Nos últimos meses, um oficial de Justiça foi ao menos três vezes até o número 949 da Avenida Paulista. A principal foi às 10h de uma quarta-feira, 20 de agosto, quando executou o despejo da empresa que, anos atrás, havia anunciado com pompa e ampla divulgação a escolha daquele endereço para o primeiro Hard Rock Hotel de São Paulo. Hoje, resta uma placa de “aluga-se” no local, no centro expandido.
Oito anos após empresários brasileiros liderarem a empreitada, contudo, a obra não foi executada, nem mesmo depois da instalação temporária de um estande de divulgação nos Jardins. O estado de abandono do icônico prédio — conhecido pelas formas curvas e afuniladas — levou seus donos a ingressarem com ação, onde também cobram dívida de mais de R$ 17 milhões.
O fracasso da iniciativa se deve em parte à crise financeira e imbróglios diversos envolvendo as empresas ligadas ao empreendimento, planejado para ser um hotel cinco estrelas. Em agosto, outra empreitada do mesmo grupo (o Hard Rock Hotel Fortaleza) teve a venda de cotas imobiliárias temporariamente proibida depois de variadas denúncias e judicialização.
A principal responsável pelo empreendimento é a Residence Club — antiga Venture Capital Participações e Investimentos (VCI). A holding foi procurada pelo Estadão diversas vezes ao longo de quase duas semanas, por meio de sua assessoria de imprensa e defesa, mas não respondeu. Em julho, havia respondido que estava em tratativas sobre o futuro da empreitada.

O despejo ocorreu praticamente à revelia, pois a Residence Club se manifestou na ação judicial apenas em outubro (sete meses após o ajuizamento). Na ocasião, a holding defendeu a redução da multa moratória (de 10% para 2%), além de criticar argumentos do grupo dono do prédio. “Alegações expendidas na inicial não refletem a realidade fática nem contratual. São, ao revés, construções narrativas parciais e dissociadas dos fatos concretos”, alegou.
Também atribuiu a situação em parte à sua crise financeira, que liga a fatores macro e microeconômicos “alheios a sua vontade”, como a pandemia, o aumento da taxa de juros, o encarecimento das matérias-primas, a suposta inadimplência de clientes e outros aspectos conjunturais. Além disso, responsabiliza parte dos problemas ao CEO, Samuel Sicchierolli, que vendeu a participação há dois anos.

Já o antigo CEO respondeu à reportagem que “cumpriu rigorosamente com todas as obrigações”, o que teria sido atestado por auditoria — assim como atribuiu a “situação financeira delicada” a “fatores macroeconômicos”, como a não realização de investimentos prometidos por terceiros. Ainda elencou medidas da sua gestão que teriam avançado na implantação do hotel, como aprovações variadas e demolições no interior do prédio.
O edifício fazia parte de uma empreitada bilionária de empresários brasileiros para a implantação de oito empreendimentos ligados à famosa marca internacional (como franquias). O prédio em si é de propriedade do Grupo Savoy desde 2001, que locava o imóvel à Residence Club por cerca de R$ 1,9 milhão ao mês, além dos impostos e encargos.
À reportagem, o grupo disse planejar uma reforma na torre e analisar “propostas de locação”. Na ação de despejo, alegou que o prédio não tinha vigilância 24 horas e estava vulnerável a invasões.

Por enquanto, o prédio segue com ares de abandono, com pichações e vidros quebrados nas duas fachadas (a da Paulista e a da Alameda Santos). Em paralelo, a empresa aberta para o empreendimento teve a inscrição estadual cancelada no Cadastro de Contribuintes de ICMS do Estado de São Paulo (Cadesp) em outubro.
Hoje chamado de Torre Paulista, o prédio é conhecido pelas formas curvas e afuniladas (de “tobogã” ou “escorregador”), assim como por ter sido sede do banco japonês Sumitomo. A situação de abandono e fracasso da empreitada do Hard Rock Hotel ganhou repercussão após reportagem do Estadão, em julho.
O edifício é um ícone da Avenida Paulista, localizado em frente ao prédio da Gazeta. Foi projetado pelo renomado arquiteto Jorge Zalszupin (em parceria com José Gugliotta) — conhecido especialmente pelo trabalho com mobiliário (como as poltronas do STF).
Como seria o Hard Rock Hotel São Paulo?
As tratativas para criação do hotel foram firmadas com o Grupo Savoy em 2017, com a assinatura de contrato no ano seguinte. Com isso, todos os escritórios que tinham sede no prédio deixaram o local. A última atualização previa aluguel até 2052.

