‘O Cultura Artística virou o catalisador da recuperação do centro de SP’

Para Antonio Hermann, presidente da Sociedade de Cultura Artística, o teatro, reaberto há pouco mais de um ano, gerou transformação em seu entorno e se reintegrou à programação cultural da cidade

PUBLICIDADE

Foto do autor Danilo Casaletti
Foto: Werther Santana/Estadão
Entrevista comAntonio HermannPresidente da Sociedade de Cultura Artística

Antonio Hermann, presidente da Sociedade de Cultura Artística, lembra com clareza do domingo de 17 de agosto de 2008 quando recebeu a notícia de que o Teatro Cultura Artística, inaugurado em 1950, projeto do arquiteto Rino Levi, estava em chamas. Ele estava em Roma, em um hotel na Piazza di Spagna, a passeio. Pensou que seria algo controlável.

A notícia de que a grande sala foi destruída chegou aos poucos e causou espanto. Ao mesmo tempo, músicos alemães que se apresentariam no local avistaram a fumaça do avião. Não imaginavam que se tratava do teatro.

Quase duas décadas depois, e cerca de um ano e meio após a reabertura de uma das salas mais icônicas de São Paulo, após 16 anos de reforma, Hermann comemora o fato da Sociedade de Cultura Artística, fundada em 1912, ter voltado a ter sua “casa própria”, o Teatro Cultura Artística, para apresentar sua programação de música erudita e popular, além de peças de teatro.

Mais do que isso, o teatro exerce um papel importante na revitalização do entorno da Praça Roosevelt, sua vizinha, da Rua Nestor Pestana, que leva o nome de seu primeiro presidente, e do centro como um todo. Também abriga uma unidade da livraria Megafauna, aberta ao público diariamente.

Publicidade

“A sala virou um catalisador da recuperação do centro de São Paulo. Podemos ver novos estabelecimentos em torno do teatro, a rua é tranquila. É possível sair do teatro e descer para os restaurantes”, diz Hermann, presidente da Sociedade de Cultura Artística há nove anos e envolvido com ela desde o começo dos anos 1990, a convite de Luiz Vieira de Carvalho Mesquita, o Zizo Mesquita (1921-1997), ex-presidente do Conselho Administrativo do Grupo Estado e da Cultura Artística.

'O Cultura Artística foi muito bem acolhido pela vizinhança'

Antonio Hermann, presidente da Sociedade Cultura Artística, fala ao Estadão sobre a importância do teatro para a revitalização do centro de São Paulo. Crédito: Imagens: Humberto Godoy

Em entrevista ao Estadão, Hermann fala do orgulho de ver jovens na plateia das apresentações e dos turistas e moradores da cidade que vão até a frente do teatro para tirar fotos do famoso mural de Di Cavalcanti, cuidadosamente recuperado na reforma após o incêndio.

“Trazemos os melhores músicos do mundo para a população local. Você não precisa ir a Nova York para ver o (pianista chinês) Lang Lang, você aqui, no palco do Cultura Artística”, diz.

Um pouco mais de um ano da reabertura do Cultura Artística. Qual o balanço que o senhor faz?

Um sucesso de realização, de tudo. Primeiro, o fato de termos conseguido reviver o teatro, reconstruí-lo. Ele é um patrimônio para a Sociedade de Cultura Artística. Depois, não devemos um tostão a ninguém, o que é muito importante. Além disso, a retomada da programação “em casa”. Temos recebido os maiores músicos do mundo. Todos são unânimes em elogiar a acústica da sala. As instalações que temos hoje para os artistas, incluindo camarins com piano, poucos lugares do mundo oferecem. Gosto sempre de lembrar que esse teatro foi inaugurado por Villa-Lobos (1887-1959). Não podíamos fazer menos do que fizemos.

Publicidade

Além de reabertura, foi preciso reinserir o teatro na agenda cultural da cidade. Esse objetivo já foi atingido?

