Mike Blake/Reuters
Mike Blake/Reuters

Negócios 'sexy' e de futuro incerto

Por que empresas que têm prejuízos bilionários sucessivos, como Tesla, Uber e Netflix, são a maior aposta de investidores

The Economist, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2017 | 05h00

Yves Saint Laurent, Lady Gaga, David Bowie. Algumas pessoas operam segundo regras próprias, diferentes daquelas a que o resto da humanidade se submete. Será que isso também se aplica a empresas? Os executivos, em sua maioria, queixam-se de ser escravos das metas de curto prazo. Mas alguns desabusados dão de ombros à pressão. É o caso da Tesla. Este ano, até o momento, a montadora de automóveis elétricos deixou de cumprir suas metas de produção e perdeu US$ 1,8 bilhão em fluxo de caixa livre. E daí? Basta seu fundador, Elon Musk, dizer em voz alta sobre carros que circulam pelas ruas sem motorista e viagens espaciais para as ações da empresa subirem feito foguete: a valorização, do início de janeiro para cá, é de 66%. 

A Tesla faz parte de um seleto grupo de empresas que se dão ao luxo de torrar bilhões em busca de um sonho. A probabilidade de que consigam realizá-lo não é muito maior do que a de jovens aspirantes que desejam se tornar astros pop ou estilistas de alta-costura.

Investir hoje para obter lucros amanhã é da essência do capitalismo. A Amazon amargou prejuízos de US$ 4 bilhões entre 2012 e 2014 a fim de erguer um império que agora dá lucro. Apesar disso, é raro que grandes empresas arquem com perdas tão grandes só para se expandir em ritmo acelerado. Examinando-se o índice Russell 1000 das maiores companhias americanas, constata-se que só 25 delas, ou 3,3%, perderam mais de US$ 1 bilhão em fluxo de caixa livre em 2016. Em 2007, o porcentual foi de 1,4%, e em 1997 ficou abaixo de 1%. A maior parte das que hoje exibem prejuízos acima de US$ 1 bilhão é composta de empresas do segmento de energia, que passam temporariamente por maus bocados por terem que se ajustar à baixa nos preços do petróleo. Seus prejuízos são acidentais.

Mas algumas empresas gostam de viver perigosamente. Netflix, Uber e Tesla são companhias de tecnologia que pretendem revolucionar setores inteiros da economia com seus modelos de negócio. Duas outras empresas se destacam pela persistência dos prejuízos que acumulam. A Chesapeake Energy, empresa que foi uma das protagonistas da revolução do petróleo de xisto nos EUA, vem perdendo US$ 1 bilhão em fluxo de caixa há 14 anos. A Nextera Energy, que opera usinas eólicas e solares e é um xodó dos investidores, está há 12 anos no vermelho.

Juntas, essas cinco empresas queimaram US$ 100 bilhões nos últimos dez anos. Apesar disso, ostentam valor de mercado total de cerca de US$ 300 bilhões. A combinação de capitalização robusta com prejuízos colossais exige que a arte empresarial seja levada a extremos vertiginosos. Diz-se que Steve Jobs era capaz de acionar um “campo de força de distorção da realidade”, com o qual mudava a percepção das pessoas a seu redor. A experiência das cinco companhias citadas indica que o pendor para fazer os investidores crerem numa “realidade alternativa” depende de três fatores: visão inovadora do futuro, crescimento acelerado e financiamento.

Visão. Um líder carismático é indispensável. Por 23 anos, a Chesapeake foi comandada por Aubrey McClendon, empresário de Oklahoma que foi pioneiro no uso da técnica de esmigalhar rochas para extrair gás e petróleo. Na Netflix, Reed Hastings pretende acabar com a TV convencional, comercializando filmes e seriados pela internet. Como Musk, Travis Kalanick, ex-CEO do Uber, quer mudar a maneira como as pessoas se locomovem. A Nextera é comandada por tecnocratas, mas não sonha pequeno: a empresa ambiciona introduzir uma nova geração de tecnologia energética.

A visão inovadora tem que ser respaldada por crescimento desenfreado. Os investidores precisam acreditar num “valor terminal” elevado, um ponto no futuro em que os lucros polpudos e estáveis finalmente se materializarão. Por isso, é importante mostrar que, em termos hipotéticos, os lucros jorrariam agora mesmo, se a expansão acelerada fosse interrompida. O Uber diz que é lucrativo nas cidades onde opera há mais tempo, como São Francisco. A Nextera afirma que, se parasse de investir na ampliação de sua capacidade de produção, geraria anualmente US$ 6 bilhões em fluxo de caixa livre.

A Netflix amortiza ao longo de períodos de até cinco anos o custo dos conteúdos que adquire. Dessa forma, mesmo operando no vermelho, consegue registrar lucros contábeis.

Por fim, para arcar com prejuízos astronômicos em série, essas cinco empresas precisam encontrar quem as financie. Todas são mestras em inovar na captação de recursos. O Uber recorre aos mercados de private equity, a Nextera estruturou parte de seu negócio sob a forma de sociedade, a Tesla capta depósitos reembolsáveis junto aos consumidores e também faz operações com créditos ambientais.

A Chesapeake Energy despertou o interesse de Wall Street pelos títulos de alto risco emitidos por empresas que exploram o petróleo de xisto. E a Netflix assumiu compromissos de US$ 14 bilhões em pagamentos futuros a estúdios e artistas para adquirir conteúdo criativo.

Em outras palavras, é possível que uma empresa arme um campo de força de distorção da realidade. O problema é que, para sustentá-lo, seus executivos precisam levantar cada vez mais capital, o que os obriga a projetar um valor terminal cada vez mais absurdo.

Possibilidades. Algumas outras empresas além da Amazon conseguem desafiar as probabilidades. Nos últimos 20 anos, a operadora de cassinos Las Vegas Sands, a empresa de cruzeiros Royal Caribbean e a fabricante de chips Micron Technology perderam, cada uma delas, US$ 1 bilhão ou mais durante dois anos consecutivos, e mesmo assim hoje dão lucro. Mas as chances de sucesso são reduzidas. De 1997 para cá, das empresas que atualmente fazem parte do índice Russell 1000, só 37 acumularam prejuízos de US$ 1 bilhão ou mais durante ao menos dois anos consecutivos. Destas, 21 continuam no vermelho.

Para justificar seu valor de mercado, as cinco empresas analisadas por The Economist têm que fazer seu faturamento aumentar de 8% a 33% ao ano ao longo de dez anos. Com base no histórico de todas as empresas americanas desde 1950, e considerando o nível atual de receitas das cinco companhias, a probabilidade de que isso aconteça, segundo tabelas estatísticas do banco Credit Suisse, varia de 0,1% a 25%.

Empresas que torram rios de dinheiro costumam ser festejadas quando o crescimento econômico é lento e são poucas as companhias que reinvestem todos os seus lucros. Mas perder US$ 1 bilhão ou mais por ano é uma aposta arriscada, e o mais provável é que elas acabem dando com os burros n’água. Isso não deveria surpreender a ninguém: é muito raro que uma pessoa faça sucesso desenhando roupas andróginas, usando um vestido feito com carne crua numa cerimônia de premiação ou compondo canções sobre a vida em Marte. / TRADUÇÃO ALEXANDRE HUBNER

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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