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Quer ser cientista? Faculdade gratuita em SP tem laboratórios de ponta e dá moradia a alunos

Primeira turma da Ilum tem metade de alunos da rede pública e começou aulas este ano; graduação inovadora traz foco interdisciplinar e em pesquisa

Por Beatriz Bulhões
Atualização:

Estudar para se tornar cientista e ter aulas perto do Sirius, acelerador de partículas e a maior obra brasileira para pesquisa. Parece história de cinema ou de livro, mas é realidade para quem ingressa na Ilum, faculdade gratuita em Campinas (SP) supervisionada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. Inaugurada em 2021, a escola promete abordagem inovadora, com foco em pesquisa e contato direto com laboratórios e equipamentos de ponta.

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O bacharelado em Ciências e Tecnologia tem três anos: os dois primeiros são de aulas teóricas e práticas, mas no segundo semestre os alunos já podem fazer pesquisas. Há classes avançadas de Física, Biologia, Química e Matemática, em um modelo interdisciplinar. Já o terceiro ano é para desenvolver projetos no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), polo de ciência e tecnologia federal onde a Ilum foi desenvolvida.

“Só há outros três laboratórios no nível do Sirius no mundo e nenhum deles tem uma faculdade de graduação ligada a ele”, diz Adalberto Fazzio, diretor da Ilum e membro da Acadêmia Brasileira de Ciências. “A escola é ímpar no mundo.” A Ilum está com inscrições abertas até esta sexta, 16. A faculdade oferece moradia, notebook, vale-refeição e vale-alimentação ao aluno, além de aulas de inglês gratuitas a quem tiver interesse.

A proposta chamou a atenção da estudante Isadora Marcondes, de 20 anos, da 1ª turma da Ilum, que começou em março deste ano. A escolha da jovem foi incentivada pela irmã, que estuda Matemática aplicada em Ciências da Computação.

“Não tinha nada do currículo que eu não gostaria de fazer. Era bem difícil acertar um curso que compreendesse tudo que era do meu gosto no ensino médio. Quando conheci a Ilum e a proposta interdisciplinar, soube que era para mim”, afirma ela.

Professores realizam atividades em um dos laboratórios da Ilum, em Campinas. Foto: Taba Benedicto/Estadão

A metodologia é de que o estudante seja “protagonista do conhecimento”: aulas expositivas são pequenos seminários, com debate e resolução de problemas pelos próprios alunos, que devem estudar previamente o tema. “Estudei a vida toda no método tradicional, com provas. Aqui o ensino é mais individualizado, exigindo mais do que só prestar atenção às aulas. Foi um choque de realidade”, diz.

A 1ª turma reúne 40 alunos – obrigatoriamente, metade deve ter cursado o ensino médio na rede pública. Foram 943 inscritos na seleção, concorrência de quase 24 por vaga. Na sala de Isadora há mais 18 mulheres – participação feminina mais alta do que a realidade das universidades e centros de pesquisa do País, sobretudo em cargos mais altos. Fazzio diz que não há reserva de vagas por gênero. Há alunos de 11 Estados, de todas as regiões do País.

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João Carâmes veio de Ananindeua (PA). Ele se mudou para estudar Física em uma universidade federal até que foi informado sobre a escola do CNPEM por uma professora. “Quando soube da oportunidade da Ilum, considerando a estrutura e a grade curricular, já vi que era algo diferente”, afirma.

Quando cursava Física, o jovem foi apresentado a conteúdos de Biologia, Química e Matemática, por exemplo, mas achou todas introdutórias. “Era basicamente uma revisão do ensino médio com algo a mais”, diz. “Você só estudava mais a fundo se você tivesse muita intenção”, acrescenta.

Na carta em que enviou durante o processo seletivo, Carâmes escreveu o que gostaria de aprender e a forma como queria ter aprendido. “Funcionou pra mim, mas não existe fórmula pronta”, afirma. Apesar da rotina puxada, ele garante que dá tempo para se divertir, mas admite que não tem visto suas séries favoritas. Ele diz que costuma sair nos fins de semana, jogar videogames e ler livros. “Qualquer universidade é difícil. A nossa não seria diferente.”

A primeira turma da escola de cientistas tem 40 alunos. Foto: Taba Benedicto/Estadão

Como é o processo seletivo?

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Para se inscrever, o aluno deve submeter, no site oficial (https://ilum.cnpem.br/), uma redação dizendo os motivos pelos quais deseja estudar na Ilum. Depois, em fevereiro, o interessado apresenta a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A junção destas duas notas funciona como a primeira fase do processo seletivo, em que 200 alunos são aprovados. Medalhas de participações em olimpíadas do conhecimento ou concursos similares acrescentam pontos aos candidatos.

Na segunda fase do processo seletivo, os jovens passam por entrevista. Não há limite de idade para participar da seleção, apenas o pré-requisito de ter cursado o ensino médio. “Não é só responder às questões. A gente avalia a criatividade, a capacidade de resolver conflitos, de dialogar, de interagir, entre outras”, afirma Fazzio.

'A escola é ímpar no mundo', afirma o diretor Adalberto Fazzio. Foto: Taba Benedicto/Estadão

Rotina

Carâmes e Isadora moram em flats cujo aluguel é pago pela Ilum. No momento, cada aluno divide a unidade com outro colega, mas, com a chegada de novas turmas, o cenário pode mudar. De lá, um ônibus gratuito leva os estudantes ao campus.

A parte da manhã é dedicada a aulas teóricas de Matemática, Física, Química, Biologia, Computação e Humanidades, com início às 8h e término às 12h. Depois do almoço, oferecido gratuitamente no espaço, os estudantes têm aulas práticas.

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A ida ao CNPEM já começa no 1º semestre, ao menos uma vez por semana, quando os alunos podem acompanhar as pesquisas que já estão em andamento. Na medida em que avançam no curso, eles podem desenvolver suas próprias pesquisas. A mais importante será o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), a ser apresentado no final dos três anos.

Além dos laboratórios do CNPEM, a escola tem outros espaços, como o laboratório de humanidades e o de práticas avançadas. As aulas terminam às 16h, mas os alunos podem ficar no campus até as 21h, quando sai o ônibus em direção aos dormitórios. Para manter a faculdade, o Ministério da Educação (MEC) faz um repasse anual de cerca de R$ 8 milhões.

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