Polícia Civil desmonta fábrica de bebidas clandestinas em Americana (SP)
Policiais recolheram mais de 17 mil produtos no local, mas metanol não foi encontrado. Crédito: Polícia Civil de São Paulo
A série de intoxicações por metanol pelo Brasil expõe o tamanho da cadeia criminosa de adulteração de bebidas alcoólicas no País. As autoridades reforçam a ofensiva contra as quadrilhas, que envolvem fábricas clandestinas, desvio de substâncias tóxicas e redes de revenda de garrafas vazias para falsificadores.
O metanol pode levar à cegueira e à morte. Há no País casos em investigação em São Paulo, Pernambuco, Distrito Federal, Paraná, Bahia e Mato Grosso do Sul. O Ministério da Saúde recomendou evitar destilados no momento.
O metanol é um solvente sem odor nem cor características, e de fácil de diluição. Mais barato, o metanol é usado para aumentar os lucros com a venda de produtos caros, como uísque, gim e vodca.
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A polícia acredita em contaminação das bebidas no início da cadeia de produção. Entre as possibilidades, estão destilarias “de fundo de quintal” ou desvio da indústria química.
Outra hipótese é a falha no uso da substância para higienizar vasilhames - o que pode ter ocorrido na indústria regular ou ilegal. Por ora, as autoridades paulistas descartam elo com o Primeiro Comando da Capital (PCC). A Polícia Federal apura se há relação.
Conforme a Associação Brasileira de Combate à Falsificação, o total de fábricas clandestinas fechadas no Brasil saltou de 12, em 2020, para 80 no ano passado. Uma a cada cinco garrafas de uísque ou de vodca vendida no País é falsificada, diz estudo feito pela Euromonitor International para a Associação Brasileira de Bebidas Destiladas.

As fábricas variam de garagens domésticas a galpões equipados com máquinas de envase, mas compartilham uma característica: nenhuma segue padrões mínimos de higiene ou controle sanitário.
Em muitos desses locais, tonéis plásticos reaproveitados e possivelmente contaminados servem de recipiente para misturas de destilados sem comprovação de pureza ou qualidade.
Foi um cenário assim que a polícia flagrou em uma fábrica clandestina em uma chácara de Americana (SP) no dia 1º. Imagens obtidas pelo Estadão revelam uma máquina de envase de seis bicos instalada sobre a pia de uma cozinha comum. “Era uma fábrica bem estruturada, que abastecia não só o comércio local (no interior), mas também a capital”, diz o delegado Wagner Carrasco, do Deic.

Na cidade de São Paulo, a Polícia Civil já apreendeu 4,5 mil garrafas de bebidas adulteradas desde a segunda-feira.
Andreia Kohout, diretora da Divisão Farmacêutica e de Saúde da Associação de Combate à Falsificação, cita três categorias principais de fraude.
- falsificação (criar produto similar aos original com substâncias de baixa qualidade),
- adulteração (diluir produtos originais com outras substâncias para aumentar o volume e lucro);
- produção irregular (fabricação por empresas não classificadas ou qualificadas, sem documentação e inspeção sanitária).
Segundo o presidente do Conselho Regional de Química do Rio de Janeiro, Harley Martins, adulterações não costumam ser feitas com metanol justamente porque não há limite seguro para a ingestão da substância.
“Dez ou quinze mililitros em uma garrafa de um litro de destilado já seriam suficiente para provocar grande estrago”, diz. Isso reforça a hipótese de um problema maus pontual de algum foco de falsificação.
Em nota, a Associação Brasileira de Indústria Química informa que o metanol não é produzido no Brasil: tudo é importado e empregado em atividades industriais, como na produção de biodiesel e na síntese de produtos químicos.
Cuidado com a garrafa
Outro elo da cadeia criminosa está no reaproveitamento de garrafas originais. Muitos estabelecimentos revendem cascos vazios — que deveriam seguir para reciclagem — e até nas redes sociais há anúncios desse material.
A Polícia Civil prendeu nesta sexta-feira, 3, Ilson do Amor Divino, de 50 anos, apontado como um dos principais fornecedores de insumos usados para a falsificação de bebidas não só na capital, mas em outras regiões do Estado.
Ele é investigado por vender garrafas, tampas, rótulos, caixas para embalagem e até selos falsificados de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que eram colados nas garrafas para simular originalidade. A defesa do suspeito não foi localizada.
A suspeita da polícia é de que ele manipulava mais de 10 mil garrafas por mês. Depois, repassava garrafas de bebidas como gim, vodca e uísque para locais responsáveis por realizar o envase no interior de São Paulo.

