O clima no Brasil é de euforia, quase como em uma final de Copa do Mundo, nos momentos finais do Oscar 2025. A expectativa é grande, tanto pela data — 2 de março, um domingo de Carnaval — quanto pela chance de o país finalmente conquistar uma estatueta com o filme Ainda Estou Aqui.
Com três indicações, o filme de Walter Salles, estrelado por Fernanda Torres, marca o retorno do Brasil ao Oscar após 26 anos, concorrendo nas categorias de Melhor Filme Internacional, Melhor Atriz e, pela primeira vez, Melhor Filme. Essa indicação histórica, aliás, reacende esperanças antigas e levanta uma questão inevitável: chegou finalmente a vez do cinema brasileiro conquistar a estatueta dourada? Segundo especialistas e até membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS, em inglês), as chances são altas.
“Meus colegas votantes têm demonstrado grande entusiasmo pelo filme, como pude perceber nos eventos e exibições especiais, sem exceção. A forma como as pessoas se emocionam com a obra é evidente”, afirma Pedro Kos, diretor e indicado ao prêmio de Melhor Curta em 2022 por Onde Eu Moro, ao Estadão. O cineasta brasileiro, que também é votante do Oscar, acredita no potencial do longa: “Acredito que o filme tem grandes chances de vencer, sobretudo na categoria de Melhor Filme Internacional.”
O vislumbre de vitória não é exclusivo de Pedro Kos. Segundo as previsões de importantes publicações especializadas em entretenimento, como Entertainment Weekly e Variety, Ainda Estou Aqui é o favorito ao prêmio. Assim como Kos, Daniel Rezende, indicado ao prêmio de Melhor Edição por Cidade de Deus, em 2004, acredita no primeiro Oscar para o Brasil. “É difícil prever o que acontecerá, mas, sem dúvida, o filme tem grandes chances”, torce. “Embora as premiações mais recentes, como o Globo de Ouro e o Critics’ Choice, ainda não reflitam essa mudança de perspectiva, o olhar do mundo sobre Ainda Estou Aqui tem se mostrado mais favorável nas últimas semanas", afirmou.
Essa mudança se deve ao fato de que Emilia Pérez, até então favorito ao prêmio de Melhor Filme Internacional, viu suas chances ruírem após as polêmicas envolvendo Karla Sofía Gascón, protagonista do longa e indicada ao prêmio de Melhor Atriz – a primeira mulher trans a ser mencionada na categoria. Após uma série de tweets polêmicos da atriz, que resgataram opiniões controversas, a produção da Netflix no mercado internacional passou a ser menos bem recebida na temporada.
O que também catapulta as chances de vitória da produção baseada no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva é o contexto geopolítico atual.
“O mundo está caminhando para uma era de autoritarismo, com a extrema-direita ganhando força em muitos países e regimes autoritários tomando o poder, o que é uma ameaça real. Esse é um tema urgente e global, que faz o filme ainda mais relevante no momento em que é lançado”, afirma Daniel Rezende. “O filme se apega a um período doloroso da nossa história, a ditadura, mas faz isso através da história de uma família. A dor daquela mulher é universal e, ao assistir ao filme, é impossível não se solidarizar com o sofrimento dela. Acho que o filme é muito bem-sucedido nesse sentido, pois toca em algo profundo.”

A votação do Oscar segundo quem vota
Mas antes de ter seu nome anunciado pelos apresentadores no Dolby Theatre, em Los Angeles, toda produção ou indivíduo precisa ser aprovado pela maioria dos votantes do prêmio, que, segundo os dados mais recentes, somam cerca de 10 mil membros. A sorte de Ainda Estou Aqui é que, atualmente, o grupo responsável por indicar e premiar os filmes na cerimônia é composto por membros mais jovens e diversos, como explica Daniel Rezende.
“A Academia tem se empenhado em incluir membros mais jovens, de diferentes países, culturas e etnias, ampliando assim a diversidade de perspectivas dentro do cinema”, explicou ele. Quando se tornou votante, em 2005, o grupo contava com cerca de 4 a 5 mil membros ativos. “Isso se reflete nos filmes indicados e premiados, como vimos com Parasita em 2020, que se tornou, há alguns anos, o primeiro filme em língua não inglesa a ganhar o Oscar de Melhor Filme."
O processo de votação na Academia ocorre em duas fases. A primeira fase é destinada à definição dos indicados. Nessa etapa, todos os membros têm acesso a uma plataforma de streaming exclusiva, onde os estúdios enviam os filmes que acreditam ter potencial para serem indicados. Muitos desses filmes chegam aos votantes bem antes de serem lançados nos cinemas, permitindo que sejam assistidos com antecedência.
Durante a primeira fase de votação, os membros escolhem os indicados ao Oscar de Melhor Filme, selecionando até dez filmes em ordem de preferência. Além disso, cada membro vota em sua categoria específica. Daniel Rezende, por exemplo, indicado a Melhor Edição por Cidade de Deus, vota na categoria de Edição.