No contrato, a então VCI se comprometia a investir R$ 58 milhões na empreitada. Desse total, R$ 40 milhões eram para as obras e R$ 18 milhões em taxas de franquia, projeto arquitetônico e compra de equipamentos, móveis e enxoval.
O endereço foi publicamente divulgado em 2019, com a escolha do Edifício Torre Paulista por ser “bonito por fora e icônico”. No contrato, consta que o hotel seria cinco estrelas, com entrada pela Alameda Santos, e que o prédio teria parte da arquitetura alterada para a abertura de mais janelas nas laterais.
A principal diferença do empreendimento paulistano em relação aos demais anunciados pela mesma holding é que seria voltado exclusivamente para a hotelaria. Já os demais têm o modelo de multipropriedade. O Estadão procurou a Hard Rock International, mas não obteve retorno.
Em relação ao contrato, o Grupo Savoy chegou a assinar três aditamentos. Em um deles, se comprometia a aumentar de R$ 25 milhões para R$ 50 milhões o montante que emprestaria para o custeio da obra. Também aceitou suspender a cobrança do aluguel por 18 meses, entre 2023 e 2024.
A Savoy é proprietária do prédio desde 2001, quando o comprou da Sumitomo Corporation do Brasil, por R$ 19 milhões (em valores não atualizados). Até a locação para o projeto de hotel, o grupo ocupava parte do edifício, enquanto alugava o restante a organizações diversas.
O empreendimento chegou a obter alvará de execução de reforma na Prefeitura, na categoria “serviços de hospedagem”, embora a obra não tenha sido realizada. Já, no Estado, a empresa criada para o hotel está inativa no Cadesp desde o fim de junho, com suspensão em agosto e, por fim, cassação em outubro.
Como estava o prédio? E como foi o despejo?
Os problemas na manutenção externa do prédio foram confirmados por oficial de justiça em maio, o qual afirmou: “o local aparenta estar abandonado: lixo na porta, pichação, correntes no portão, ninguém atende e sujidades”. Ele também destacou que atua há cerca de cinco anos na região da Paulista e que “nunca presenciou o edifício que corresponde a este endereço aberto”.

No cumprimento do mandado de despejo, o oficial alegou que alguém que se identificava como representante do empreendimento confirmou que o imóvel estava desocupado. “O mesmo levou os bens do requerido para lugar próprio; ficando o local livre de coisas e pessoas”, disse.
Fotografias a que o Estadão teve acesso indicam o estado de abandono também na parte interna do prédio. Em diversos andares, havia entulho variado, paredes parcialmente demolidas, vidros quebrados e outros problemas. Já as escadarias tinham cartazes afixados com o nome da VCI, uma parte com indicação do que era previsto para o local, como “rooftop bar”.
Hotéis Hard Rock pelo País: atrasos e multas
A Residence Club foi criada no ano passado para assumir os projetos dos hotéis após executivos do mercado de multipropriedade adquirirem o controle acionário da VCI. Isso ocorreu após uma série de problemas financeiros e jurídicos, além de queixas de clientes e atrasos.
Antes, em meio à crise, a holding havia anunciado até a criação de uma criptomoeda e teve o registro suspenso temporariamente na Comissão de Valores Mobiliários, o que foi revertido. Além disso, o plano de expansão foi reduzido, com a desistência de ao menos metade dos oito hotéis anunciados, como o de Campos do Jordão (SP).

Segundo relatórios da holding, a VCI foi fundada em 2016, com foco no “investimento direto em projetos hoteleiros de alto padrão, com a marca Hard Rock Hotel”. Esses materiais também dizem que era responsável pelo controle de “todos os processos, desde o desenvolvimento do projeto, comercialização, construção e operação”.
A Residence Club é hoje responsável pelas obras do Hard Rock Hotel Fortaleza (em Paraipaba, no Ceará) e Hard Rock Hotel Ilha do Sol (em Sertaneja, no Paraná). Há, ainda, planos para o Hard Rock Jeri (em Jijoca de Jericoacoara, também no Ceará), descrito como “coming soon” (“em breve”).
Os projetos do Paraná e Ceará passaram por investigações, penalidades e judicialização. Esses questionamentos envolvem principalmente clientes que compraram cotas imobiliárias.
Apenas em 2024, por exemplo, o Programa Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor do Ministério Público do Ceará emitiu duas multas. Uma foi por dois anos de atraso na obra (de R$ 12,3 milhões), enquanto a outra envolvia o repasse de encargos a clientes (de R$ 6,6 milhões).
Nesse cenário, em agosto, o MP do Ceará determinou a suspensão de vendas de cotas imobiliárias do hotel de Paraipaba “até que sejam adotadas medidas para corrigir irregularidades referentes a contratos, descumprimento de prazos e atraso nas obras”. “Em diligências fiscalizatórias realizadas no local, a empresa afirmou não existe previsão para finalização das obras”, disse em comunicado.
Segundo o Ministério Público, unidades do Hard Rock Café Fortaleza são vendidas no modelo multipropriedade desde 2018. Mais de 10 mil contratos teriam sido firmados. Há relatos de abordagens de transeuntes em pontos turísticos do Ceará, a fim de captar possíveis clientes.
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Hard Rock tem estabelecimentos no Brasil? E em São Paulo?
Fundada por americanos em Londres, em 1971, a marca Hard Rock é vinculada a hotéis, cassinos, cafés e outros estabelecimentos de hospitalidade em mais de 70 países. A empresa trabalha geralmente com franquias.
No Brasil, em funcionamento, está exclusivamente em cafés, como em Florianópolis, Curitiba, Gramado e Porto Alegre. O único estabelecimento em São Paulo hoje é o Hard Rock Café de Ribeirão Preto, em funcionamento desde 2021, mas há projetos para outras cidades paulistas, como Praia Grande, na Baixada Santista, e a capital.

Por que o prédio é icônico?
Originalmente chamado de Edifício Aquarius, o Torre Paulista é caracterizado pelas formas curvas e afuniladas. Um de seus autores é Jorge Zalszupin, renomado arquiteto polonês radicado no Brasil.
Ele assinou os projetos originais do Shopping Ibirapuera, na zona sul, e do Top Center, também na Paulista, dentre outros. Além disso, sua antiga residência hoje funciona como casa museu e galeria de arte, nos Jardins.
Conforme o cadastro na Prefeitura, o prédio tem 19,1 mil m² de área construída. Está em um terreno de 2,2 mil m², com endereço principal na Paulista e entrada secundária pela Alameda Santos.








