quarta, houve plantão emergencial com outras 142 equipes. Os profissionais chegam rapidamente. O problema é que dependemos da Enel”, afirmou o secretário da pasta, Fabrício Cobra Arbex, ao Estadão na noite de quinta.
Enquanto isso, Buckeridge afirma que seria importante fazer mapeamento mais preciso da velocidade dos ventos de baixa altitude, o que ajuda a explicar melhor a relação entre chuva, vento e queda de árvores. “Parece que o fenômeno de falta de energia dessa vez foi além dos problemas com as árvores”, diz Buckeridge.
A Enel afirma que, desde novembro de 2023 até outubro de 2025, a companhia registrou melhora de 50% tempo médio de atendimento emergencial. “Já as interrupções com mais de 24 horas de duração reduziram em 90% no mesmo período”, diz.
A concessionária diz ainda que tem investido volume recorde de recursos para expandir e modernizar a rede elétrica e reforçou de forma estrutural seu plano operacional para reduzir problemas. A Enel afirmou ter mobilizado mais de 1,3 mil equipes para atender os clientes após o vendaval.








