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Gal Costa: uma cantora de 22 anos em 1968 relembrando quando era Maria da Graça

Jornal da Tarde dedicou uma página para mostrar quem era a jovem cantora que morava na avenida São João e fazia sucesso com ‘Baby’

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Foto do author Liz Batista
Foto do author Edmundo Leite
Por Liz Batista e Edmundo Leite
Atualização:

“Gal Costa está passeando nas ruas e muitas pessoas a reconhecem por trás dos óculos escuros. Gal Costa aparece na televisão com roupas sofisticadas e o público não cansa de aplaudí-la. Gal Costa é a moça que está cantando “Baby”, a música de Caetano Veloso. Na página 8, Gal Costa está falando do seu sucesso, dos seus amigos baianos, dos seus novos e velhos discos, da época que ela ainda não era Gal Costa.”

Leia a íntegra do perfil da cantora Gal Costa publicado no Jornal da Tarde de 21 de setembro de 1968.

Gal Costa no Jornal da Tarde de 21 de setembro de 1968. Foto: Acervo Estadão
Gal Costa no Jornal da Tarde de 21 de setembro de 1968. Foto: Acervo Estadão
Chamada de capa e página sobre Gal Costa no Jornal da Tarde de 21 de setembro de 1968. Foto: Acervo Estadão

Jornal da Tarde - 21 de setembro de 1968

Agora ela é Gal Costa

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Mas há pelo menos uma pessoa no mundo todo que nem está ligando para êsse cartaz de Gal Costa, a cantora jovem de maior sucesso do momento no Brasil. É Maria da Graça, a menina de Salvador que hoje tem a fama e o apelido de Gal.

Sempre foi vizinha de Dedé, a espôsa de Caetano. E estavam sempre juntas, uma ao lado da outra. Dedé já era namorada daquele menino muito magro, irmão da Betania, que morava lá longe, no bairro de Nazaré. Isso foi em 62 ou 63? Maria da Graça não se lembra.

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- Ei, Gal, você quer ir ao “Astros do Disco” no sábado?

- Posso ir sim, diga que posso ir.

Agora ela é Gal Costa, tem que pensar nas gravações e nos programas, nas roupas e nos convites, nas viagens e no seu nome. Mas não vai esquecer-se do tempo em que era Maria da Graça - isso ela não vai, não, de maneira alguma.

E aquela vez em que Dedé fêz 15 anos de idade? Dedé insistiu, insistiu, e Maria da Graça acabou cantando só para Caetano ouvir. Ela não havia terminado ainda Vagamente, de Ronaldo Bóscoll e Roberto Menescal, e a turma de Caetano já tinha uma nova garôta. Vieram as serenatas nas praias, as noites no pátio em frente ao edifício onde ela morava, o show de inauguração do Teatro Vila Velha. Cantigas de roda, as músicas dos amigos, os sambas da época.

O primo não conseguia chamá-la de Gracinha, ficava com o “Gra...” enflado na garganta. Foi aí que Maria da Graça começou a ser Gal - Gal para o primo, Gal para os antigos, agora Gal para todo mundo. O Costa, do sobrenome, é de familia mesmo. O pai: ela já não tem mais, morreu. Era um comerciante, tinha uma loja de jóias e bijuterias no centro da cidade, longe do bairro. É filha única, a mãe vive em Salvador.

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- Mas está passando uns tempos em Brasília.

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Dona Mariah. O sonho de Gal Cosia é mudar-se do seu apartamento na avenida São João, alugar outro melhor e trazer a mãe para São Paulo. Pelo menos para uma temporada aqui, não precisa ser para a vida tôda, porque dona Mariah gosta mesmo é de Salvador.

A mãe nunca se importou com a menina cantando o tempo inteiro, com a menina que misturava as notas da escola com as notas do violão. A mãe de Maria da Graça tem muito orgulho de ser a mãe de Gal Costa.

Um dia ela ouviu João Gilberto pela primeira vez e aí, bem, ai não podia mais deixar de ser uma cantora. Agora ela prepara um LP. Ia sair já, mas Gal se complicou tôda, há tanta música boa, tanta música que gostaria de cantar que - pronto: o LP vai ficar para depois do Festival da Record, se não atrasar-se mais ainda.

Mas está indo, está indo bem. Cinco músicas de Caetano - inclusive “Divino Maravilhoso”, que ela vai apresentar no festival - são certas; mais um charleston do Gil, uma qualquer do Os Mutantes, outra do Tom Zé, um samba antigo do Jackson do Pandeiro.

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[trecho ilégível] ... pátio muito grande em frente ao edifício onde Maria da Graça morava e turma ficava lá o tempo todo, fazendo serenata, até muito tarde da noite. Dedé, Caetano, Gil, Betánia.

De que compositores ela gosta? De Caetano e Gil, claro.

- Claro, não. Eu gosto dêles porque eu acho que eles são os melhores compositores brasileiros do momento, porque criticam a sociedade moderna e fazem letras muito bem feitas, muito bonitas, bonitas mesmo, e eu acho que melhor do que eles só mesmo João Gilberto.

Há a idéia de um show na boate Blow Up, com Jorge Ben. Ia ser agora, como o LP, mas o MPB4 entrou e ela e Ben ficaram para depois. Mas não demora, vai ser logo depois mesmo.