Uma vez prontas, as bebidas finalmente eram vendidas em estabelecimentos da Grande São Paulo, incluindo cidades no ABC Paulista.
Ainda não dá para saber se o esquema é o mesmo que resultou na série de intoxicações. “Tudo indica que está relacionado”, disse ao Estadão Paul Verduraz, delegado da Divisão de Investigações sobre Furtos e Roubos de Veículos.
“Ele admitiu que recolhe essas garrafas nos exatos locais onde as bebidas são posteriormente vendidas, que são adegas, baladas e bares. Ele as limpa e depois as repassa para os locais onde são envasadas de forma ilegal”, afirma.
A polícia também investiga dois irmãos como suspeitos de manipular bebidas em Campo Limpo, na zona sul. Segundo a investigação, eles substituíam o conteúdo de garrafas por líquidos de bebidas mais baratas ou produzidos de forma artesanal, colocando tampas e lacres falsificados. O foco eram marcas importadas, vendidas como se fossem originais.
Ao todo, foram apreendidos 1,8 mil lacres e tampas de uísques de diferentes marcas nacionais e importadas, além de três garrafas vazias.
A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) recomenda que bares e restaurantes inutilizem recipientes, quebrando lacres, marcando o vidro ou descartando-os sem a tampa. Alguns donos de estabelecimentos até quebram as garrafas para não abastecer as quadrilhas.
“Falsificar a garrafa é caro e difícil; por isso os criminosos preferem usar originais já consumidas”, afirma Gabriel Pinheiro, presidente da entidade. “Uma dica simples para dificultar a ação de falsificadores: não descarte a garrafa com tampa.”
Outro empresário, que trabalha há 10 anos no ramo de bares e restaurantes na zona leste e pediu anonimato, afirmou que já perguntaram para ele várias vezes se queria vender as garrafas vazias. Segundo ele, fornecedores do comércio de bebida ilegal pagam de R$ 10 a R$ 20 por garrafa original para catadores de lixo.
O papel dos atravessadores
As bebidas adulteradas chegam aos bares e restaurantes por meio de atravessadores que negociam, na maioria das vezes, sem nota fiscal e por preços menores.
Segundo a delegada Fabíola Alves, divisionária da Saúde Pública do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania, a identificação desses atravessadores é chave “justamente para chegar à linha final: quem fabricou a bebida com metanol”.
Um dos dez estabelecimentos interditados no Estado de São Paulo - o Bar Torres, na Mooca - não apresentou documentos de origem de parte da mercadoria e alegou ter comprado de um fornecedor antigo — suspeito de atuar com fábricas clandestinas.
Nas redes sociais, o estabelecimento disse que “todos os produtos são adquiridos de distribuidores oficiais e parceiros de longa data” e afirmou colaborar “integralmente com todos os órgãos de fiscalização competentes”.
Para o empresário André Silveira, do Grupo Hungry (que reúne alguns bares, como Jobim e Garota da Vila), diferenças superiores a 10%, numa pesquisa de preços entre diferentes fornecedores, deve acender o sinal de alerta sobre o risco de fraude. “Uma garrafa de uísque de R$ 80 não pode ser vendida por R$ 57. Algo está errado.”








