Snoopy era “Xereta” quando a turma do “Minduim” chegou ao Brasil. Veja as primeiras tiras

Jornal da Tarde começou a publicar Minduim e sua turma em janeiro de 1966 com nomes traduzidos

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Foto do author Liz Batista
Foto do author Edmundo Leite
Por Liz Batista e Edmundo Leite
Atualização:

“Os personagens criados sob o nome de “Peanuts” nos Estados Unidos são considerados o maior acontecimento das histórias em quadrinhos desde 1940. Charlie Brown será, para nós, Minduim”. Foi assim que o Jornal da Tarde anunciou que ia começar a publicar a tira da turma de Charlie Brown e Snoopy em sua seção de quadrinhos no início de 1966.

Naqueles dias, o cachorro era chamado com o nome traduzido, “Xêreta”, e ainda não era o protagonista das tiras, apesar de ser um dos principais personagens, como mostra o texto de apresentação. Veja algumas das tiras e leia o texto.

Minduim & Cia.

Tiras de Snoopy e Charlie Brown no Jornal da Tarde em 1966. Foto: Acervo Estadão

Crianças pressionadas e cachorro hedonista

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“Os personagens criados sob o nome de “Peanuts” nos Estados Unidos são considerados o maior acontecimento das histórias em quadrinhos desde 1940. Charlie Brown será, para nós, Minduim”. E seus amigos: Lucy (Lucinha), Schroeder (Amadeus), Pig-Pen (Sujão), Snoopy (Xerêta), Linus, Patty (Patrícia), Violet (Carlota), Sally Brown (Silvinha), Shermy (Jeremias) e Frieda (Manuela).

Sobre “Peanuts” já foi publicado até um livro por um estudante de teologia: “O Evangelho Segundo Peanuts”, de Robert Short. Mas Al CApp, o criador do Ferdinando, diz que quem vê teologia nêles adora o diabo”.

Charles M. Schultz diz que, ao criar os personagens de “Peanuts” queria “lembrar aos adultos as pressões a que estão sendo submetidas as crianças”. E elas falam de tudo, desde psiquiatria e frustração até do valor que um sorvete tem para um menino.

Minduim, o Charlie Brown, é um menino em luta perplexa contra o mundo. Está convencido de que não gostam dele, e quer ser reconhecido pelos outros. Mas falha sempre. Quando êle pede desculpas por ter chegado tarde a uma festa, o dono da festa diz: “Eu nem sabia que você não estava aqui”. Noutra tira, êle está fazendo um castelo de areia e começa a chover. A chuva derrete seu castelo e êle diz: “Há aqui uma lição, mas eu não sei que lição é essa”.

Lucinha é uma caricatura da mulher agressiva de hoje. Só quer sucesso na vida. E gosta de Amadeus, que só tem tempo para sua música e não lhe dá bolas. Linus é o intelectual da turma, mas precisa do apoio moral de um cobertorzinho que nunca abandona e do dedo que não pára de chupar. A frase é dele: “Chupar o polegar sem um cobertor é o mesmo que comer uma casquinha sem sorvete”.

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Xerêta é um cachorro hedonista: gosta é dos prazeres desta vida. Gostaria de ser uma pessoa, ou um leão feroz, um crocodilo, uma serpente. Diz Schultz que “Snoopy” não é um cachorro de verdade, “é o que as pessoas queriam que fôsse um cachorro”. Ele gosta mesmo é de ficar deitado de barriga prá cima no teto de sua casinha.

Sujão é um menino capaz de levantar uma nuvem de poeira numa rua asfaltada. Amadeus é um amante da música clássica, convicto de que Beethoven é o maior homem que já existiu. E toca qualquer música que Beethoven compôs. Os outros personagens são secundários, mas também importantes.

Tiras de Snoopy e Charlie Brown no Jornal da Tarde em 1966. Foto: Acervo Estadão
Apresentação da turma do "Minduim", tira com os personagnes Charlie Brown e Snoopy no Jornal da Tarde em 1966. Foto: Acervo Estadão

Charles M. Schulz

O desenhista Charles M. Schulz, criador do Snoopy, no Jornal da Tarde em 1966. Foto: Acervo Estadão

Minduim no Estadão

Em outubro de 2004 as tirinhas com as aventuras de Charlie Brown, Snoopy e toda sua turma passaram a ser publicadas no Estadão, primeiro no caderno TV& Lazer que circulava aos domingos. Em 2012, as tirinhas, agora em cores, passaram a ser publicadas no Caderno 2, onde tem lugar cativo até hoje.

>> Estadão – 17/10/2004 e Estadão – 24/10/2004

Tirinhas de Minduim no Estadão de 17/10/2004 e 24/10/2004 Foto: Charles M. Schulz


>> Estadão – 22/02/2012 e Estadão - 14/02/2024

Tirinhas de Minduim no Estadão de 22/02/2012 e 14/02/2024 Foto: Acervo/Estadão

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Snoopy x Emília

Na década de 1970, a briga pelas bilheterias nos cinemas brasileiros e pela popularidade com público infantil gerou uma disputa entre o cãozinho criado por Schulz e a boneca de pano de Monteiro Lobato. Snoopy derrotou Emília. A esperta boneca de cabelos vermelhos, chegou aos cinemas na produção O Picapau Amarelo de 1974, mas não foi páreo para o simpático e criativo beagle que liderou as bilheterias nacionais, junto com as produção da Disney, nesse período.

As aventuras de Minduim estrearam nos cinemas nacionais em 1972, com o primeiro filme da turma de Charlie Brown, A Boy Named Chralie Brown (1969), que recebeu o título Charlie e Snoopy no Brasil. Aqui, repetiu o bom desempenho que teve no exterior.

Estadão – 26/06/1972

Estadão - 29/06/1972 Foto: Acervo/Estadão

A crítica de estreia, publicada no Estadão de maio de 1972, descrevia Snoopy como “o cão filósofo que anda sobre duas patas, o otimista incorrigível que, com sua poderosa fantasia, é capaz de materializar aventuras nas quais sempre se sai como herói incontestável.”

Estadão – 5/7/1972

Estadão - 05/07/1972 Foto: Acervo/Estadão

Snoopy Volte ao Lar, o segundo filme de Peanuts, estreou no País no ano seguinte e repetiu o êxito. O primeiro filme, mais centrado em Charlie, levou o menino angustiado ao divã, apresentou aos fãs das tirinhas seus personagens, já queridos, na telona.

A segunda produção trouxe Snoopy como a grande estrela. Categorizado como uma comédia-drama musical, o filme marcou a estreia do personagem Woodstock, o passarinho amarelo companheiro de Snoopy, no cinema.

Estadão – 10/2/1973

Charlie e Snoopy nos anúncios de cinema do Estadão em 1973 Foto: Acervo/Estadão


Desenho animado para adultos

Em reportagem especial sobre desenhos animados publicada em 12 de agosto de 1973, o Estadão pediu que especialistas analisassem as principais produções do período. Sobre o sucesso de Minduim, o professor da USP e pesquisador de histórias em quadrinhos e de desenho animado, Alvaro de Moya, apontou o que se destacava no universo criado por Schulz: ”é mais uma história em quadrinhos, com poucos movimentos, do que propriamente um desenho animado, pois este já exige muito movimento. Mesmo assim, a profundidade psicológica e o alto nível literário de Charles Schulz, o criador desses personagens levam seu filme a um nível adulto.

>> Estadão - 12/08/1973

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Estadão - 12/08/1973 Foto: Acervo/Estadão

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