Foi superatingido. Desde o incêndio, passamos a utilizar a Sala São Paulo, nossa parceira e coirmã. No entanto, o Cultura Artística está em um local muito mais central, mais próximo do nosso público. As pessoas adoraram voltar para a sala. Todo dia o teatro está cheio, seja nos espetáculos de música clássica, nos shows de jazz ou nas apresentações de teatro. E, todo dia, as pessoas estão satisfeitas de estarem aqui dentro.

O teatro ficou 16 anos em reforma, fechado, com tapumes. Quando foi reaberto, se mostrou para uma cidade bastante diferente de quase duas décadas atrás. Como o Cultura Artística se integrou ao local, a essa rua e ao centro?

As pessoas querem conhecer o Cultura Artística. A sala virou um catalisador da recuperação do centro de São Paulo. Podemos ver novos estabelecimentos em torno do teatro, a rua é tranquila. É possível sair do teatro e descer para (os restaurantes) a Casa do Porco e o La Casserole. É um circuito possível de se fazer. A vizinhança nos abraçou rapidamente. A reabertura foi um acontecimento não só cultural, mas turístico também. As pessoas vêm visitar o teatro no fim de semana para tirar fotografia do painel do Di Cavalcanti. Temos mais de 2 mil assinantes, compostos por um público mais maduro. No entanto, o que tenho visto, com muito prazer, é a quantidade de jovens que estão frequentando o Cultura Artística. Essa renovação de público é muito importante para nós.

'A vizinhança nos abraçou rapidamente. A reabertura foi um acontecimento não só cultural, mas turístico também' Foto: Werther Santana/Estadão

O Cultura Artística dialoga com outras entidades ou associações para pensar ações no entorno?

Sim, com todas. Recebemos do Insper o Placemaking (estudo para tornar o espaço urbano mais inclusivo) de toda a região para trabalharmos em conjunto com as associações que cuidam do centro de São Paulo. Temos um entrosamento muito bom com elas. Há ainda o projeto do governo do Estado de trazer a sede aqui para o centro. Tudo isso vai modernizar o centro e, ao mesmo tempo, preservar a arquitetura e as edificações já existentes.

Qual a importância do teatro e da programação que ele apresenta na construção de uma cidade mais plural, mais cultural?

É importante ter espaços como o Cultura Artística, de altíssima qualidade. Trazemos os melhores músicos do mundo para a população local. Você não precisa ir a Nova York para ver o (pianista chinês) Lang Lang, você aqui, no palco do Cultura Artística. É obrigação da Sociedade, ela foi fundada com esse propósito. Os intelectuais da época, como Olavo Bilac (1865-1918), Mario de Andrade (1893-1945) e tantos outros, se reuniam na redação do Estadão, no final da tarde, para vender seus artigos. Foi quando nasceu a ideia da Cultura Artística, cujo primeiro presidente foi o Nestor Pestana (1877-1933), na época, chefe de redação do jornal. O Estadão foi o pai da Cultura Artística.

Publicidade

O teatro sempre foi mais conhecido pela música erudita. Mas, na verdade, o propósito sempre foi a boa música

Antonio Hermann

PUBLICIDADE

O teatro sempre foi mais conhecido pela música erudita. Mas, na verdade, o propósito sempre foi a boa música. É isso que queremos apresentar: o jazz, as séries de violão, a música clássica e outras manifestações. Tivemos (a cantora americana) Patty Smyth e o (guitarrista americano) Pat Metheny. Sempre com a sala lotada.

Quando o teatro reabriu, a primeira ideia é que ele fosse um espaço exclusivamente da música. No entanto, hoje temos peças de sucesso em cartaz. Como foi a decisão de abrir espaço novamente para o teatro?

Em sua versão anterior (antes do incêndio), o Cultura Artística se tornou queridinho do meio teatral. Marco Nanini e Ney Latorraca (1944-2024) fizeram história com O Mistério de Irma Vap. Paulo Autran (1922-2007) também fez sucesso aqui. Retomamos isso. Diversificamos o escopo de apresentações para acolhermos o interesse do público.

