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Plantações de eucalipto e cana-de-açúcar no Cerrado empurram gado para Amazônia

Pecuária e soja foram deslocadas para sul de Goiás, norte de São Paulo e Triângulo Mineiro; mais de 50% do bioma já foi desmatado, diz governo

Foto do author Leonencio Nossa
Por Leonencio Nossa e CRISTALINA (GO)
Atualização:

Um dos símbolos do Cerrado goiano, a Pedra do Chapéu do Sol, em Cristalina, a 288 quilômetros a leste de Goiânia e a 120 ao sul de Brasília, está cercada de plantações de eucalipto. O maciço rochoso de cerca de 100 toneladas que se equilibra numa base de menos de 2 metros quadrados perdeu a vegetação nativa em sua volta. É uma ilustração de um cenário mais amplo. O Ministério do Meio Ambiente estima que mais de 50% do Cerrado tenha sido desmatado. A destruição do bioma nos últimos anos tem impacto ainda mais direto na Amazônia que nas décadas passadas. A chegada de novas culturas como o eucalipto e a cana-de-açúcar ao sul de Goiás, norte de São Paulo e Triângulo Mineiro afasta o gado para a divisa de Mato Grosso com Amazonas e para o Piauí e o Maranhão, áreas que registram porcentuais elevados de desmatamento da floresta amazônica."O setor de álcool diz que só planta cana em terras já devastadas, mas há um desmate indireto na Amazônia", diz o professor Ricardo Machado, da Universidade de Brasília. Especialista em Cerrado, Machado estima que as áreas de Cerrado protegidas por lei (reservas ambientais) chegam a 7,2% do segundo maior bioma brasileiro. "Esse porcentual não quer dizer muita coisa, pois as reservas estão concentradas em algumas áreas como o Jalapão", avalia. Ele observa que não há uma distribuição homogênea que atenda toda as regiões e lembra que a última reserva criada para proteger o bioma foi a área das nascentes do Rio Parnaíba, entre os Estados da Bahia, do Piauí e do Tocantins, em 2002. "Até 2001, vínhamos num ritmo interessante de proteção do Cerrado, com a criação de reservas. Agora, chegamos num momento em que a proteção parou e o desmatamento aumentou."Lagos. Dez anos após ser criado, o Parque Nacional das Nascentes do Parnaíba está na mira de grupos econômicos e governos, que querem utilizar as águas dos rios para formar lagos de usinas hidrelétricas ou plantações de soja. A reserva inclui terras da Bahia, do Maranhão, do Piauí e do Tocantins, mas é um parlamentar de São Paulo que pretende reduzir a extensão. O deputado federal Nelson Marquezelli (PTB) diz que a redução da área vai "melhorar a gestão" do parque. Machado observa que o Cerrado ainda não conta com um planejamento "decente" de ocupação. "O bioma passou a fazer parte do discurso de vários órgãos públicos, mas em termos de ações concretas há pouca coisa." O eucalipto já predomina em muitos trechos da região rural entre Goiânia e o Distrito Federal. Machado ressalta que não há uma preocupação em intercalar a nova cultura com áreas nativas, como ocorre em algumas regiões do oeste da Bahia. Também destaca que mesmo os órgãos de pesquisas agrícolas não incentivam a produção de árvores nativas de crescimento rápido, como o jacaré e o carvoeiro, que poderiam ser aproveitadas pela indústria de celulose. Chapéu do Sol. A cidade de Cristalina tem a maior área agrícola irrigada da América Latina, segundo o Ministério da Agricultura. São 50 mil hectares de plantios de soja, milho e feijão. Os produtores do município movimentaram R$ 1,38 bilhão em 2010, garantindo à cidade uma das primeiras posições no ranking do PIB agrícola.As plantações de soja ocupam os campos das margens do trecho inicial da estrada de terra de 7 quilômetros que liga o centro de Cristalina à pedra Chapéu do Sol. Já no terceiro quilômetro, os eucaliptos começam a aparecer, assim como pequenos garimpos e áreas de extração de terra. O maciço rochoso ocupa uma ponta de uma área preservada de Cerrado que não passa de 2 campos de futebol. Os eucaliptos cercam o símbolo do Cerrado goiano e outras formações que apresentam gravuras rupestres de antigos povos da região.

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