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Entenda os protestos do setor rural na Argentina

Movimento de produtores é a maior crise enfrentada pelo governo de Cristina Kirchner.

Por Da BBC Brasil
Atualização:

Produtores rurais da Argentina realizam há mais de duas semanas protestos em todo o país, provocados pela recusa do governo em voltar atrás na decisão de aumentar os impostos sobre as exportações agrícolas. O movimento do setor rural é a maior crise enfrentada pela presidente Cristina Kirchner desde que assumiu o poder, em dezembro passado, substituindo seu marido, Néstor Kirchner. O repórter de economia da BBC News Robert Plummer responde a algumas perguntas sobre a crise e suas implicações na economia argentina. O que motivou o protesto dos produtores rurais? Os produtores começaram o protesto depois que o governo baixou um decreto aumentando os impostos sobre a exportação de soja de 35% para 45% e estabelecendo novos impostos sobre outros produtos agrícolas, como o trigo. Segundo os agricultores, essas medidas equivalem confiscar os seus ganhos. A presidente Cristina Kirchner reagiu, chamando os grandes produtores de "oligarcas" que se beneficiaram da alta nos preços das commodities no mercado internacional. Ela disse ainda que um pouco dessa riqueza deveria ser redistribuída entre os mais pobres. Qual a principal razão para o aumento dos impostos? O aumento é um elemento chave no que agora parece uma estratégia econômica que não deu certo. Impostos sobre exportações agrícolas não são novidade na Argentina. Durante o governo de Carlos Menem houve cortes em muitos desses impostos, mas depois da crise econômica de dezembro de 2001, com o colapso do peso, eles foram retomados pelo presidente Néstor Kirchner. Ao mesmo tempo, o governo impôs controle de preços sobre vários produtos e forçou as empresas de energia e água a congelar suas tarifas. Como resultado, economistas criticam o casal Kirchner por optar por soluções intervencionistas em vez de tomar medidas impopulares como o aumento da taxa de juros para conter a inflação e impedir o superaquecimento da economia. Qual o efeito disso na economia argentina como um todo? É difícil dizer, porque poucas pessoas acreditam nas estatísticas oficiais divulgadas pelo governo. Em janeiro de 2007, o chefe do setor de índice de preços ao consumidor do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec, na sigla em espanhol, o equivalente ao IBGE) foi substituído, em uma decisão considerada política. Desde então, os principais economistas argentinos, entidades de defesa dos consumidores e até mesmo funcionários do Indec têm regularmente acusado o governo de manipular os números da inflação. Oficialmente, a inflação foi de 8,5% em 2007. No entanto, em uma manifestação em Buenos Aires, dois meses atrás, funcionários do Indec carregavam cartazes afirmando que o verdadeiro índice de inflação no ano passado foi de mais de 22%. Qual o impacto do protesto dos produtores rurais até agora? Os consumidores certamente estão sentindo os efeitos. Os produtores bloquearam as principais estradas do país, impedindo a passagem de caminhões carregados com alimentos, o que levou à falta de produtos como carne, leite e óleo de cozinha nos supermercados argentinos. Os engarrafamentos resultantes do bloqueio das estradas causaram problemas em todo o país e provocaram o cancelamento de muitos serviços de ônibus de longa distância. No entanto, o governo permanece firme em sua decisão, pelo menos por enquanto. O governo de Cristina Kirchner aumentou sua dependência de impostos sobre exportações para financiar seus gastos e tem pouco espaço para retroceder. E como já está previsto que o crescimento dos gastos do governo vai superar o crescimento das receitas, pode não levar muito tempo para que toda essa estratégia econômica fracasse. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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