Paraisópolis cria rede de solidariedade para conter danos do coronavírus

Auxílio a diaristas em aplicativo e distribuição de marmitas estão entre as ações na comunidade

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Por Márcia De Chiara
4 min de leitura

Comunidades carentes se organizam numa ampla rede de solidariedade para tentar colocar comida na mesa do brasileiro, enquanto o auxílio emergencial do governo de R$ 600 não chega à população que perdeu o trabalho do dia para noite por causa da pandemia do novo coronavírus.

Em Paraisópolis, zona Sul de São Paulo, foi criada a campanha “Adote uma diarista” dentro da plataforma digital Emprega Comunidade, que é uma espécie de LinkedIn da favela. Normalmente, essa rede profissional conecta empresas com candidatos que moram na periferia. Agora passou a ter também a função de ajudar as diaristas, dispensadas do trabalho, a terem alguma renda.

“Por conta da pandemia tivemos um crescimento muito grande do número de mulheres diaristas procurando apoio. Elas estão desesperadas porque não têm dinheiro para pagar aluguel, fazer as compras básicas”, diz Rejane Santos, fundadora do Emprega Comunidade.

Andréia Neres da Silva, doméstica de 42 anos. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

A intenção da campanha é ajudar as diaristas por três meses, oferecendo uma cesta básica, um kit com produtos de higiene e um bônus de R$ 300. Recursos doados por empresas, pessoas físicas e uma vaquinha virtual bancam a campanha. Rejane conta que a expectativa inicial era ajudar cerca de 500 diaristas, mas já recebeu a inscrição de mil. Destas, 150 estão recebendo o benefício.

Eduarda Dantas dos Santos, de 21 anos, é uma das diaristas que está recebendo ajuda do programa da comunidade. “Se não fosse isso, a gente não estaria aqui para contar a história”, diz. Com dois filhos pequenos, trabalhava como diarista fazia três anos e tirava cerca de R$ 2 mil por mês, indo a três casas por semana.

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Com a pandemia, a patroa americana voltou para os Estados Unidos. As outras duas a dispensaram sem oferecer qualquer ajuda. “A gente da periferia está numa situação difícil: se sair de casa morre, se ficar, passa fome. O governo tem que ajudar.” Eduarda fez a inscrição para receber o auxílio emergencial de R$ 600. Mas quando acessa ao site, a resposta tem sido: “pedido em análise”.

Esse também é resposta que a diarista Andréia Neres da Silva, de 42 anos, mãe de três filhos, tem recebido do programa de auxílio emergencial. Desde que foi dispensada, sem nenhum apoio, das quatro casas onde fazia faxina em bairros nobres da capital (Pinheiros, Morumbi e Moema), ela vive com R$ 130 que recebe do Bolsa Família, do programa da comunidade e de doações de pessoas que se sensibilizaram com sua situação, depois que o filho mais velho, também desempregado, colocou um pedido de ajuda nas redes sociais. “A situação é angustiante, desesperadora.”

Ela conta que apatroa de uma colega disse que, enquanto tivesse trabalho, a diarista também teria. “Que Deus abençoe, fico feliz pelo próximo também. Estamos todos no mesmo barco”, diz Andréia, sugerindo que essa seria a atitude que ela esperava por parte de suas patroas.

Mãos de Maria está distribuindo marmitas em Paraisópolis. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Andréia e Eduarda não estão sozinhas na falta de renda provocada pela pandemia. Estudo do Instituto Brasileiro de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base nos dados da Pnad contínua do IBGE, mostra que havia em 2018 (último dado disponível) 2,5 milhões de diaristas no País.

Janaína Mariano de Souza, presidente do Sindoméstica, que representa as empregadas domésticas da Grande São Paulo, diz que tem recebido de 20 a 25 mensagens por dia de diaristas pedindo ajuda. Mas, como elas não têm carteira assinada, a orientação é buscar o auxílio emergencial do governo. Aos empregadores que procuram a entidade, o pedido é que mantenham o pagamento da diária e que façam uma compensação posterior, conta.

Marmitas

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Elizandra Cerqueira, da Associação de Mulheres de Paraisópolis e sócia do empreendimento social Mãos de Maria, que além de outras atividades tem um restaurante na comunidade, viu seu negócio ser afetado pela pandemia. Para atender à demanda da comunidade por alimentação e continuar empregando 20 cozinheiras, ela e a sócia decidiram produzir marmitas que são distribuídas de graça para os moradores da favela.

“Desde 23 de março já distribuímos 15 mil marmitas e a demanda tem sido maior do que esperávamos”, diz Elizandra. Ela criou uma vaquinha na internet, onde quem quiser contribuir compra uma marmita por R$ 10. O dinheiro é usado para a aquisição dos ingredientes e para pagar o salário das cozinheiras. Empresas e pessoas físicas, até aqueles que vivem no exterior, têm contribuído para bancar a marmita. A equipe também recebe doação em produtos para preparar as refeições.