Rede de falsificação de bebidas tem fábricas de fundo de quintal e garrafas desviadas

Polícia ainda investiga hipóteses sobre contaminação do metanol nos destilados; setor estima adulteração em 20% das garrafas vendidas

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Foto do autor Gonçalo Junior
Foto do autor Ítalo Lo Re
Atualização:

Polícia Civil desmonta fábrica de bebidas clandestinas em Americana (SP)

Policiais recolheram mais de 17 mil produtos no local, mas metanol não foi encontrado. Crédito: Polícia Civil de São Paulo

A série de intoxicações por metanol pelo Brasil expõe o tamanho da cadeia criminosa de adulteração de bebidas alcoólicas no País. As autoridades reforçam a ofensiva contra as quadrilhas, que envolvem fábricas clandestinas, desvio de substâncias tóxicas e redes de revenda de garrafas vazias para falsificadores.

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O metanol pode levar à cegueira e à morte. Há no País casos em investigação em São Paulo, Pernambuco, Distrito Federal, Paraná, Bahia e Mato Grosso do Sul. O Ministério da Saúde recomendou evitar destilados no momento.

O metanol é um solvente sem odor nem cor características, e de fácil de diluição. Mais barato, o metanol é usado para aumentar os lucros com a venda de produtos caros, como uísque, gim e vodca.

A polícia acredita em contaminação das bebidas no início da cadeia de produção. Entre as possibilidades, estão destilarias “de fundo de quintal” ou desvio da indústria química.

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Outra hipótese é a falha no uso da substância para higienizar vasilhames - o que pode ter ocorrido na indústria regular ou ilegal. Por ora, as autoridades paulistas descartam elo com o Primeiro Comando da Capital (PCC). A Polícia Federal apura se há relação.

Conforme a Associação Brasileira de Combate à Falsificação, o total de fábricas clandestinas fechadas no Brasil saltou de 12, em 2020, para 80 no ano passado. Uma a cada cinco garrafas de uísque ou de vodca vendida no País é falsificada, diz estudo feito pela Euromonitor International para a Associação Brasileira de Bebidas Destiladas.

As fábricas variam de garagens domésticas a galpões equipados com máquinas de envase, mas compartilham uma característica: nenhuma segue padrões mínimos de higiene ou controle sanitário.

Em muitos desses locais, tonéis plásticos reaproveitados e possivelmente contaminados servem de recipiente para misturas de destilados sem comprovação de pureza ou qualidade.

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Foi um cenário assim que a polícia flagrou em uma fábrica clandestina em uma chácara de Americana (SP) no dia 1º. Imagens obtidas pelo Estadão revelam uma máquina de envase de seis bicos instalada sobre a pia de uma cozinha comum. “Era uma fábrica bem estruturada, que abastecia não só o comércio local (no interior), mas também a capital”, diz o delegado Wagner Carrasco, do Deic.

Polícia Civil descobriu fábrica clandestina de bebidas em Americana, no interior de São Paulo Foto: Reprodução/Polícia Civil de SP

Na cidade de São Paulo, a Polícia Civil já apreendeu 4,5 mil garrafas de bebidas adulteradas desde a segunda-feira.

Andreia Kohout, diretora da Divisão Farmacêutica e de Saúde da Associação de Combate à Falsificação, cita três categorias principais de fraude.

  • falsificação (criar produto similar aos original com substâncias de baixa qualidade),
  • adulteração (diluir produtos originais com outras substâncias para aumentar o volume e lucro);
  • produção irregular (fabricação por empresas não classificadas ou qualificadas, sem documentação e inspeção sanitária).

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Segundo o presidente do Conselho Regional de Química do Rio de Janeiro, Harley Martins, adulterações não costumam ser feitas com metanol justamente porque não há limite seguro para a ingestão da substância.

“Dez ou quinze mililitros em uma garrafa de um litro de destilado já seriam suficiente para provocar grande estrago”, diz. Isso reforça a hipótese de um problema maus pontual de algum foco de falsificação.

Em nota, a Associação Brasileira de Indústria Química informa que o metanol não é produzido no Brasil: tudo é importado e empregado em atividades industriais, como na produção de biodiesel e na síntese de produtos químicos.

