Celsinho da Vila Vintém, rival de Fernandinho Beira-Mar, deve sair da cadeia após 20 anos

Traficante fundador de facção carioca ADA obteve alvará de soltura após descoberta de conluio de delegados com bicheiro

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Por Fabio Grellet
Atualização:

RIO - O traficante carioca Celso Luiz Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém (bairro da zona oeste onde ele morava e, segundo a polícia, onde iniciou sua atuação criminosa), de 61 anos, deve deixar a prisão nesta terça-feira, 18, após 20 anos consecutivos na cadeia. Ele está no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu (zona oeste do Rio), e será libertado por ordem judicial.

Celsinho é fundador e líder da facção criminosa Amigo dos Amigos (ADA), uma das três existentes no Rio de Janeiro - as demais são o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro. Já cumpriu a maior parte das penas das 52 anotações que tem em sua ficha criminal. Ele permanecia preso por ter sido condenado em primeira instância a 15 anos de prisão por liderar uma tentativa de invasão à favela da Rocinha, na zona sul do Rio, em setembro de 2017.

Celsinho da Vila Vintém deve deixar cadeia nesta terça-feira Foto: Brunno Dantas / TJ-RJ

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Na ocasião ocorreram confrontos entre as quadrilhas dos traficantes rivais Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha, e Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157. Duas pessoas morreram e cinco ficaram feridas. Houve recurso e esse processo ainda tramita.

Em setembro, durante a investigação que levou à prisão o ex-chefe da Polícia Civil do Rio Allan Turnowski, por suposto envolvimento com o jogo do bicho (o policial nega), o Ministério Público do Estado do Rio (MP-RJ) descobriu indícios de que Celsinho nada tinha a ver com essa invasão. Ele só teria sido apontado como participante dela por interesse de delegados sob investigação.

Segundo o MP-RJ, os delegados, mediante pagamento de propina., tentaram transferir Celsinho para um presídio federal de segurança máxima, para atender um pedido de um rival dele.

Após a descoberta do MP-RJ, a defesa de Celsinho pediu à Justiça um habeas corpus em favor do traficante Na sexta-feira passada, 14, a desembargadora Suimei Cavalieri, da 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, autorizou a libertação de Celsinho. Na segunda-feira, 17, o juiz Marcelo Rubiolli , da Vara de Execuções Penais, concordou com a soltura.

“Não havendo pena privativa de liberdade a ser cumprida definitivamente, e revogada a prisão preventiva mantida negando direito de recorrer em liberdade, não se suporta mais a enxovia no presente feito, importando na imediata expedição de alvará de soltura em beneplácito do reeducando”, afirmou na decisão.

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O advogado Max Marques, que defende Celsinho, comemorou a decisão.

“A 3ª Câmara Criminal e, agora, a VEP apenas desfizeram a enorme injustiça imposta ao Celso, incriminado em razão de interesses escusos, presunções preconceituosas de culpa e investigações mal feitas”, afirmou a jornalistas.

Em relação à suposta manipulação do inquérito sobre os confrontos na Rocinha em 2017, a defesa do delegado Nunes afirmou à imprensa que “a investigação seguiu todos os trâmites legais, com depoimentos e perícias que comprovaram a participação de diversos criminosos de várias regiões do Rio de Janeiro, incluindo-se a Vila Vintém, Estácio e Pedreira, todos interessados em retomar o controle do narcotráfico na Rocinha”.

Outras prisões

Celsinho da Vila Vintém foi preso pela primeira vez em 1990, condenado por tráfico de drogas e roubo. Saiu da prisão logo depois, mas foi preso de novo em 1996. Em 1998, conseguiu fugir após ser internado no Hospital Penitenciário Fábio Macedo Soares, de onde escapou pela porta da frente, vestido de policial militar.

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O traficante foi capturado novamente em 2002, pela Polícia Civil, e encaminhado ao complexo penitenciário de Gericinó, em Bangu. Na ocasião, seu rival Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, chefe do Comando Vermelho, estava no mesmo complexo penitenciário.

Nesse mesmo ano, durante uma rebelião, Beira-Mar atravessou oito portões dentro do complexo para chegar até Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, que era integrante do CV mas se uniu à ADA, a facção de Celsinho. Antes de aderir à facção rival, Uê teria matado Orlando da Conceição, o Orlando Jogador, então outro dos principais chefes do CV, em uma cilada.

Uê e outros três presos foram mortos na rebelião de 2002, mas Beira-Mar poupou Celsinho. Em depoimento à Justiça, Celsinho afirmou que não foi morto porque sua família havia feito amizade com a dele, no setor de visitas do presídio.

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Depois Celsinho foi transferido para o presídio federal de Porto Velho, em Rondônia, onde passou a maior parte dos últimos 20 anos. Ele voltou ao Rio em 2017, e desde então estava no Complexo Penitenciário de Gericinó.

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