A música (como formação) não está mais na Faria Lima, nos Jardins, está na periferia

Antonio Hermann

Muito. Temos um programa de bolsistas, que é um pouco mais sofisticado, pois trabalhamos com artistas já encaminhados. Financiamos os estudos de 12 bolsistas, todos os anos. Entre os que foram criados aqui, temos a violonista espetacular Gabriela Leite (de Cerquilho, no interior de São Paulo), ganhadora de prêmios, que foi estudar na The Juilliard School, em Nova York, e o violinista Guido Sant’Anna (de Parelheiros, na zona sul de SP), que começou conosco com nove anos, e, em 2024, ganhou o Fritz Kreisler, em Viena, na Áustria. A música (como formação) não está mais na Faria Lima, nos Jardins, está na periferia.

É preciso tirar essa ideia de que a música erudita é inacessível, hermética, não?

Sim. Lembro de uma vez, conversando com o maestro Júlio Medaglia, ele me disse que a música erudita mais antiga, como Mozart e Beethoven, já entrou no DNA do ser humano, no mundo inteiro. Na época, eu trabalhava no centro da cidade, e o Júlio fazia alguns concertos perto da Bolsa de Valores. Enchia de gente. Muitos não sabiam que era Chopin ou Mozart, mas reconheciam a música e a apreciavam. Esse é novo papel, oferecer essa música às pessoas.

Publicidade

Fachada do teatro com o painel de Di Cavalcanti recuperado após incêndio e que virou ponto turístico Foto: Werther Santana/Estadão

O financiamento da cultura é um desafio permanente. A Cultura Artística é uma instituição centenária, que passou por diversos planos econômicos e crises. Qual o cenário atual?

O financiamento da cultura é sempre algo desafiador. Somos uma sociedade sem fins lucrativos, a serviço do público. Temos as leis de incentivo, que ajudam, mas não temos a mesma atitude de mecenas, como nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. Somos gratos, e até temos sido muito prestigiados. Antes, estávamos sem o teatro, agora, temos os custos para mantê-lo. A maioria das nossas atrações é estrangeira e o maior custo hoje em dia é com logística. Temos, então, de lutar para custear o dia a dia e a temporada.

Como o senhor enxerga o Cultura Artística no futuro?

Essa trajetória centenária da Sociedade Cultura Artística vai seguir. Não paramos nas guerras, em revoluções e nem mesmo com o incêndio no teatro. A única vez que deixamos de nos apresentar foi na pandemia, por necessidade legal. Fizemos virtualmente. Nos próximos 10, 100 anos, haverá gente qualificada para levar adiante esse patrimônio da cidade de São Paulo e do País.

O avanço da tecnologia e das redes sociais podem influenciar o que o público deseja assistir no teatro?

Tudo está mudando rápido demais. Por mais tecnologia que a pessoa tenha acesso, esse espaço, o teatro, continuará sagrado. Não tem nada mais poderoso do que estar aqui, sentado, vendo o músico na sua frente, executando ao vivo. Isso é impossível de mudar.

Publicidade

Já imaginou se o Mozart sentasse aqui hoje e visse as orquestras executando a música dele, com essa acústica, com essa tecnologia? Ele ia pirar!

Como será a programação no futuro?

Essa música que chamamos de erudita, que tem 300 anos, vai ter 600. Como eu disse, ela já está no DNA das pessoas. Beethoven será Beethoven daqui a 100 anos. Trazemos música contemporânea, e o público adora, e ela seguirá na programação. Mas a música clássica permanecerá. A não ser que consigamos estragar tudo antes de chegarmos lá, daqui 100, 200 anos. Já imaginou se o Mozart sentasse aqui hoje e visse as orquestras executando a música dele, com essa acústica, com essa tecnologia? Ele ia pirar!