Cenário real: a Nápoles de Elena Ferrante

Percorremos as ruas do 'bairro' que serve de cenário à tetralogia da escritora italiana, que conta a história das amigas Lila e Lenu

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Por Samia Mazzucco
Atualização:
3 min de leitura
Intervenção em rua do "bairro" da vida real coloca Lenu na janela Foto: Samia Mazzucco

O ano era 2017, estava pedindo indicações do que ler nas férias e uma amiga decretou: "Você precisa ler Elena Ferrante". Acatei a sugestão, embarquei com o primeiro exemplar da tetralogia napolitana debaixo do braço e terminei A Amiga Genial em poucos dias. Fui atingida pela mundial “febre Ferrante”, que já vendeu milhões de livros, e fiquei absolutamente obcecada em ler o segundo. Como viver sem saber o que acontece em seguida a esse casamento? Os romances relatam de forma crua e direta a amizade iniciada na infância de Elena Greco (Lenu), a narradora, e Raffaella Cerullo (Lila ou Lina), que atravessa 60 anos em meio a transformações e acontecimentos, delas e do mundo, como o feminismo, o machismo e a luta de classes. A relação eternamente dúbia entre as duas, de necessidade e repulsa, amor e ódio, briga e paz, inicia-se na periferia pobre e violenta de Nápoles, onde elas cresceram após a Segunda Guerra Mundial.

E é este bairro, que deixa marcas nas personalidades das personagens por toda a vida, justamente um dos cenários que gera fascínio entre os leitores de A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica, História da Menina Perdida. A boa notícia é que ele é real, é possível visitá-lo de graça e, ali, a ficção se materializa diante dos olhos. Fiz esse roteiro antes da pandemia do novo coronavírus, no segundo semestre de 2019. 

Está lá o túnel de três bocas que, quando crianças, Lila e Lenu atravessaram de mãos dadas para conhecer o mar, aonde nunca chegaram, em A Amiga Genial. Este episódio dá sinais dos rumos que cada uma seguiria: Lenu se delicia ao soltar as amarras daquela vida miserável, enquanto Lila quer voltar. A escola, onde a permanente competição e inveja entre as amigas foi ganhando forma e se acirrando ao longo do tempo, também está lá, ao lado da igreja do bairro, cenário de acontecimentos como (alerta de spoiler) o assassinato dos mafiosos irmãos Solara em sua escadaria.

O Luongomare, com o Vesúvio ao fundo Foto: Samia Mazzucco

Fora dos limites do bairro é possível explorar uma outra Nápoles retratada nos livros. No roteiro, a elegante área de Chiaia, onde os rapazes do bairro arrumaram briga com jovens ricos, o Lungomare, em que Lenu se deslumbrou ao ver o mar pela primeira vez, e a Via Toledo e o Rettifilo, sempre cheios de gente e lojas movimentadas.

Além do fascínio que a história exerce, há ainda o fato de que a verdadeira identidade da autora é conhecida apenas por seus editores italianos. Desde a década de 90 ela publica sob o mesmo pseudônimo na editora Edizioni E/O. Até hoje, Ferrante concedeu parcas entrevistas por e-mail e apenas uma pessoalmente, para seus editores, é claro, publicada na revista literária The Paris Review em 2015. Nessa rara oportunidade, ela explica porque não aparecer é importante para seu trabalho: “O vazio criado pela minha ausência foi preenchido pela própria escrita”.

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Não só pela escrita, mas pela possibilidade de se impressionar ainda mais ao conhecer cenários reais que ela descreve com tanto detalhismo, como você pode ver nos capítulos a seguir.