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Opinião|Não "terceirize" sua criatividade para as máquinas!

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Atualização:
Para Salvador Dalí, "você tem que criar a confusão sistematicamente; isso liberta a criatividade" - Foto: Allan Warren/Creative Commons

Quando o ChatGPT foi lançado, em 30 de novembro de 2022, muita gente disse que, com ele, as pessoas começariam a ficar "intelectualmente preguiçosas", pois entregariam à inteligência artificial até tarefas que poderiam fazer sem dificuldade. De lá para cá, observamos mesmo muitos casos assim, inclusive com resultados desastrosos. Mas o que também tenho observado é algo mais grave, ainda que mais sutil: indivíduos "terceirizando" a sua criatividade para as máquinas.

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Quando fazemos um desenho, tiramos uma foto, compomos uma música ou escrevemos um texto, que pode ser um singelo post para redes sociais, exercitamos habilidades e ativamos conexões neurológicas essenciais para o nosso desenvolvimento. Ao entregar essas atividades à máquina, essas pessoas não percebem o risco que correm por realizarem menos essas ações.

Há um outro aspecto que não pode ser ignorado: a nossa criatividade nos define como seres humanos e como indivíduos. Por isso, adolescentes exercitam intensamente sua criatividade para encontrar seu lugar no mundo e definir seus grupos sociais.

A inteligência artificial generativa é uma ferramenta fabulosa que está apenas dando seus passos iniciais. Por mais que melhore no futuro breve (e melhorará exponencialmente), suas produções resultam do que essas plataformas aprendem de uma base gigantesca que representa a média do que a humanidade sabe.

Ao entregarmos aos robôs não apenas nossas tarefas, mas também nossa criatividade, ameaçamos nossa identidade e a nossa humanidade. Esse é um ótimo exemplo de como usar muito mal uma boa tecnologia. E infelizmente as pessoas não estão percebendo isso.

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Veja esse artigo em vídeo:


Assim como nossa carga genética, algo que nos diferencia dos outros indivíduos são nossas ideias. Apesar de fazermos isso naturalmente, ter uma ideia original é um processo complexo, que combina tudo que aprendemos em nossa vida com os estímulos que estivermos recebendo no momento. Além disso, ela é moldada por nossos valores, que são alinhados com os grupos sociais a que pertencemos. E nossa subjetividade ainda refina tudo isso.

Mesmo a mais fabulosa inteligência artificial possui apenas a primeira dessas etapas para suas produções, que é o que aprendeu de sua enorme base de informações coletadas das mais diferentes fontes. É por isso que a qualidade do que produz depende implicitamente da qualidade dessas fontes.

Alguns argumentam que a inteligência artificial também pode desenvolver valores a partir de sua programação, dos dados que consome e da própria interação com os usuários. De fato, um dos maiores problemas dessa tecnologia são os vieses que acaba desenvolvendo, o que piora suas entregas.

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Com valores, a máquina se aproxima mais do processo criativo humano. Mas a inteligência artificial ainda não pode ser chamada de criativa, justamente pela etapa final, conduzida pela nossa subjetividade. Os padrões que aprendemos em nossa história de vida única nos permitem ir além de simples deduções lógicas no processo criativo. Para as máquinas, por outro lado, esses mesmos padrões tornam-se limitadores.

Gosto de pensar que o processo criativo é algo que nos conecta com algo sublime, alguns diriam com algo divino. Quando escrevo, por exemplo, um artigo como esse, combino grande quantidade de informações que coletei para essa tarefa com o que aprendi ao longo da minha vida. Mas a fagulha criativa que faz com que isso não seja uma composição burocrática e chata (assim espero) só acontece ao me abrir intensamente para minha sensibilidade.

Jamais entregaria isso a uma máquina, pois isso me define e me dá grande prazer!

 

Nós nos tornaremos máquinas?

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Em seu livro "Tecnologia Versus Humanidade" (The Futures Agency, 2017), Gerd Leonhard questiona, anos antes do ChatGPT vir ao sol, como devemos abraçar a tecnologia sem nos tornarmos parte dela. Para o futurólogo alemão, precisamos definir quais valores morais devemos defender, antes que o ser humano altere o seu próprio significado pela interação com as máquinas.

Essas não são palavras vazias. Basta olhar nosso passado recente para ver como a nossa interação incrivelmente intensa com a tecnologia digital nos transformou nos últimos anos, a começar pela polarização irracional que fraturou a sociedade.

O mais terrível disso tudo é que as ideias que nos levaram a isso não são nossas, e sim de grupos que se beneficiam desse caos. Eles souberam manipular os algoritmos das redes sociais para disseminar suas visões, não de maneira óbvia e explícita, mas distribuindo elementos aparentemente não-relacionados (mas cuidadosamente escolhidos) para que as pessoas concluíssem coisas que interessavam a esses poderosos. E uma vez que essa conclusão acontece, fica muito difícil retirar essa ideia da cabeça do indivíduo, pois ele pensa que ela é genuinamente dele.

Se as redes sociais se prestam até hoje a distorcer o processo de nascimento de ideias, a inteligência artificial pode agravar esse quadro na etapa seguinte, que é a nutrição dessas mesmas ideias. Como uma plantinha, elas precisam ser regadas para que cresçam com força.

Em um artigo publicado na semana passada, a professora da PUC-SP Lucia Santaella, autoridade global em semiótica, argumenta que o nosso uso da inteligência artificial generativa criou um novo tipo de leitor, que ela batizou de "leitor iterativo". Afinal, não lemos apenas palavras: lemos imagens, gráficos, cores, símbolos e a própria natureza.

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Com a IA generativa, entramos em um processo cognitivo inédito pelas conversas com essas plataformas. Segundo Santaella, o processo iterativo avança por refinamentos sucessivos, e os chatbots respondem tanto pelo que sabem, quanto pelos estímulos que recebem. Dessa forma, quanto mais iterativo for o usuário sobre o que deseja, melhores serão as respostas.

Isso reforça a minha proposta original de que não podemos "terceirizar" nossa criatividade para a inteligência artificial. Até mesmo a qualidade do que ela nos entrega depende do nível de como nos relacionamos com ela.

Temos que nos apropriar das incríveis possibilidades da inteligência artificial, uma ferramenta que provavelmente potencializará pessoas e empresas que se destacarão nos próximos anos. Mas não podemos abandonar nossa criatividade nesse processo. Pelo contrário: aqueles que mais se beneficiarão das máquinas são justamente os que maximizarem a sua humanidade.

 

Opinião por Paulo Silvestre

É jornalista, consultor e palestrante de customer experience, mídia, cultura e transformação digital. É professor da Universidade Mackenzie e da PUC–SP, e articulista do Estadão. Foi executivo na AOL, Editora Abril, Estadão, Saraiva e Samsung. Mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela PUC-SP, é LinkedIn Top Voice desde 2016.

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