Na segunda fase da votação, os membros da Academia podem votar em todas as categorias, exceto na de Melhor Filme, que segue uma metodologia diferente. “Não somos obrigados a votar nos dez indicados, mas podemos ordenar os dez filmes de nossa preferência. Nas demais categorias, escolhemos apenas um filme, o que consideramos o melhor”, explica Rezende.
É importante destacar que a votação é pessoal e pode variar de membro para membro. “No meu caso, voto em produções que tragam algo novo ou que me conectem de forma emocional ou humana”, explica ele sobre seu processo. Petra Costa, indicada ao prêmio em 2020 pelo documentário Democracia em Vertigem, também tem um critério de avaliação similar. “Escolho os títulos que me tocam, seja pela linguagem, pelo conteúdo ou pela maestria do conjunto da obra”, ela conta ao Estadão.

“Assisto a todos os filmes disponíveis na plataforma para poder avaliá-los de maneira mais completa e escolho, dentro de cada categoria, o que considero ser o melhor, segundo o meu ponto de vista. Não tem muito segredo nisso”, destrincha Pedro Kos. “É uma questão pessoal, de entender o que cada longa propõe, mas também de perceber o que pode ser o desejo da Academia.”
Um aspecto pouco discutido sobre a Academia é que cada membro tem o poder de indicar novos integrantes todos os anos. “Na verdade, dois membros podem recomendar um novo nome. Por muitos anos, os membros brasileiros não estavam exercendo essa prerrogativa, o que limitava nossa representatividade”, explica Petra Costa.
“Mas desde que me tornei membro, faço questão de indicar novos profissionais e incentivo meus colegas a fazerem o mesmo. Ampliar a presença brasileira na Academia é fundamental para garantir a visibilidade e o reconhecimento da riqueza do nosso cinema.” Conforme os registros oficiais mais atualizados, a Academia possui 58 membros brasileiros ativos.
Como ‘Ainda Estou Aqui’ pode chegar lá
Com tantas produções e grandes nomes do mercado competindo pela atenção dos membros da Academia durante a temporada de prêmios, destacar um filme exige um investimento milionário. Estúdios e distribuidores aproveitam o período entre o final e o início do ano para lançar suas produções, pois é comprovado que uma indicação ou vitória no Oscar pode impulsionar de forma considerável a bilheteira de um filme em todo o mundo.
O primeiro ponto crucial para o êxito de Ainda Estou Aqui na temporada de prêmios está relacionado à escolha da produção para representar o Brasil na disputa. Pelas regras do prêmio da Academia, apenas um filme por país pode ser submetido, e aqui, essa decisão é tomada pela Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais (ABCAA). “Muitas vezes, nossa seleção não favoreceu a obra com maior potencial de indicação, o que compromete as chances do Brasil na premiação. Projetar o cinema brasileiro de forma mais consistente no cenário global exige planejamento e investimento, algo que ainda precisa ser aprimorado”, relembra Petra Costa.
Em seguida, veio o trabalho de campanha realizado orquestrada pela Sony Pictures Classics, distribuidora com grande tradição no prêmio. Em entrevista ao The Wrap, Michael Barker, CEO da empresa, detalhou como traçou uma estratégia para garantir que a produção com Fernanda Torres fosse vista no momento certo.
“Nosso principal objetivo foi assegurar que o maior número possível de membros da Academia assistisse ao filme. Claro, eles irão assistir aos grandes lançamentos, com mais estrelas e visibilidade. Mas muitos outros filmes ficam de fora porque não são vistos por um número suficiente de membros da Academia”, explicou Barker. Segundo o site, a SPC adquiriu os direitos de Ainda Estou Aqui em maio de 2024, antes mesmo de a pós-produção ser concluída.

Com o filme ao alcance, a equipe de marketing e relações-públicas se empenhou em manter a produção em evidência, seja por meio de entrevistas ou ensaios em revistas como o The Hollywood Reporter, que colocou Fernanda Torres na capa de uma de suas edições. Além disso, a organização de exibições, debates e eventos estratégicos também foi essencial para ampliar a visibilidade do projeto. No entanto, esses esforços exigem um investimento considerável.
“Uma campanha para o Oscar custa muito caro, e, infelizmente, o Brasil não tem investido o suficiente nesse sentido”, aponta Daniel Rezende. “No caso de Ainda Estou Aqui, vemos uma exceção, com uma campanha muito bem estruturada – talvez uma das melhores já feitas por um filme brasileiro. Isso se deve, em grande parte, ao apoio da Sony Pictures. Sem esse investimento, é muito difícil chegar lá”, pondera.
Carlos Segundo, diretor e votante do prêmio, também concorda. “O investimento na campanha garante que o filme tenha uma presença muito mais duradoura durante esse período crucial, decisivo para a escolha dos indicados. Acredito que uma das maiores forças do filme está nesse grande aporte financeiro.” Ele também ressalta que, na história da premiação, produções internacionais só conseguem competir em categorias maiores, como Melhor Atriz ou Melhor Filme, se firmarem uma parceria com uma distribuidora ou produtora norte-americana.
