Há algo de profundamente cinematográfico na própria arquitetura de um motel. Os letreiros neon que cortam a madrugada urbana, as entradas discretas que protegem identidades, os quartos temáticos que prometem escapismo – tudo isso forma um cenário quase teatral para os encontros mais íntimos da vida brasileira. Foi essa percepção que levou a diretora britânica Rachel Daisy Ellis, naturalizada brasileira há 21 anos, a criar Eros, documentário em cartaz nos cinemas.
A gênese do filme nasceu de uma experiência pessoal reveladora. Quando chegou ao Brasil, Ellis foi levada pela primeira vez a um motel e ficou impressionada com a engenhosidade daquele sistema. “Achei incrível a maneira como o espaço estava estruturado: ao mesmo tempo em que é algo muito visível e presente na paisagem urbana, esconde completamente a identidade das pessoas que entram ali”, diz a diretora, ao Estadão.

A curiosidade inicial permaneceu adormecida por anos, até que questões pessoais sobre relacionamentos e sexualidade a trouxeram de volta à superfície. Foi, então, transformada em projeto cinematográfico após uma experiência aparentemente frustrante.
Durante uma filmagem experimental em um motel, Ellis se deu conta de que, mesmo sendo o motel um lugar que esconde as pessoas, você as escuta. “Pelas paredes vêm gemidos, falas abafadas... E a gente entende: tem outras pessoas aqui. Quem são essas pessoas?”, questiona. Foi dessa pergunta que nasceu a proposta radical do filme: convidar pessoas reais a se filmarem durante suas noites íntimas em motéis.
Por trás de ‘Eros’
A metodologia de Eros é tão ousada quanto delicada e cheia de caminhos difíceis de trilhar. Ellis entregou câmeras de celular para diferentes frequentadores de motéis – casais jovens, pessoas em relacionamentos não-monogâmicos, encontros casuais – e pediu que documentassem suas próprias experiências. O resultado transcende qualquer voyeurismo superficial: emerge um mosaico de vulnerabilidades, desejos, solidões e conexões que revelam muito mais sobre a condição humana do que sobre práticas sexuais específicas.
“Quando vi as primeiras filmagens, fiquei impressionada com a intimidade compartilhada”, diz a diretora. “Tinha algo mágico ali, entre o exibicionismo e a partilha íntima, que foi muito especial. Os momentos capturados antes e depois do sexo, onde a intimidade se constrói eram fascinantes”. Essa intimidade que Eros registra não se resume ao ato sexual: há prazer e fantasias, mas também amor, solidão, liberdade, confiança e introspecção.
Logo no começo, por exemplo, um casal discute para tentar entender o que é se relacionar com outras pessoas - inclusive em questões de idade. Depois, no momento mais interessante do filme, uma mulher discute bastante como a sexualidade entra na vida de um casal evangélico. No meio disso tudo, um trio faz sexo com roupas de padres e freiras.
O processo de filmagem exigiu um equilíbrio delicado entre direção e liberdade criativa. Ellis estabeleceu poucas regras técnicas – filmar na horizontal, cuidar do som –, mas deixou os participantes completamente livres para escolher seus motéis, suas abordagens e o que mostrar ou esconder. “Queria que filmassem o máximo possível e deixassem a cena acontecer na frente da câmera”, explica. Essa autonomia se estendeu também à pós-produção: todos os participantes puderam decidir o que queriam ou não no corte final.
A montagem do filme respeitou a cronologia natural de cada noite, preservando os momentos “banais” que, paradoxalmente, geram maior intimidade: “a espera, a busca pelo plano, as conversas antes e depois do sexo”. Ellis decidiu não intercalar histórias nem usar voice-over, mantendo a integridade de cada experiência. O resultado funciona como uma série de janelas para universos íntimos distintos, cada um com sua própria estética e ritmo.
Mais do que um retrato dos motéis brasileiros, Eros emerge como uma reflexão sobre a própria natureza do desejo e da intimidade na contemporaneidade - algo parecido com o que foi visto em Motel Destino. O filme questiona preconceitos, celebra a diversidade sexual e propõe que a sexualidade seja vista não como tabu, mas como “uma energia vital, um pulso no mundo, uma coisa que deixa o mundo mais feliz, mais saudável”. Ao dar voz e câmera aos próprios protagonistas dessas histórias íntimas, Ellis cria um documento único sobre como nos relacionamos com nossos corpos, desejos e com os espaços que moldam nossas experiências mais privadas.

Tabu nos cinemas
A questão da representação do sexo no cinema brasileiro contemporâneo ganha contornos especialmente complexos em Eros. Ellis reconhece a resistência do público nacional a conteúdos sexualmente explícitos, com jovens, principalmente, rejeitando cenas com algum conteúdo sexual em filmes e séries, como se fossem desnecessárias à narrativa geral.
“É preocupante e uma pena porque a sexualidade, o sexo, é uma coisa prazerosa, é uma coisa para ser celebrada”, diz, direto ao ponto. Para ela, a aversão revela uma sociedade “um pouco doente”, que deveria celebrar a energia sexual em vez de recriminá-la. No entanto, ela descobriu durante o processo de criação do filme que existe “uma série de filmes e produções que estão explorando os limites do sexo no cinema de forma muito livre, muito aberta”, gerando conversas ricas sobre consentimento e a psicologia das relações.
Um desses casos, aliás, vem do próprio trabalho de Ellis -- mas como produtora. Ela, afinal, assina a produção de O Último Azul, filme premiado no Festival de Berlim em 2025 e que estreia no Brasil em agosto. Embora seja uma ficção filmada na Amazônia com tom distópico e futurista — bem diferente do registro documental de Eros —, o filme também “fala de desejo, de liberdade, de possibilidades, da gente viver a vida do jeito que quer, do jeito que sonha”. Para Ellis, existe um ponto de conexão entre os dois filmes. “No final, os dois são sobre essa celebração da vida e da energia vital que move os seres humanos”, afirma.




