Crise do metanol esvazia bares em SP e faz paulistano trocar drinque por vinho e cerveja
Relatos de intoxicações muda vida noturna paulistana; estabelecimentos temem impacto no setor. Crédito: Ana Lourenço e Léo Souza/Estadão
Os recentes casos de intoxicação por metanol em bebidas alcoólicas, registrados especialmente em São Paulo, já mudaram a vida noturna. Em bares de regiões boêmias da capital paulista, já deu para notar nessa quinta-feira, 2, um número maior de mesas vazias.
Quem não quis abrir mão do happy hour decidiu trocar os destilados por vinho e cerveja, produtos com menos risco de adulteração, e até comprar a bebida no mercado.
Segundo especialistas, bebidas como gim, uísque e vodca são as principais na mira dos bandidos, por serem mais cara e oferecerem mais lucro com a falsificação.
O Estadão visitou bares de Itaim Bibi, Vila Madalena, Santa Cecília e Barra Funda , nas zonas sul, oeste e central da cidade, para ver o impacto na rotina. Os donos de bares têm reforçado - nas redes sociais e com os clientes - os protocolos de segurança, como comprar de fornecedores certificados.
Apesar disso, já sentem que a crise será um baque para o setor. “A gente sentiu como se fosse a pandemia”, conta Thais Cristina Roque, dona da Casa Gin, em Santa Cecília. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, recomendou evitar destilados.

Os relatos variaram, principalmente, em três possibilidades: os clientes já conhecem a casa e dizem estar seguros com o consumo, eles optam por outra bebida - não destilada - para evitar riscos ou e há quem pesquise a fundo o espaço em busca de informações antes de se sentir confiante para sair.
A jornalista Maira Modesto, de 27 anos, topou sair com os amigos na noite de quinta-feira, 2, mas adaptou o programa. “Paguei por um vinho superfaturado para fugir do destilado”, conta ela, que dividia uma garrafa de tinto com os amigos no Itaim Bibi.

Na Vila Madalena, Zhaira Gouvea, de 31 anos, também mudou os planos. “Estava louca para tomar uma caipirinha, mas e o medo de acordar cega? Morrer? Ir para UTI? Estou tomando minha cerveja, que é mais seguro”, diz.
Thais Lisboa, de 31 anos, optou por um chope em um bar da zona oeste. “A gente está indo só em lugar de confiança, questionando se o espaço tem a nota fiscal e se manter antenado nas notícias para entender tudo isso que está acontecendo”, diz.
Já a amiga Jennifer Ferino, de 24 anos, escolheu ficar abstêmia. “Preferi não tomar nada porque estou com medo”, afirma.

Para evitar a debandada dos clientes, os bares têm publicado nas redes sociais sobre os cuidados na compra de produtos e na prevenção de falsificações. Thiago Iamnhuque, de 40 anos, se guiou por isso para escolher o destino, na Barra Funda.
“É um lugar de referência, e a gente escolheu justamente porque fizeram publicação nas redes falando que negociam diretamente com quem fabrica, sem intermediário”, diz.
Teve gente que preferiu comprar o próprio produto para ficar mais seguro. “Optei por comprar latinha e evitar os engarrafados. Enquanto as investigações acontecem vou manter esse hábito”, diz Yuri Damacena, 33. Ele e a amiga bebiam suas cervejas compradas no mercado na esquina de uma rua cheia de bares, no Itaim.

Parte dos bares suspende venda de drinques
Para contornar a situação, há aqueles que optaram por suspender todos os drinques, como foi o caso do Agustin, no Itaim Bibi. Outros preferiram se manifestar nas redes sociais para o público, como a Casa Gin, na Santa Cecília.
“Por mais que todos os nossos fornecedores sejam homologados e certificados, a gente preferiu suspender os drinques e só vender, de fato, cerveja e vinho”, conta Gustavo Prado, gerente do Agustin.
Também houve clubes que suspenderam a venda de bebidas destiladas.
A Casa Gin aposta em materiais informativos nas redes para atrair de volta os frequentadores. “A gente sentiu como se fosse a pandemia. A gente abre, as ruas estão vazias, e então comecei a fazer vídeos informativos”, conta a proprietária, Thais Cristina Roque.
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O metanol é usado como matéria-prima para combustíveis e é impróprio para consumo humano, mas estaria sendo utilizado na falsificação de bebidas alcoólicas. Em forma pura, ele tem gosto levemente adocicado e alcoólico, parecido com o etanol, e não tem odor forte característico. Em destilados com 30% ou 40% de teor alcoólico, não é perceptível no sabor.
Metanol: quais cuidados tomar?
- Verificar a origem do produto, certificando-se de que o lacre da embalagem esteja intacto.
- Desconfiar de preços muito abaixo do mercado e pontos de venda informais.
- Verificar as embalagens e recusar aquelas com rótulo mal impresso ou com erros. Além de ausência de CNPJ, lote ou data de validade.
- Ficar atento a características atípicas na bebida, como odores estranhos, cores e consistência incomuns.
- Ao notar alguma diferença, não fazer testes caseiros como cheirar, provar ou tentar queimar a bebida. Essas práticas não são seguras nem conclusivas.
- Em bares e restaurantes, se houver alguma desconfiança, vale pedir que o garçom sirva a bebida na frente do consumidor.
Embora sintomas como náuseas e vômitos possam ser confundidos com os de uma ressaca comum, eles costumam se manifestar de forma mais intensa. Caso sinta algum sinal, procure atendimento médico imediatamente.







