PUBLICIDADE

Fotos de mulheres que enfrentaram desafios pela liberdade são tema de exposição

Mostra no Instituto Artium de Cultura apresenta imagens de 17 fotógrafos de 13 nacionalidades que exemplificam a luta feminina contra a violência de gênero

Foto do author Ubiratan Brasil
Por Ubiratan Brasil
Atualização:

A presença de mulheres na arquibancada de estádios em jogos de futebol é corriqueira em muitas regiões do mundo, mas a imagem registrada em 2018 pela fotógrafa iraniana Alaei Forough, que mostra torcedoras iranianas assistindo a uma partida em um estádio em Teerã, é significativa: as leis do país não permitem o acesso feminino em estádios, mas, naquele dia, um grupo delas pôde assistir ao jogo entre Persépolis e o time japonês do Kashima Antlers.

Mulheres acompanham a partida da Copa da Liga dos Campeões da AFC entre os times Persepolis, do Irã, e Kashima Antlers, do Japão, em uma seção segregada de uma arquibancada no Estádio Azadi, no Teerã, Irã, em 10 de novembro de 2018. Foto: Alaei Forough

PUBLICIDADE

A imagem captada por Alaei, mostrando a reação das torcedoras na arquibancada, tornou-se significativa como exemplo, ainda que fugaz, de liberdade. Tanto que foi uma das vencedoras do concurso da World Press Photo de 2019 com o título Crying for Freedom (Gritando por liberdade, em tradução livre). É justamente a intenção de mostrar tal força feminina diante de adversidades que inspira a exposição Resiliência - Histórias de Mulheres que Inspiram Mudanças, que abre nesta sexta, 14, no Instituto Artium de Cultura.

São retratos documentados por 17 fotógrafos, de 13 nacionalidades diferentes, entre 2000 e 2021 e que expressam, por meio das imagens, suas visões sobre questões como sexismo, violência contra mulher e direitos reprodutivos. “São exemplos de luta pela igualdade de gênero”, observa Wieneke Vullings, cônsul-geral do Reino dos Países Baixos, que organizou a mostra juntamente com a Fundação The World Press. “E é ainda mais significativo agora, quando vivemos o período pós-pandemia e que podemos sair de casa e voltarmos a nos preocupar com o que acontece ao redor do mundo.”

Figuras que representam o tratamento das mulheres na Irlanda que fazem fila para câmeras das mídias sociais, antes de desfilar em silêncio pelas ruas de Limerick, na Irlanda, em apelo aos moradores para mudança de lei contra o aborto, em 13 de abril de 2018. Foto: Olivia Harris

De fato, a imagem das torcedoras se expressando livremente no estádio iraniano revela uma forte carga de resistência: antes, quem se arriscasse era sumariamente encarcerada. Foi o que aconteceu em 2018, quando 35 mulheres foram presas depois de tentarem entrar em um estádio para acompanhar o jogo entre Persépolis e Esteghlal.

As mais determinadas, como Alaei Forough, chegaram a se disfarçar como homens para conseguirem acesso às arquibancadas. Foram momentos de tensão, pois houve hostilidade de alguns torcedores, mas também outros homens as apoiaram a seu modo, ou seja, ficando em silêncio mesmo sabendo que estavam ao lado de uma mulher.

A liberação para aquela partida contra o time japonês - que só veio depois de uma pressão da Fifa - foi como a explosão de um grito preso no peito. “Lembro que, quando passamos pelo portão e entramos no estádio, não consegui segurar as lágrimas por cerca de 10 minutos. Era tão humilhante quando você tinha de mudar seu rosto - nós até tivemos de enfaixar nossos seios para parecerem achatados como o dos meninos”, contou Alaei ao site Artistas No Musas, que defende os direitos femininos.

São momentos significativos como esse que marcam a exposição. Wieneke aponta outro exemplo de resiliência: o retrato Finding Freedom in the Water (Encontrando liberdade na água, em tradução livre), da fotógrafa Anna Boyiazis, compartilha a história de alunas da Escola Primária Kijini que aprendem a nadar e a realizar salvamentos, no Oceano Índico, na Praia de Muyuni, Zanzibar.

Publicidade

Dayana e Jairo, ambos ex-membros da FARC, deitam-se em uma cama com sua filha Andrée Nicole, e a irmã de Jairo, Liliana, no Rio Guayabero, Colômbia, em 21 de fevereiro de 2018. Foto: Catalina Martin-Chico

Tradicionalmente, as garotas do Arquipélago de Zanzibar são dissuadidas de aprender a nadar, muito por causa da falta de roupas de banho mais recatadas. “Sou mãe de uma menina de 4 anos, que frequenta livremente aulas de natação, portanto, essa imagem é particularmente forte para mim.”

Para ela, além do aspecto estético, as fotografias refletem um compromisso contra a violência contra mulheres, uma grave ameaça global.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.