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ANÁLISE-Tendências do investimento no Brasil destacam consumo

Por GUILLERMO PARRA-BERNAL
Atualização:

A lentidão do crescimento de lucros está levando empresas brasileiras de commodities a cortar seus planos de investimentos, fazendo com que o crescimento da maior economia da América Latina torne-se ainda mais dependente de gastos de consumidores. Produtores de celulose, mineradoras e fabricantes de aço cujos resultados do quarto trimestre não atingiram as estimativas do mercado estão cortando investimentos enquanto a crise de dívida da Europa e a desaceleração da economia chinesa exercem seu peso na demanda global por seus produtos. O crescimento de lucros de oito de 14 empresas pesquisadas pela Thomson Reuters teve redução de cerca de 7 por cento em relação ao ano anterior. Em compensação, processadoras de pagamentos com cartões, redes de varejo e empresas de telecomunicações planeiam investir mais com a esperança de que medidas do governo para diminuir custos de empréstimos e impostos irão acelerar a economia brasileira mais à frente neste ano. Tais promessas surgem apesar de desempenhos trimestrais fracos da maioria delas. "O investimento em larga escala em setores cíclicos está tomando um papel secundário", disse o gestor Dany Rappaport, que administra 150 milhões de dólares em ativos no InvestPort em São Paulo. "O Brasil está se tornando uma economia baseada em consumo mais rápido do que a maioria de nós imaginou." O que inicialmente pareceu uma decisão de negócios baseada em ciclos pode ser uma evidência de mudanças mais profundas pela qual a economia brasileira, de 2,3 trilhões de dólares, está passando. Um aspecto, particularmente, é preocupante: a redução do papel da indústria conforme serviços tomam o centro do palco. No final de 2011, a fatia de serviços atingiu 67 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, ante 55 por cento dez anos antes. Em compensação, o peso da indústria caiu para cerca de 28 por cento do PIB, ante 35 por cento. O Brasil, a quarta maior democracia do mundo, está dividido entre ser uma economia industrializada e uma potência de commodities. À medida que mineradoras e fábricas reduzem seus investimentos, o progresso que o Brasil realizou em termos de participação de investimentos no total do PIB pode estar ameaçado. Investimentos representam 20 por cento do PIB, um aumento ante os 15 por cento em 2002 mas abaixo do nível de várias outras nações em desenvolvimento. O governo da presidente Dilma Rousseff está preocupado com a diminuição do papel da indústria, uma tendência a que autoridades comerciais se referem como "desindustrialização". Ao mesmo tempo, entretanto, o governo está tomando medidas para encorajar gastos de consumidores, o que pode acabar reforçando a mudança em direção a uma economia baseada em serviços. Investimentos da parte de produtores de commodities foram os responsáveis por retomar a força da economia brasileira durante as desacelerações de 2003 e 2006. Mas quando a economia desviou brevemente para uma recessão em 2009, foi uma forte expansão no setor de serviços que reviveu o crescimento. BALANÇOS MELHORES Enquanto as condições dos mercados de minério de ferro, celulose e petróleo continuam incertas, planos de investimento menos ambiciosos vão ao menos ajudar produtores de bens industriais e commodities a melhorarem seus balanços nos próximos trimestres e implementarem estratégias de cortes de custos que podem aumentar o preço de suas ações. "O que os números estão provavelmente nos dizendo é que os retornos em potencial não compensam os riscos em projetos para empresas industriais e de commodities", disse o chefe de ações de uma corretora de São Paulo, que falou sob condição de anonimato. "É uma incompatibilidade no longo prazo, não no curto prazo." Economistas do Bank of America Merrill Lynch estimam que o investimento no Brasil cresça no ritmo de 3,7 por cento neste ano, uma queda em relação aos 5,1 por cento em 2011. A Gerdau, maior produtora de aços longos das Américas, recentemente realizou um corte em seu plano de investimentos de cinco anos em 500 milhões de reais. A fabricante de celulose Fibria, que tem um pesado endividamento, disse que gastará apenas o necessário para manter suas operações. A gigante mineradora Vale, maior empresa do setor privado do país, também cortou seu plano de investimentos de 2012 em 11 por cento, para 21 bilhões de dólares, em função da volatilidade dos preços de metais. O presidente-executivo da empresa, Murilo Ferreira, desacelerou novos investimentos para se concentrar em projetos existentes. A estatal Petrobras não "expandirá o escopo" de seu plano de investimentos de cinco anos, de 225 bilhões, disse a nova presidente-executiva da petrolífera, Maria das Graças Foster, na semana passada. As empresas todas compartilham a mesma ideia: elas viram lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) crescerem a um ritmo mais lento. "Quanto mais prudentes essas empresas forem com seus planos de investimentos, melhor elas vão lidar com o que parece ser uma época desafiadora", disse Roseli Machado, que administra 5,2 bilhões de reais em ativos na Fator Administradora de Recursos. A exceção entre as empresas industriais cautelosas é a Embraer, terceira maior fabricante de aeronaves comerciais do mundo, que aumentou seu plano de investimentos em 44 por cento, para 650 milhões de dólares, neste ano, em parte para responder à promessa de demanda por aeronaves militares e de defesa. "BOOM" DE SERVIÇOS A Redecard, segunda maior processadora de cartões de crédito do Brasil, vai mais do que dobrar seu plano de investimentos neste ano para 500 milhões de reais, com objetivo de aumentar sua fatia de mercado. O Pão de Açúcar, maior varejista do país, planeja aumentar os investimentos em cerca de 40 por cento em 2012. A Telefônica Brasil deve investir este ano quantia similar à aplicada em 2011. Sua rival TIM Participações investirá 3 bilhões de reais, mudança pequena em relação a 2011. "A percepção é de que a demanda doméstica ganhará muita tração durante o segundo semestre", adicionou Rappaport. Alguns economistas dizem que uma contribuição maior de investimentos ao crescimento e um consumo mais moderado poderiam ajudar a economia brasileira a evitar a repetição de ciclos de estagnação e aceleração que levaram à hiperinflação crônica há menos de duas décadas. Alguns mercados emergentes como a China primeiro se tornaram economias industrializadas antes de se tornarem potências globais. Esse não é o caso do Brasil, apesar de o país ser sede de uma base diversificada de empresas de manufatura e de materiais. O Brasil está deixando de lado essa transição principalmente em função de uma crescente classe média -mais de 30 milhões de pessoas saíram da pobreza na última década-, que está rapidamente impulsionando a demanda por bens e serviços. Não é surpresa, então, que investidores provavelmente continuem favorecendo ações de varejo e de bens de consumo sobre ações industriais nos próximos anos, disse Roseli, da Fator.

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