“O processo ainda é muito controlado pelos grandes estúdios dos Estados Unidos, o que torna o caminho mais desafiador para produções independentes e estrangeiras”, aponta Pedro Kos.
Como mencionado anteriormente, o Oscar tem se aberto cada vez mais para diferentes perspectivas nos últimos anos. A Academia tem buscado ampliar e diversificar o espectro do olhar cinematográfico, incentivando os países a indicarem mais membros para que o olhar sobre o cinema se torne menos centralizado. Isso, claro, reflete nas escolhas dos filmes indicados e nos vencedores.
Daniel Rezende acredita que as chances de Torres na categoria de Melhor Atriz, por exemplo, sejam maiores do que eram as de Fernanda Montenegro em 1999, com Central do Brasil. “É um avanço significativo e um bom sinal para os filmes estrangeiros”, destaca.
“O próprio ‘Parasita’ foi o primeiro filme a realmente mostrar que há um novo momento na Academia, um momento marcado por uma maior abertura para a participação de associados fora dos Estados Unidos”, lembra Carlos Segundo. “Essa mudança amplia o olhar cultural sobre o cinema mundial. Por isso, não vejo Ainda Estou Aqui como um caso isolado. No mesmo ano, tivemos Emília Perez, por exemplo, com toda a polêmica que gerou, mas ainda assim mostrando um olhar mais diversificado entre os votantes”.
O Brasil já ganhou – com ou sem estatueta
Independentemente de o Brasil levar ou não a estatueta, a celebração de Ainda Estou Aqui no Oscar já é uma realidade para os profissionais do cinema brasileiro.
“Embora o Oscar não seja uma competição esportiva, onde apenas a vitória conta, a nomeação por si só já é uma grande conquista”, destaca Petra Costa. “No Brasil, ainda existe a ideia equivocada de que não vencer significa perder, mas, na verdade, ser indicado – especialmente nas categorias de Melhor Filme e Melhor Atriz – já é um marco importante para o cinema nacional.”
O recente anúncio de que o filme entrou para a lista das 15 produções mais assistidos da história do Brasil, com mais de 5 milhões de espectadores, só fortalece a ideia de seu impacto na indústria.
“Acredito que o filme trouxe uma visibilidade maior para o cinema nacional e espero que essa atenção se estenda a outras produções, criando um impacto duradouro e não apenas um fenômeno passageiro”, aposta a diretora.
Para Daniel Rezende, esse fenômeno, como ele descreve, não deve ser visto como um caso isolado. “Está relacionado a uma mudança na percepção global, impulsionada pelos serviços de streaming, que reduziram a centralização do olhar americano sobre o audiovisual e ampliaram o acesso a produções de diversas partes do mundo”, elabora. “O público brasileiro, por sua vez, tem consumido cada vez mais séries e filmes nacionais, além de produções coreanas, turcas, francesas e alemãs”.

O diretor também ressalta que, embora o Brasil ainda se veja, em certa medida, como uma colônia, é uma colônia orgulhosa de sua identidade. Com isso, o reconhecimento internacional fortalece o cenário do cinema brasileiro. “Ainda Estou Aqui não apenas trouxe o público de volta aos cinemas, mas também despertou um sentimento de orgulho”, explica. “Apesar das divisões ideológicas e das narrativas polarizadas no país, em que algumas pessoas ainda rejeitam o cinema e o audiovisual brasileiros, a comoção gerada pelo filme tem sido muito benéfica para o nosso mercado.”
Além da produção indicada ao prêmio, o Brasil tem se beneficiado de excelentes índices de bilheteira, com O Auto da Compadecida 2 superando os 4 milhões de espectadores e Chico Bento e a Goiabeira Maravilhosa se aproximando de 1 milhão. E o sucesso não para por aí: no Festival Internacional de Cinema de Berlim 2025, o filme brasileiro O Último Azul, de Gabriel Mascaro, levou o Urso de Prata, prêmio de segundo melhor filme do evento, fortalecendo ainda mais uma expectativa promissora para o audiovisual nacional.
“Esse tipo de sucesso faz com que o Brasil olhe para o seu próprio cinema, debatendo, criticando e, acima de tudo, assistindo. E essa visibilidade tem um poder imenso”, destaca Rezende. Apesar da empolgação em torno de Fernanda Torres recebendo um Globo de Ouro e das indicações de Ainda Estou Aqui ao Oscar, o mais importante não é se perguntar se teremos chances de ir ao Oscar nas próximas edições. Segundo Rezende, o foco do cinema nacional agora deve ser se reconectar com seu público.
“Precisamos parar de tentar quebrar preconceitos ou estereótipos sobre o nosso cinema e, em vez disso, criar uma conexão genuína com a população brasileira. Esse é o passo essencial para o futuro do cinema no Brasil”.