Cuidado com a garrafa

Outro elo da cadeia criminosa está no reaproveitamento de garrafas originais. Muitos estabelecimentos revendem cascos vazios — que deveriam seguir para reciclagem — e até nas redes sociais há anúncios desse material.

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A Polícia Civil prendeu nesta sexta-feira, 3, Ilson do Amor Divino, de 50 anos, apontado como um dos principais fornecedores de insumos usados para a falsificação de bebidas não só na capital, mas em outras regiões do Estado.

Ele é investigado por vender garrafas, tampas, rótulos, caixas para embalagem e até selos falsificados de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que eram colados nas garrafas para simular originalidade. A defesa do suspeito não foi localizada.

A suspeita da polícia é de que ele manipulava mais de 10 mil garrafas por mês. Depois, repassava garrafas de bebidas como gim, vodca e uísque para locais responsáveis por realizar o envase no interior de São Paulo.

Homem foi encontrado na zona leste de São Paulo Foto: Deic/Polícia Civil

Uma vez prontas, as bebidas finalmente eram vendidas em estabelecimentos da Grande São Paulo, incluindo cidades no ABC Paulista.

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Ainda não dá para saber se o esquema é o mesmo que resultou na série de intoxicações. “Tudo indica que está relacionado”, disse ao Estadão Paul Verduraz, delegado da Divisão de Investigações sobre Furtos e Roubos de Veículos.

“Ele admitiu que recolhe essas garrafas nos exatos locais onde as bebidas são posteriormente vendidas, que são adegas, baladas e bares. Ele as limpa e depois as repassa para os locais onde são envasadas de forma ilegal”, afirma.

A polícia também investiga dois irmãos como suspeitos de manipular bebidas em Campo Limpo, na zona sul. Segundo a investigação, eles substituíam o conteúdo de garrafas por líquidos de bebidas mais baratas ou produzidos de forma artesanal, colocando tampas e lacres falsificados. O foco eram marcas importadas, vendidas como se fossem originais.

Ao todo, foram apreendidos 1,8 mil lacres e tampas de uísques de diferentes marcas nacionais e importadas, além de três garrafas vazias.

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A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) recomenda que bares e restaurantes inutilizem recipientes, quebrando lacres, marcando o vidro ou descartando-os sem a tampa. Alguns donos de estabelecimentos até quebram as garrafas para não abastecer as quadrilhas.

“Falsificar a garrafa é caro e difícil; por isso os criminosos preferem usar originais já consumidas”, afirma Gabriel Pinheiro, presidente da entidade. “Uma dica simples para dificultar a ação de falsificadores: não descarte a garrafa com tampa.”

Outro empresário, que trabalha há 10 anos no ramo de bares e restaurantes na zona leste e pediu anonimato, afirmou que já perguntaram para ele várias vezes se queria vender as garrafas vazias. Segundo ele, fornecedores do comércio de bebida ilegal pagam de R$ 10 a R$ 20 por garrafa original para catadores de lixo.

O papel dos atravessadores

As bebidas adulteradas chegam aos bares e restaurantes por meio de atravessadores que negociam, na maioria das vezes, sem nota fiscal e por preços menores.

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Segundo a delegada Fabíola Alves, divisionária da Saúde Pública do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania, a identificação desses atravessadores é chave “justamente para chegar à linha final: quem fabricou a bebida com metanol”.

Um dos dez estabelecimentos interditados no Estado de São Paulo - o Bar Torres, na Mooca - não apresentou documentos de origem de parte da mercadoria e alegou ter comprado de um fornecedor antigo — suspeito de atuar com fábricas clandestinas.

Nas redes sociais, o estabelecimento disse que “todos os produtos são adquiridos de distribuidores oficiais e parceiros de longa data” e afirmou colaborar “integralmente com todos os órgãos de fiscalização competentes”.

Para o empresário André Silveira, do Grupo Hungry (que reúne alguns bares, como Jobim e Garota da Vila), diferenças superiores a 10%, numa pesquisa de preços entre diferentes fornecedores, deve acender o sinal de alerta sobre o risco de fraude. “Uma garrafa de uísque de R$ 80 não pode ser vendida por R$ 57. Algo está errado.”

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