Pesquisadores identificam 17 fatores de risco comuns a doenças cerebrais; veja quais são

Ao se debruçarem sobre a carga crescente de doenças como AVC, demência e depressão de início tardio, cientistas reforçam que a genética não é uma sentença e destacam o que está ao nosso alcance para evitar esses quadros

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Foto do autor Leon Ferrari
Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

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Os distúrbios neurológicos já são a principal causa de incapacidade no mundo. E as previsões para o futuro não são animadoras. É esperado um aumento na prevalência de doenças como as demências, o acidente vascular cerebral (AVC) e a depressão de início tardio (também chamada de depressão do idoso). Afinal, são quadros relacionados à idade — e a população mundial segue a crescer, ao mesmo tempo em que envelhece a passos largos.

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“Mesmo que as terapias para todos esses distúrbios estejam definitivamente melhorando, os tratamentos farmacológicos ainda são inadequados para lidar de forma eficaz com esses números tão expressivos e, consequentemente, com esse grande problema de saúde pública”, escreveu Giancarlo Logroscino, professor do Departamento de Neurologia Clínica e diretor da Unidade de Doenças Neurodegenerativas da Universidade de Bari Aldo Moro, na Itália, em um comentário editorial na revista científica Journal of Neurology, Neurosurgery, and Psychiatry.

Ele discorria sobre um novo estudo, publicado na mesma revista, de pesquisadores do Mass General Brigham (MGM), um dos principais centros médicos dos Estados Unidos, associado à Universidade Harvard. No trabalho, os cientistas elencaram 17 fatores de risco ou protetores associados às três doenças: demência, AVC e depressão de início tardio. Uma pesquisa ambiciosa que traz uma mensagem esperançosa: embora a genética seja um preditor importante para esses distúrbios, ela está longe de ser uma sentença.

Segundo os pesquisadores, as três doenças neurológicas apresentam uma fisiopatologia 'comum' Foto: jolygon/Adobe Stock

“Graças a estudos anteriores e a dados epidemiológicos de qualidade, sabemos que até 80% dos casos de AVC, 45% de demência e 35% de depressão do idoso estão ligados a fatores de risco modificáveis”, disse, ao Estadão, Jasper Senff, autor principal e pós-doutorando do Massachusetts General Hospital (MGH), que faz parte do MGM.

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“Não se trata de um trem desgovernado vindo na sua direção”, assegura a autora sênior Sanjula Singh, pesquisadora principal do Brain Care Labs no MGH. “Se sua mãe e sua avós tiveram Alzheimer, frequentemente as pessoas ficam muito assustadas achando que também vão desenvolver a doença. É claro que a genética é um fator muito importante para determinar o risco, mas, independentemente do risco genético, se você melhora seus comportamentos relacionados à saúde, reduz seu risco de desenvolver essas doenças.”

Em outro estudo, publicado na revista científica Neurology, utilizando o McCance Center Brain Care Score, uma ferramenta desenvolvida no MGH para avaliar a saúde cerebral com base em fatores de estilo de vida, eles conseguiram mostrar que melhorar a pontuação nesse score representou uma redução no risco das doenças, mesmo em indivíduos geneticamente predispostos a desenvolvê-las — um exemplo são pessoas com certas variantes do gene APOE, que tem um risco aumentado de enfrentar a doença de Alzheimer.

O Brain Care Score tem sido traduzido e adaptado para diversos países — no Brasil, ele está nesse processo. A ideia é que essa ferramenta ajude os pacientes a identificarem mudanças capazes de proteger o cérebro.

Os 17 fatores

O novo estudo trata-se de uma metanálise, ou seja, ele analisou diversas outras pesquisas e tentou buscar um denominador comum entre seus resultados. Para ter ideia, foram avaliadas 59 publicações — incluindo outras metanálises e também estudos observacionais (nos quais os pesquisadores analisam pacientes no chamado mundo real, sem fazer nenhuma intervenção).

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Após destrincharem esses trabalhos, os cientistas chegaram, então, aos 17 fatores. Alguns deles aumentaram o risco de desenvolver as doenças, enquanto outros reduziram. Veja:

Fatores de risco

  • Pressão alta (hipertensão)
  • Obesidade e sobrepeso
  • Níveis elevados de glicemia (glicose) em jejum
  • Colesterol total alto
  • Apresentar sintomas depressivos
  • Perda auditiva
  • Doença renal (redução da função renal)
  • Apresentar dor
  • Sono: dormir demais, ter insônia ou outro distúrbio/problema do sono (dormir de menos também parece aumentar o risco, mas esse desfecho não apresentou significância estatística no estudo)
  • Ser ou ter sido tabagista
  • Consumo de álcool
  • Relatar estresse

Fatores protetores

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  • Atividades cognitivas no tempo livre
  • Atividade física moderada e alta
  • Relatar propósito de vida

Efeito misto

  • Dieta: os pesquisadores analisaram grupos alimentares específicos. Então, enquanto a alta ingestão de verduras, legumes, frutas, laticínios, peixes e oleaginosas foi considerada protetora, o consumo elevado de carnes vermelhas, bebidas adoçadas com açúcar, doces e sódio foi associado a um maior risco de problemas cerebrais.
  • Engajamento social: o isolamento social foi considerado um fator de risco. Por outro lado, apresentar uma rede social maior teve efeito cerebral positivo.

A hipertensão e a doença renal, segundo os pesquisadores, tiveram o maior impacto na incidência das doenças, enquanto os exercícios e a atividade cognitiva foram ligados a um menor risco de desenvolvê-las.

