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Marcola encomenda morte de líderes do PCC e agrava racha, aponta investigação

Prioridade a Marco Willians Herbas Camacho, chefe máximo da facção, é colocada à prova por rivais internos; grupo está no sistema penitenciário federal, que teve fuga inédita neste mês

Foto do author Ítalo Lo Re
Por Ítalo Lo Re
Atualização:

Líder máximo do Primeiro Comando da Capital (PCC), maior organização criminosa do País, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, encomendou a morte de outros três nomes da alta cúpula da organização criminosa, segundo “salve” (orientação geral a outros membros) investigado pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP).

Os alvos seriam três antigos aliados de Marcola: Roberto Soriano, o Tiriça; Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho; e Abel Pacheco de Andrade, o Vida Loka. Todos estão presos na Penitenciária Federal de Brasília, em mais um episódio que desafia a rede.

Líder máximo do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, encomendou morte de outros três nomes da alta cúpula da organização Foto: Gabriela Biló/Estadão - 21/01/2020

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Na última semana, dois presos, ligados ao Comando Vermelho, escaparam da unidade de segurança máxima em Mossoró (RN). A fuga, inédita no sistema carcerário federal, se tornou a primeira crise do ministro Ricardo Lewandowski à frente do Ministério da Justiça e da Segurança Pública.

Como mostrou o Estadão, o PCC passa por um racha motivado pela insatisfação em relação ao poder acumulado e decisões consideradas contraditórias da parte da Marcola. Também pesaram nessa divisão interna a informação de que falas do chefe máximo da facção foram consideradas decisivas para que Tiriça fosse julgado culpado em um caso de assassinato.

Tiriça foi condenado a 31 anos e 6 meses de prisão no ano passado pela morte da psicóloga Melissa de Almeida Araújo, de 37 anos. O crime ocorreu em maio de 2017, em Cascavel, no Paraná, quando a vítima atuava na Penitenciária Federal de Catanduvas, na mesma região. Na ocasião, a defesa de Soriano afirmou que iria recorrer da decisão.

“No (tribunal do) júri do Roberto Soriano foi usado um trecho de gravação em que o Marcola dizia que ele não era como o Roberto Soriano, que não era ‘sanguinário’ ou ‘louco’ como ele, que tomou aquela medida de mandar matar a psicóloga”, afirmou ao Estadão o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Estado.

“Isso foi fundamental na condenação. E o Soriano não perdoa e não perdoou o Marcola por isso. Ele falou: ‘se fosse eu que tivesse falado isso e, no julgamento do Marcola, fosse usada uma gravação da minha voz dizendo que sou bonzinho, e não como ele, eu estaria morto’. E de fato estaria. Isso está causando uma discussão interna”, acrescentou Gakiya.

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Roberto Soriano foi condenado a 31 anos como mandante da morte de uma psicóloga em Cascavel (PR); crime aconteceu em 2017 Foto: MPF/Divulgação

No “salve” interceptado pelas autoridades policiais, a Sintonia Final, cúpula mais alta do PCC, afirma que Marcola não teve a intenção de prejudicar Tiriça e que a insatisfação quanto a esse episódio, portanto, seria injustificada.

“Todos aqueles que se levantarem no intuito de criar racha e discórdia dentro da nossa organização serão excluídos e decretados (jurados de morte)”, diz trecho do salve, obtido pelo Estadão.

A mensagem começou a ser repassada na última quinta-feira, 15, com replicação não só dentro das penitenciárias, como também entre membros da facção nas ruas, inclusive via grupos de WhatsApp.

Em paralelo, autoridades policiais afirmam que os três criminosos jurados de morte – Tiriça, Andinho e Vida Loka – também tentaram emitir um salve contra Marcola, em ofensiva que mostra o racha na organização.

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A ruptura é agravada ainda pelo foco recorrente em tentar libertar Marcola e pelas circunstâncias do assassinato de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, apontado como liderança em ascensão dentro do PCC. Ele foi encontrado morto em fevereiro de 2018 em área de mata de Aquiraz, na região metropolitana de Fortaleza.

Gegê foi arremessado no local direto de um helicóptero, logo após ser executado a tiros e facadas. No mesmo local, uma reserva indígena, foi localizado o corpo de Fabiano Alves de Souza, o Paca, em um dos episódios mais sangrentos da história do PCC.

“O grupo ligado ao Soriano não aceita e nunca aceitou as mortes do Gegê do Mangue e do Paca, que foram determinadas pelo Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, sócio do Marcola. O Fuminho, primeiro, foi jurado de morte (decretado) por eles, mas depois foi perdoado pelo Marcola. Isso criou um clima que está estimulando esse racha interno”, disse Gakiya.

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'Esse racha se dá justamente por isso: eles estão questionando várias ações do PCC, inclusive a de dar toda a prioridade para o Marcola e deixar os outros sem qualquer tipo de importância', disse o promotor Lincoln Gakiya Foto: Stephanie Fonseca/Estadão

Na época em que foi morto, Gegê fazia uma espécie de “pente-fino” para apurar os gastos da organização. Fuminho foi preso em Moçambique, em 2020, após 20 anos foragido. A hipótese é de que ele estava na África com o objetivo de construir uma rede de distribuição de drogas na Europa e, assim, se livrar do pedágio cobrado pela ‘Ndrangheta – a máfia da Calábria, na Itália – e pela máfia sérvia.

“Esse racha se dá justamente por isso: eles questionam várias ações do PCC, inclusive a de dar toda a prioridade para o Marcola e deixar os outros sem qualquer tipo de importância”, disse Gakiya, que investiga o Primeiro Comando da Capital há duas décadas.

O promotor ressaltou que, diferentemente do que aconteceu em outras ocasiões, hoje há mais dificuldade no “acerto de contas” entre lideranças, uma vez que grande parte delas cumpre pena no sistema federal. “Mas nas ruas há muitas mortes ligadas a esse racha e a disputas internas por poder. A situação atual do PCC é esta: passa por depuração interna e há um questionamento da liderança do Marcola.”

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