Entre vidro, luz e natureza, a Casa de Vidro se transforma, a partir de hoje, em um território de invenção poética e intelectual. O espaço icônico de Lina Bo Bardi na zona sul de São Paulo abre suas portas para a exposição individual Paisagens Perdidas para Lina Bo Bardi, de Ana Maria Tavares. Reconhecida por uma produção de forte carga intelectual e complexidade formal, a artista propõe um diálogo intenso entre arte, arquitetura e natureza, usando o espaço como elemento vivo e ativo na construção da obra.
Casa de Vidro recebe nova exposição
Em Paisagens Perdidas para Lina Bo Bardi, Ana Maria Tavares propõe diálogo entre arte, arquitetura e natureza. Crédito: Estadão
Desde o início de sua trajetória, Tavares explora como o design, a arquitetura e o paisagismo brasileiros podem ser reinterpretados a partir de uma perspectiva crítica. “Para mim, a arquitetura sempre foi uma fonte de perguntas e respostas; cada espaço suscita questionamentos sobre a vida, a sociedade e o modo como nos relacionamos com o mundo”, afirmou à Coluna Alice Ferraz. Essa atenção ao espaço construído e à memória arquitetônica encontra em Lina Bo Bardi um ponto de convergência, mas também de tensão. “Minha aproximação vem desse lugar de admiração e também de crítica.”

Crescida entre Minas Gerais e Brasília, Tavares acompanhou de perto a utopia do Brasil em construção. “Eu fui criada durante o período de Juscelino Kubitschek e da ditadura. Via a construção de Brasília e via o êxodo para lá, na esperança de que o Brasil se fundaria como um País moderno.” Mas a euforia do projeto modernista se chocou com a repressão: “Logo em seguida, houve a ditadura, que traz para mim outras perspectivas… E convivendo muito entre a capital e o interior de Minas, eu via drasticamente o contraste desses Brasis, desse Brasil extremamente empobrecido, sem recursos, sem futuro, sem utopia”.
A artista Ana Maria Tavares encapsula a natureza, transformando o espaço em uma paisagem tridimensional que se constrói na mente do visitante
Alice Ferraz
Essa experiência moldou sua percepção da arquitetura e do espaço, revelando um país dividido entre o sonho de desenvolvimento e a dura realidade social. “A utopia nunca chega para nós. Esse Brasil moderno, esse desenvolvimento… esse País do futuro está sempre no futuro, ele nunca está aqui.” É nesse ponto que Lina Bo Bardi surge como referência e contraponto: uma visão de modernismo, mas antropológica, que dialoga com o cotidiano, com a natureza e com as pessoas. A relação entre modernismo e natureza se amplia na obra de Tavares, que investiga como a paisagem se constrói no imaginário coletivo e como sua percepção está atravessada por visões idealizadas ou degradadas. “Não me interessa apenas celebrar a natureza, mas pensar como ela é percebida, representada e, muitas vezes, destruída”, diz Tavares da Galleria Continua.
Entre as obras da exposição, destacam-se as chamadas “vitrines” – estruturas que guardam, revelam e, ao mesmo tempo, impõem limites ao olhar. “Essas vitrines são como dispositivos que convidam o olhar a penetrar, a se perder, mas também a se deparar com barreiras e limites.” Trabalhadas com precisão quase cirúrgica, elas articulam vidro, metal e elementos orgânicos, criando uma tensão constante entre transparência e opacidade, acesso e restrição. A artista encapsula a natureza, transformando o espaço em uma paisagem tridimensional que se constrói na mente do visitante.
A escolha da Casa de Vidro como cenário não é casual. Projetada em 1951, a residência e manifesto arquitetônico de Lina dissolve os limites entre dentro e fora, construção e paisagem. “Trabalhar na Casa de Vidro é como entrar num lugar místico. Há uma energia que vem da história e do espaço, que dialoga diretamente com o meu trabalho.” Ao ocupar o espaço, Tavares cria pontos de fricção que exigem do público um envolvimento físico e intelectual, aproximando a experiência da obra de uma vivência imersiva. A exposição também propõe uma reflexão política e cultural sobre o Brasil: ao problematizar a ideia de paisagem, questiona-se como o País lida com sua própria memória ambiental e social.
A relação entre modernismo e natureza se amplia na obra de Tavares, que investiga como a paisagem se constrói no imaginário coletivo e como sua percepção está atravessada por visões idealizadas ou degradadas
Alice Ferraz
A “paisagem perdida” do título refere-se tanto à natureza devastada quanto à utopia modernista que prometia conciliar progresso e harmonia com o meio. Entre uma e outra, Tavares insere sua própria paisagem – feita de vidro e aço, mas também de silêncio e suspensão.
Algumas obras incorporam materiais preciosos e simbólicos, como vitórias-régias em nióbio e ouro, criadas pela joalheira Marina Sheetikoff. “Eu trago nióbio e ouro como esses recursos naturais que também estamos perdendo. Paisagens perdidas”, comenta a artista, conectando sua pesquisa estética à consciência ambiental. É o encontro entre poética e reflexão social, onde a beleza se torna veículo de temas urgentes, sem apelo sensacionalista.
Ao transitar entre referências à arquitetura modernista e ao paisagismo de Roberto Burle Marx, a artista constrói um campo de reflexão sobre como o Brasil pensa e molda seu próprio território, seja ele físico ou simbólico. “Minha obra sempre se voltou para a produção da Lina, buscando respostas para a utopia do projeto moderno, questionando o Brasil como País gigante e cheio de recursos, mas também de desigualdades”, diz. Cada vitrine, cada material e cada gesto artístico funciona como um ponto de diálogo com essa história.
Lina Bo Bardi surge como referência e contraponto , uma visão de modernismo mais antropológica que dialoga com o cotidiano, com a natureza e com as pessoas
Em Paisagens Perdidas para Lina Bo Bardi, Ana Maria Tavares exige tempo e atenção do público. “Essas vitrines não se entregam de imediato, elas exigem tempo, exigem um corpo que se mova e um olhar que queira ver”, conclui.




