As novas medicações para o tratamento da obesidade e do diabetes estão revolucionando o tratamento dessas doenças, proporcionando não apenas perda de peso, mas também melhora em diversas condições metabólicas. No entanto, o uso desses remédios tem se expandido para além do público indicado. Pessoas sem obesidade ou diabetes, motivadas apenas por questões estéticas, estão recorrendo à semaglutida – o princípio ativo dessas drogas.
Essa banalização – que, infelizmente, por vezes ocorre até mesmo com indicação de médicos – levanta um alerta: quais são as consequências do uso indiscriminado? A verdade é que ainda não sabemos. Não há estudos que avaliem os efeitos da semaglutida em indivíduos saudáveis, o que significa que quem opta por usá-la nessas condições está, na prática, participando de uma roleta russa.
No caso de médicos que fazem indicação, estão jogando com a saúde do paciente. Isso porque, assim como ocorre com os anabolizantes, pode ser que esses medicamentos não causem grandes impactos no curto prazo, mas há possibilidade de vermos prejuízos severos para a saúde no longo prazo.

Uma coisa importante que precisamos sempre lembrar é que ausência de evidência (de risco à saúde) não significa evidência da ausência (de risco). Mesmo sem estudos específicos sobre essa população, a ciência já nos fornece pistas importantes do que pode ocorrer.
Dados sobre dietas restritivas em indivíduos eutróficos (ou seja, com o peso adequado) mostram que, no longo prazo, dependendo da qualidade e intensidade da restrição, além do reganho de peso, há grandes chances de que a pessoa ganhe mais quilos do que perdeu. Depois de um tempo, então, pode ser que ela fique mais pesada do que era originalmente.
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Uma das teorias que explicam por que esse efeito é mais pronunciado em pessoas já com peso e composição corporal adequados do que em indivíduos com excesso de quilos é que o corpo possui um intervalo de peso e gordura corporal no qual ele busca se manter, conhecido como “set point”. Se alguém saudável insiste em baixar seu peso para um patamar inferior ao que seu corpo reconhece como seguro, mecanismos compensatórios são estimulados para restaurar esse equilíbrio. Esse é um dos motivos pelos quais perder os “últimos três quilos” é tão difícil — evolutivamente, nosso corpo não entende a magreza extrema como desejável. Ele não está programado para atender aos padrões estéticos da nossa época, e sim para garantir nossa sobrevivência em tempos de escassez. É uma briga árdua entre o que “o corpo quer” e o que o dono do corpo deseja.
Não são raros os casos de pessoas que iniciaram dietas restritivas no passado e, anos depois, percebem que estão com um peso muito maior do que o inicial. E, pior, ao olhar fotos antigas, concluem que não havia necessidade de ter feito aquela dieta em primeiro lugar.
Dá para fazer um paralelo com a medicação. Após a interrupção do uso, ou caso o remédio pare de fazer efeito (o que ocorre em alguns casos), nosso corpo dispara um mecanismo que provoca um aumento da fome e uma redução no gasto energético – facilitando, assim, a recuperação do peso perdido.
Além disso, a perda de peso induzida por semaglutida não ocorre apenas às custas da gordura. Estudos indicam que até 40% dessa perda podem vir de massa magra, o que inclui músculos e, potencialmente, prejuízos no metabolismo ósseo. Esse ponto é especialmente preocupante em adolescentes – um grupo que já começou a aderir ao uso da semaglutida para fins estéticos. Pesquisas em adolescentes com anorexia nervosa, por exemplo, demonstram que a restrição alimentar, que também ocorre com a medicação, pode comprometer o desenvolvimento ósseo, aumentando o risco de osteoporose na vida adulta. As implicações para eles, em longo prazo, podem ser graves e irreversíveis.
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Ainda vai demorar um tempo para compreendermos, de fato, os impactos do uso dessas medicações por quem não precisa delas. Alguns especialistas dizem que estamos diante de um dos maiores experimentos populacionais já conduzidos, sem que haja um real entendimento das suas consequências no longo prazo. O que acontecerá até lá?
Assim como no caso do uso indiscriminado de esteroides anabolizantes, cujos impactos negativos – como problemas cardiovasculares e hormonais – podem levar anos para se manifestar, o uso de semaglutida por quem não precisa também pode trazer consequências que só serão conhecidas no futuro. Alguns nem perceberão sua relação com as alterações ou doenças que apresentarão, enquanto outros se silenciarão, por vergonha ou culpa. Já atendi em consultório casos de homens que tiveram complicações renais e/ou cardiovasculares severas por conta de anabolizantes, mas ficaram com vergonha de admitir ao médico o uso de tais substâncias no passado.
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A pressão para um corpo magro é intensa, e as soluções rápidas são tentadoras. Mas usar medicamentos para atingir um padrão estético pode trazer riscos graves. Ainda que os estudos sobre indivíduos saudáveis não existam, relatos de efeitos colaterais são frequentes: náuseas, indisposição, problemas intestinais severos, refluxo, hipoglicemia, entre outros. Se uma pessoa emagrece porque mal consegue comer devido aos efeitos adversos da medicação, essa, sem sombra de dúvida, não é uma perda de peso sustentável. E o que acontecerá quando o uso for interrompido? O rebote será praticamente garantido.
O uso indiscriminado de medicamentos para fins estéticos pode se tornar uma armadilha metabólica e, diante de tantas incertezas, a pergunta que fica é: quem estará disposto a pagar, e qual será o preço, quando os efeitos colaterais começarem a aparecer?