De Fernando, não. Ela prefere não falar do namorado. Êle esteve em São Paulo há um més e meio mais ou menos, agora já voltou outra vez para Salvador. Gal ficou de escrever, mas onde encontrar tempo? Ficou de escrever, não escreveu.

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Mora num apartamento na avenida São João. Horrível, aquêle ponto: já vai mudar, está procurando outro. Quando encontrar, trará de Salvador a mobília da avó, uma mobília toda antiga, linda. Mas está tão difícil encontrar apartamento, você sabe de algum?

Ela se preocupa e não se preocupa com roupas. Quer dizer:

- Preocupo-me na medida em que devo me preocupar, pelos 22 anos que tenho, por exemplo. E não me preocupo ao ponto de ficar preocupada com isso, entende?

Quem desenha e faz suas roupas de apresentações é a Regina, a costureira de Caetano e de todo o grupo. Foi ela quem fêz aquelas roupas de plástico com que Caetano e os Mutantes cantaram no Festival Internacional da Canção. As outras, as que Gal usa para ficar em casa, passear na rua, ir ao cinema com Dedé - estas são ela mesma quem compra. Nas butiques da rua Augusta. As côres? azul, vermelho, prêto, branco.

Nos cabelos, papelotes, hora, hora e meia. Ao salão ela só vai quando tem que cortar. Pentear cabelo, em casa mesmo, com os papelotes. No rosto, só pinta os olhos. Batom, não, não precisa.

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Melhores cantores: João Gilberto, naturalmente, Maria Betânia. E Roberto Carlos. Ela adora Roberto Carlos.

Acorda às duas, quando não tem que acordar antes. Passa a tarde no apartamento de Caetano, na avenida São Luis, quando não tem ensaio. À noite, vai ao restaurante Patachou, quando não tem que cantar. E come de tudo, à vontade: se não tomar cuidado, terá que voltar ao regime para não engordar. Beber, bebe pouco. Mas quando bebe, prefere uísque escocês - “puro, por favor” - ou nacional mesmo, se fôr o caso. Cozinha? Não, não cozinha.

Agora já a param na rua, porque ela é Gal Costa. Mas ela não se preocupa, acha até divertido. De vaia não tem medo, por que ter medo? Já tomou a sua, no Festival da Excelsior. E roi unha, sem parar. Talvez por isso não as pinte. Nos dedos, dois aros de metal prateado e um anel de peças de relógio.

Viu e reviu Warren Beatty e Faye Dunaway vestidos de Bonnie e Clyde. Foi o filme de que ela mais gostou, dos últimos a que assistiu aqui em São Paulo.

Agora, quando vai ao cinema, mesmo protegida por grossos óculos escuros, alguém lhe lembrará que ela é Gal Costa, a cantora, do Baby, do pince-nez colocado na frente dos olhos, da estola do penas brancas afogando-lhe. o Pescoço. E ela mesma, Maria da Graça, escreverá nas costas do papel do fã o nome que é dos outros: Gal Costa.

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Gal? Foi Guilherme quem sugeriu para o seu nome artístico aproveitando a invenção do primo de Maria da Graça. Guilherme Araújo, seu empresário. Maria da Graça não ficava bem, parecia nome de cantora de fado.

Maria da Graça tinha bonecas, como tôdas as meninas, mas gostava era de jogar partidas de bolinha de gude. E de soltar, pipa com os meninos de sua rua. Eram as mais altas pipas, as suas. Os amigos da turma: Fernando (para dizer a verdade, ele era mais do que um amigo. Era o moço da turma que ela olhava mais nos olhos, que ela se preocupava em saber se já tinha chegado ou não), Haly, Duda, Jorge.

A ultima vez que esteve em Salvador foi no Carnaval. Passou uma semana, brincando nos clubes e na rua, escondida atrás de uma máscara de pierrô estilizado. Já não era a Maria da Graça da turma, mas Gal Costa.

Para ler, escolhe Guimarães Rosa, Luluzinha, Graciliano Ramos, Pato Donald, James Baldwin, Mickey Mouse, Simone de Beauvoir, Tio Patinhas. Adora o Tio Patinhas, adora o Peninha, aquele pato doido das aventuras de Donald. Adora Gastão, o primo de multa sorte - êle sumiu, que pena não tem aparecido nas últimas aventuras. E madame Minh que graça - e Maga Patalógica aquela bruxa linda? Do Mickey, como personagem, Gal nem quer saber. É um reacionário, um chato de galochas: no final, sai sempre ganhando. Você já viu alguma coisa mais injusta?

Ela começa a ser um ídolo e nem está ligando. Para Gal, tanto faz. É baixa, nem magra nem gorda, tem olhos castanhos e grandes. Olha para o fotógrafo sem displicêncla, vira o rosto, as mãos finas e curtas param sô bre a cintura bem feita. Passeia na sala do apartamento imitando grande dama, sopra as penas da estola, enrola o pince-nez no colar de pérolas falsas. Brinca com os dedos, cantarola uma música qualquer, chuta o vento. E sorri.

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Chama-se Gal Costa e é feliz, tão feliz quanto Maria da Graça.

Jornal da Tarde

Por 46 anos [de 4 de janeiro de 1966 a 31 de outubro de 2012] o Jornal da Tarde deixou sua marca na imprensa brasileira. Neste blog são mostradas algumas das capas e páginas marcantes dessa publicação do Grupo Estado que protagonizou uma história de inovações gráficas e de linguagem no jornalismo. Um exemplo é a histórica capa do menino chorando após a derrota da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.

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