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Opinião|O que falta para as máquinas se tornarem "humanas"

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Atualização:
Cena em que David deixa de ser um robô e passa a ser um "humano", no filme "A.I.: Inteligência Artificial" (2001) - Foto: reprodução

Quem assistiu ao filme "A.I.: Inteligência Artificial" (2001), de Steven Spielberg, provavelmente se lembra da cena em que o protagonista David (Haley Joel Osment) deixa de ser uma criança-robô com uma incrível inteligência artificial e passa a ser um "humano", após uma sequência de comandos ditada por sua "mãe", Monica Swinton (Frances O'Connor). Claro que ele continuou sendo uma máquina, mas graças à memorável atuação de Osment, então com apenas 13 anos, o público sente instantaneamente que algo mudou ali.

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Seria possível um androide se transformar em uma pessoa, pelo menos em sua "essência"?

No começo, David era como um ChatGPT com um corpo semelhante ao de um menino. Ele compreendia tudo e tomava decisões aparentemente inteligentes (apesar de muitas vezes falhas). Mas ele jamais seria confundido com uma criança de verdade, pois sua fala, seus gestos e suas ações não eram fluidas, exatamente como acontece hoje com as vozes sintetizadas dos assistentes de nossos smartphones.

Tudo muda após a sua "ativação" por Monica, quando ela decide que quer ficar com ele. David passa a demonstrar (e ao que tudo indica a sentir) emoções humanas, como amor, medo, alegria, tristeza e raiva. Ele até deixa de se referir a ela como "Monica", passando a chamá-la de "mamãe".

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O que vem depois não é um "viveram felizes para sempre". Com isso, o filme nos fez pensar profundamente sobre como a vida pode ser definida e se ela pode ser sintetizada, em uma época em que raríssimas pessoas falavam sobre inteligência artificial.

Se uma máquina pudesse sentir e agir como um ser humano, isso a tornaria um ser vivo? Biólogos diriam que não, pois ela ainda não seria capaz de se reproduzir. Muita gente iria além, rejeitando-lhe a vida pois lhe faltaria ainda o "sopro divino", algo chamado de "espírito", "alma" ou outros nomes, de acordo com a cultura.

Mas outros diriam que sim: uma IA, mesmo sem corpo, já poderia ser considerada um ser vivo (ainda que não humano). É o caso de Blake Lemoine, que era engenheiro do Google, até ser demitido em julho de 2022, por afirmar que um protótipo de IA da empresa havia se tornado "consciente", e que desligá-lo seria equivalente a um assassinato.

Essa conversa estaria restrita à ficção científica até alguns anos atrás. Mas hoje, diversas empresas, incluindo a OpenAI (criadora do ChatGPT), buscam ativamente a chamada AGI (sigla em inglês para "inteligência artificial geral"). Esse sistema transcenderia as limitações de todas as IAs existentes hoje, podendo se comportar e atuar como uma pessoa, mas com o poder sobre-humano de um computador.

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Alguns pesquisadores acreditam que já estejamos perto de isso acontecer; outros afirmam que nunca haverá uma inteligência artificial totalmente autônoma, a ponto de ter suas próprias iniciativas e atuar em qualquer atividade.

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Supondo que cheguemos lá, uma IAG poderia ser considerada viva ou até mesmo uma consciência humana? Recorrendo novamente ao cinema, "Blade Runner" (1982) apresentava máquinas que simulavam humanos tão perfeitamente, que algumas sequer tinham consciência de que eram robôs, acreditando piamente em sua humanidade. Não por acaso, o slogan de seu fabricante, a Tyrell Corporation, era "mais humano que humano".

Esse é um dos casos em que a realidade parece querer superar a ficção. Para muitos, "máquinas humanas" já estão entre nós; para outros, isso é uma loucura! Mas o fato não se discute: o desenvolvimento da inteligência artificial avança exponencialmente e esse cenário em 2024 será muito diferente do que se viu em 2023. Com isso, quão perto de uma máquina "viva" estaremos no fim do ano?


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Opinião por Paulo Silvestre

É jornalista, consultor e palestrante de customer experience, mídia, cultura e transformação digital. É professor da Universidade Mackenzie e da PUC–SP, e articulista do Estadão. Foi executivo na AOL, Editora Abril, Estadão, Saraiva e Samsung. Mestre em Tecnologias da Inteligência e Design Digital pela PUC-SP, é LinkedIn Top Voice desde 2016.

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