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Sanjula destaca que, por ora, o estudo é capaz de mostrar associações. Ou seja, não está claro se os 17 itens da lista estão presentes na origem dessas doenças ou se, na verdade, atuam como sintomas.

“Especialmente nos casos da demência e da depressão de início tardio, às vezes é difícil distinguir o que é sintoma e o que é causa”, complementa Jasper. “A demência, por exemplo, tem um estágio prodrômico muito longo (neste caso, o cérebro já começa a sofrer alterações, mas os sintomas ainda são sutis demais para um diagnóstico), que pode durar até 20 anos antes do aparecimento da doença.”

“Então, se uma pessoa começa a dormir mais 20 anos antes do diagnóstico de demência, podemos nos perguntar se isso é realmente um fator de risco ou já um sintoma precoce da doença”, cita.

Sanjula aponta também que eles não encontraram muitas metanálises de alta qualidade sobre as associações com a depressão de início do tardio. “Esperamos que mais dados sejam publicados nesse sentido.”

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Segundo especialistas, existem alguns motivos para isso. A começar pelo fato de que sua definição é bastante restritiva: trata-se de uma depressão que se manifesta pela primeira vez após os 60 ou 65 anos de idade. Então, se uma pessoa tem um quadro depressivo quando jovem, e volta a enfrentar o problema na terceira idade, já não corresponde ao critério. Por isso, costuma ser bastante desafiador identificar esses pacientes.

Especialistas brasileiras ouvidas pelo Estadão, que não estiveram envolvidas no estudo, elogiaram a qualidade do trabalho e apontaram que ele traz insights importantes.

“É um estudo bom, um trabalho gigantesco. Analisaram quase 60 metanálises, é muita coisa”, afirma a geriatra Claudia Kimie Suemoto, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Porém, ela aponta que, para termos mais certeza dessas relações e números, é preciso replicar os dados. Isto é, conduzir outros estudos semelhantes e verificar se os mesmos resultados se repetem em outros contextos e populações, por exemplo.

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“A qualidade do estudo é excelente. É uma revisão sistemática, e toda revisão sistemática depende um pouco da qualidade dos estudos nos quais ela se baseia”, comenta a neurologista Gisele Sampaio, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Segundo ela, um ponto muito interessante é que o estudo “tira essas doenças das caixinhas”. “Normalmente, estudamos uma doença por vez. Quando olhamos para elas em conjunto, entendemos que vários fatores de risco são comuns. Então, as sociedades médicas que lidam com essas doenças específicas podem dar as mãos e tentar trabalhar em estratégias para a prevenção de todas elas.”

Por que estudar essas doenças em conjunto?

Os pesquisadores obviamente não analisarem essas doenças conjuntamente por acaso. De acordo com eles, as três compartilham “uma fisiopatologia comum”, que é a vascular. Na prática, ao longo do tempo, os pequenos vasos sanguíneos do cérebro passam a não funcionar adequadamente, seja por estreitamento ou obstrução, o que reduz o fluxo de oxigênio. Isso causa as chamadas isquemias, que podem levar a consequências graves.

“Sabemos que a presença de marcadores de doença cerebral de pequenos vasos está associada a um risco mais alto de demência, AVC e depressão de início tardio. Também observamos que pessoas que já sofreram um AVC — ou seja, sobreviventes de AVC — têm um risco maior de desenvolver comprometimento cognitivo, demência ou depressão”, descreve Sanjula.

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“Tudo está bastante interconectado. Não se trata exatamente da mesma patologia, é claro, mas há alguma sobreposição. Logo, faz sentido olhar para isso a partir de uma perspectiva mais humana, como gostamos de dizer”, completa.

Claudia pondera, no entanto, que existem outras causas importantes para explicar sobretudo a depressão de início tardio e as demências. Em relação ao AVC, o papel dos problemas vasculares já é mais evidente.

É tão fácil assim evitar um fator de risco?

Na visão dos pesquisadores, trabalhar com fatores de risco modificáveis para essas três doenças em conjunto é uma oportunidade de enfrentar a carga crescente desses quadros do ponto de vista populacional. “Se essas três doenças compartilham muita etiologia subjacente e muitos fatores de risco, pode ser mais fácil enfrentá-las todas de uma vez”, comenta Senff.

Vale ressaltar que, nesta lista de 17 fatores, muitos deles são amplamente conhecidos e apontados já há algum tempo como vilões para o cérebro — vide que muitos estão na lista de 14 fatores de risco modificáveis das demências da revista científica Lancet, publicada em julho do ano passado.

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Mas revelar esses fatores não significa que é tão simples combatê-los. Vale citar o exemplo da hipertensão: estima-se que quase metade dos adultos com a pressão alta não saibam que têm a condição. Entre os que sabem, apenas um em cada cinco (21%) está com a doença controlada, embora tenhamos drogas cada vez mais eficazes e entendimento de como mudanças no estilo de vida podem ajudar.

“O que gostaríamos de confirmar com pesquisas adicionais é o que mais motiva as pessoas a mudarem seu comportamento”, conta Sanjula.

Gisele aponta que é preciso de um olhar social, além do individual. “Estamos falando de como evitar a ocorrência desses fatores de risco, e muitos deles implicam em um paciente ter acesso à atividade cognitiva, a tempo livre, a fazer exercício, a ter um lugar seguro para se exercitar. As autoridades de saúde pública precisam pensar na população como um todo.”

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