Bairros desocupados de Maceió viram refúgio de animais abandonados: ‘Hoje alimentamos 75′

Mesmo após quase quatro anos do início das remoções de famílias em bairros como Pinheiro e Bebedouro, gatos ainda são vistos circulando entre os esqueletos das casas

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Por Marcio Dolzan
4 min de leitura

A desocupação forçada de bairros de Maceió localizados em áreas consideradas de risco trouxe uma série de problemas para os moradores. Mesmo indenizados, a maioria precisou se mudar para bairros periféricos da cidade. Nessas mudanças, porém, muitos acabaram deixando seus animais de estimação para trás. E, mesmo com a ação de voluntários e de um programa da própria Braskem para o resgate dos animais, quase quatro anos após o início das remoções, centenas de animais tentam sobreviver nas ruas de casas abandonadas.

Muitos cães foram resgatados, mas o abandono maior é de gatos. São os felinos que perambulam entre os imóveis, muitos dos quais estão sendo tomados pelo matagal. Conforme o tempo passa, eles também acabam procriando, ampliando o problema.

Gatos circulam em meio ao mato que cresce entre os esqueletos das casas desocupadas em bairros como Bom Parto, Pinheiro e Bebedouro, em Maceió. Foto: FOTO TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

Em 2020, após acordo firmado pela Braskem e o Ministério Público de Alagoas, a petroquímica criou o Programa de Apoio aos Animais. Realizado em parceria com a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e a Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes), o programa tem o objetivo de resgatar esses animais e dar apoio aos pets de moradores das áreas consideradas de risco. Mais de 7,8 mil animais foram atendidos no programa.

“Além de dar suporte aos moradores das áreas afetadas que possuem animais de estimação, o programa realiza ações com animais que vivem em condições de rua e que, em sua maioria, foram abandonados”, afirma a Braskem. “Até o fim de outubro, foram mais de 4,5 mil castrações e mais de 800 animais adotados por meio do canal de adoção @focinhoresponsável, no Instagram.”

Segundo a empresa, antes de os animais serem encaminhados para adoção, cães e gatos recebem atendimento veterinário, são vermifugados, castrados e vacinados.

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Gato abandonado em casa desocupada no bairro Pinheiro, em Maceió Foto: FOTO TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

No Bebedouro, casal adota mais de 30 gatos e alimenta mais de 70

Apesar do programa desenvolvido pela Braskem, responsável pela mina que pode colapsar em Maceió, centenas de animais ainda perambulam pelos bairros. Muitos são ariscos e se afastam na presença de pessoas. Outros, porém, já se sentem seguros quando veem conhecidos que passam para alimentá-los.

É o caso do casal Sandra Catão e Walfrido Barbosa. Todos os dias, Walfrido faz um roteiro pelas ruas do abandonado bairro do Bebedouro para alimentar mais de 70 gatos. Ele coloca água e ração, comprados com dinheiro de doações ou mesmo tirado do próprio bolso.

“Nós começamos a alimentar esses animais em 21 de outubro de 2020. Éramos moradores do bairro, e as pessoas começaram a sair de seus imóveis e abandonar seus animais, principalmente os gatos”, conta Sandra. “Como eu era da Comissão de Bem-Estar Animal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), tinha grupos de moradores que eu fazia parte, e uma moradora me chamou para ir alimentar os animais que estavam sendo abandonados”, afirma ela. “À época, eram cerca de 40, mas à medida que as pessoas iam saindo, mais animais iam sendo abandonados.”

Segundo ela, em determinado momento o casal chegou a alimentar 150 gatos. “Hoje, alimentamos em torno de 75″, relata Sandra. “Tem um circuito que o meu marido faz, com mais de 15 ruas, em que se alimentam várias colônias. Leva cerca de 1h40 de carro, e se coloca ração e água”, diz.

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Ao longo desses três anos de atuação do casal, eles relatam que mais de 60 gatos foram encaminhados para adoção, alguns até mesmo para pessoas que se mudaram para outros Estados. Antes de doá-los, porém, Sandra entrevista os interessados e se assegura que o animal terá um bom lar.

Para manter o trabalho voluntário, Sandra e Walfrido criaram uma conta no Instagram, o @sospetbebedouro. Lá, é possível ver fotos de animais que estão para adoção e fazer doações, seja por intermédio de Pix ou encaminhando ração.

Sobre os animais “errantes”, a Braskem declarou que “atua com estratégias como a captura, esterilização, devolução e encaminhamento para adoção, controle sanitário e monitoramento”. A empresa diz que “as medidas são cientificamente mais efetivas para a saúde pública e bem-estar animal”.

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