Recursos oriundos do crime organizado serão usados na compra de veículos e aeronaves, diz Derrite
Segundo secretário de segurança de SP, atual gestão já tem em caixa quase R$ 18 milhões.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo planeja criar um departamento próprio para os crimes cibernéticos na Polícia Civil. A ideia é dar conta da migração de delitos das ruas, como furtos, para o ambiente virtual, com a escalada dos golpes.
Segundo os dados mais recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de estelionatos no Brasil atingiu 1,96 milhão em 2023. A popularização do Pix e dos aplicativos bancários também tornou smartphones roubados na rua uma porta de entrada para lucros maiores com golpes online.
No mundo digital, facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) também têm diversificado caminhos para lavar dinheiro e multiplicar suas receitas.

Outro objetivo do novo departamento é dar conta dos crimes de ódio nas redes sociais, como o compartilhamento de imagens de abuso sexual e incitação a automutilação. Em grande parte dos casos, as vítimas são crianças e adolescentes.
Hoje, a Divisão de Crimes Cibernéticos está dentro do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). A expectativa do secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite, é criar essa nova estrutura até março do ano que vem.
“Não só por criar um departamento, uma diretoria, mas com aumento do número de delegacias e de efetivo por causa da migração de crimes para o meio cibernético”, afirmou ele, em entrevista ao Estadão. “Assim como a Rota foi pioneira na década de 1970.”
A criação do departamento depende de decreto do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Leia também
Uma das experiências que inspiram a criação do departamento é o Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), comandado pela delegada Lisandréa Salvariego. “Já aumentamos o efetivo desse núcleo, que funciona 24 horas por dia”, acrescentou o secretário.
Dados da secretaria apontam que, até o início do mês, 748 pessoas foram alvos do monitoramento do Noad. Em três operações deflagradas, 25 adolescentes infratores foram apreendidos e 17 pessoas foram presas.
Um caso recente foi a prisão, em Pernambuco, de um suspeito de ameaçar de morte o influenciador Felca e uma psicóloga. Segundo a polícia, o jovem de 21 anos chegou a invadir o sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para inserir ilegalmente um mandado de prisão contra o youtuber.
O trabalho dos agentes inclui a utilização de softwares de inteligência e de policiais civis infiltrados na deepweb e na darkweb.
Em alguns casos, os bandidos cooptam crianças e adolescentes (maioria meninas), em plataformas de jogos virtuais, criam vínculos de confiança e trocam imagens íntimas.
Com esse material em mãos, chantageiam as vítimas a fazer desafios violentos, como automutilação, agressão contra animais e até indução ao suicídio. Adotam também a estratégia de hackear sistemas do governo e ameaçar a vítima de cortar benefícios de familiares se desobedecer ao pedido.
“Eles (os criminosos) têm grande poder para fazer isso porque quase sempre são hackers. Obtêm acesso e fazem dívidas nos cartões do pai ou da mãe da vítima, cortam a luz, a água. Elas (vítimas) sabem que eles são capazes de cumprir as ameaças", disse ao Estadão em julho a delegada Lisandréa Salvariego, coordenadora do Noad.
O monitoramento realizado pela equipe do Noad ajudou a salvar vítimas. Conforme a Polícia Civil, foram 162 desde a criação do núcleo.
Ainda segundo Derrite, para montar essa equipe é necessário esperar a formação de um novo grupo de 3,5 mil policiais civis atualmente em formação na Academia de Polícia (Acadepol).






