Outro dia vi um post infeliz no Instagram de uma turma que criticava o planejamento nas viagens e a busca pelo conforto nas férias. O tal "conteúdo" tentava glamourizar a viagem improvisada e pouco confortável, vendida ali como talvez a única forma "verdadeira" de sair por aí.
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Como se planejar minimamente seus dias, reservando previamente hotéis, transfers, tickets para atrações significasse sufocar qualquer possibilidade de ser feliz saindo por aí. Como se ficar informado sobre rotas, horários, restrições e exigências no destino fosse atentar contra sua liberdade. Como se buscar um merecido conforto nas suas férias fizesse de você um viajante pior. Como se o acaso não aparecesse todo santo dia em qualquer viagem, de todo jeito.

Nas férias, investimos tempo, dinheiro e expectativas. Como viajante da vida toda, desde muuuito antes de começar a escrever sobre isso, eu não poderia discordar mais das afirmações frívolas do tal post.
Como jornalista especializada em turismo há duas décadas, acompanhando de perto todo o funcionamento da indústria turística nacional e internacional, acho uma pena ver um post confundindo viajantes, induzindo tanta gente à possibilidade de férias com perrengues que poderiam ser facilmente evitados com... planejamento.
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Planejar não é engessar
Esse tipo de afirmação leviana é também uma ofensa ao precioso trabalho dos bons agentes e consultores de viagem. Afinal, sabemos muito bem como, nesse excesso de informações (nem sempre confiáveis...) no qual navegamos diariamente, esses profissionais especializados funcionam como curadores, filtrando o que realmente importa para cada viajante, antecipando possíveis percalços, oferecendo alternativas.
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Sempre fui a favor de que cada um viaje do seu jeito. O que seria do azul se todos só gostassem do amarelo, não é mesmo? Mas quando nosso trabalho é justamente escrever, comunicar, sobre viagens, é preciso ter responsabilidade sobre o que publicamos por aí, ora bolas.
Viajar envolve investimentos altos. Investimentos financeiros, investimentos de tempo, investimentos emocionais. Viajar envolve sonhos.

Preciosos dias de férias são geralmente conquistados com suor e não se repetem facilmente. Quem não tem o luxo de poder dividir seus dias de férias tem que esperar um ano inteirinho para curtir dias de descanso de novo. Insistir que entregar esse valioso tempo livre ao improviso geraria viagens melhores é, a meu ver, um acinte.
Planejar não significa burocratizar a viagem. Trata-se de criar condições mínimas para que ela seja de fato prazerosa. É uma época boa para visitar esse lugar? Qual a melhor forma de chegar e sair do aeroporto? Quais os lugares mais legais para conhecer? A localização deste hotel ou pousada atende mesmo meus interesses no destino? Esta atração vai estar aberta na época da minha visita?
Um bom planejamento não engessa a viagem de ninguém; pelo contrário: deixa espaço para uma deliciosa sensação de liberdade que geralmente não vem acompanhada de estresse.
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Rede de segurança
Para boa parte dos viajantes, principalmente os menos experientes, é justamente a organização prévia da viagem que garante a eles a possibilidade de viver tanto seus sonhos e desejos inegociáveis como também desfrutar tranquilamente de seus momentos de acaso.
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No fundo, o planejamento da viagem acaba funcionando como uma rede de segurança, que protege o viajante e nos dá inclusive mais chances de nos entregarmos de corpo e alma ao improviso quando desejarmos.
Reservar previamente um hotel confortável não te impede de conhecer gente interessante. Embarcar em um tour não te impede de ter experiências autênticas no destino. Marcar previamente um jantar num restaurante específico não te impede de descobrir lugarzinhos especiais dos quais você nunca tinha ouvido falar nos outros dias. Comprar ingressos antecipados para um museu não te impede de "se perder" propositalmente pelas ruas de um bairro desconhecido.
Planejar uma viagem não significa engessar os dias ou criar obrigatoriamente um cronograma rígido. É, sim, ter consciência do valor do nosso tempo, do nosso dinheiro, das nossas prioridades.
Que visão reducionista e, por que não dizer, até elitista essa. Afinal, o verdadeiro luxo das férias está em podermos aproveitá-las com TRANQUILIDADE.
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E buscar conforto nas férias não diminui a autenticidade da viagem de ninguém, não. Dormir bem, ganhar tempo evitando filas desnecessárias, utilizar serviços confiáveis são ações que não vão tirar, de maneira nenhuma, a magia da sua viagem. Pelo contrário: vão acabar gerando ainda mais tempo livre.
A crítica frívola ao planejamento das férias pode render likes fáceis nas redes sociais; na prática, o cuidado prévio com nossos dias de descanso pode criar férias inesquecíveis.
Se você curte viajar sem planejamento, com a adrenalina do desconhecido e do incerto bombando o tempo todo, ótimo! Desejo que sejam sempre viagens lindas e seguras, e que você aproveite cada segundo.
Por aqui, vou continuar sempre planejando os principais aspectos das minhas viagens, pesquisando aqui e ali, trocando ideias com outros viajantes, buscando o conhecimento dos bons consultores, justamente para poder aproveitar, bem tranquila, tudo o que a serendipity me trouxer pelo caminho.
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