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‘Disney era uma empresa humana, mais bondosa. Perdemos o fio da meada’, diz sobrinha neta de Walt

Abigail E. Disney, neta de Roy, irmão de Walt, acaba de lançar um documentário em que argumenta que a empresa da família perdeu sua bússola moral

Por Jake Coyle
Atualização:

AP - Não é a primeira vez que Abigail E. Disney critica a empresa que leva seu nome. Mas é a primeira vez que Disney, neta do cofundador Roy O. Disney, apresenta seus pontos de vista com o meio que construiu a casa de Mickey Mouse: o filme.

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No novo documentário The American Dream and Other Fairy Tales, Abigail Disney argumenta que a Walt Disney Co. perdeu sua bússola moral. Como uma das críticas mais francas e proeminentes da empresa - e que por acaso pertence à sua família - Disney apresenta um retrato pouco lisonjeiro da empresa, particularmente no que diz respeito à desigualdade salarial e às dificuldades de alguns funcionários do parque temático para sustentar a família com um salário mínimo.

“Eles seguiram o caminho de quase todas as outras empresas deste país. Começaram a se achar maior que tudo”, disse Disney em entrevista. “A Walt Disney Co. era melhor. Era mais gentil, mais bondosa. Era uma empresa humana. Perdemos o fio da meada”, disse Disney.

The American Dream, que está em cartaz em alguns cinemas e estreia na sexta-feira, 30, em vídeo sob demanda, é dirigido pela própria Disney, ativista e produtora cinematográfica, e pela cineasta Kathleen Hughes. Foi feito logo após uma série de tweets de Disney em 2019, nos quais ela criticou Bob Iger, então executivo-chefe da Disney, por uma remuneração que em 2018 ultrapassou US$ 65 milhões. Os irmãos de Disney, Susan Disney Lord e Tim Disney, também são produtores executivos do filme, que foi feito sem nenhuma interação com a empresa.

“Ninguém me procurou. Estou um pouco confusa com tudo isso, francamente”, disse Disney. “Ficarei feliz de conversar, se é isso que eles querem. Estou torcendo por eles. Eu amo a empresa. O filme é uma carta de amor à empresa. Mas quando você realmente ama uma coisa e a vê saindo dos trilhos, você não pode ficar calada”.

Cena do documentário 'The American Dream and Other Fairy Tales',de Abigail Disney, neta de Roy O. Disney, que fundou a Walt Disney com o irmão. Foto: Fork Films via AP

O filme segue quatro zeladores da Disneylândia que, com um salário de US$ 15 por hora, lutam para sobreviver na cara região de Anaheim, Califórnia. A crescente disparidade salarial entre executivos e trabalhadores de baixo escalão é um problema que Disney sabe que vai muito além das preocupações da empresa com seus filmes. Em certo ponto do filme, ela descreve sua esperança de mudança como “algo meio Disney”.

“Sei que as pessoas acham que estou vivendo numa terra abstrata”, disse Disney. “Mas as abstrações importam muito, e as sensibilidades precisam mudar”.

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Os salários de alguns funcionários da Disney estão mudando. Sindicatos que representam 9.500 trabalhadores da Disneylândia evitaram uma greve ao ratificar um acordo que elevou os salários de US$ 15,45 por hora para US$ 18. Um sindicato que representa os trabalhadores de um hotel de Anaheim também chegou recentemente a um acordo de US$ 23,50 por hora. (A decisão anterior era de que o decreto do salário mínimo de Anaheim, que é de US$ 23,50, não se aplicava à Disneylândia.)

Em resposta a The American Dream, um porta-voz da Disney respondeu com uma declaração.

“Nossos incríveis atores, contadores de histórias e funcionários são o coração e a alma da Disney, e seu bem-estar é nossa principal prioridade. Trabalhamos duro para garantir que nossa equipe seja apoiada de maneira a permitir que cresçam em suas carreiras, cuidem de suas famílias e prosperem no trabalho - e é por isso que tantas pessoas optam por passar toda a carreira conosco”.

O porta-voz também citou cobertura médica, acesso ao ensino superior gratuito e assistência infantil subsidiada como benefícios aos trabalhadores. “Estamos comprometidos em desenvolver esses programas impactantes, identificando novas maneiras de apoiar nossos colaboradores e comunidades em todo o mundo”, disse o porta-voz.

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Quando Roy E. Disney, que fundou a empresa com seu irmão, Walt, em 1923, saiu do conselho em 2003, a família deixou de participar da administração da empresa. Desde que Abigail Disney fez seu documentário, que estreou em janeiro no Festival de Cinema de Sundance, Iger foi sucedido por Bob Chapek, que já havia administrado os parques da empresa. Nesse período, os preços subiram acentuadamente nos parques temáticos - outro ponto de discórdia para Disney.

“Eu simplesmente não acho que seja uma boa ideia para a Disneylândia se tornar um destino de férias de luxo que a maioria dos americanos não consegue acessar”, disse ela. “Não sei quanto mais a marca consegue aguentar”.

Disney, no entanto, foi encorajada por trabalhadores que protestaram contra a reação de Chapek à legislação da Flórida que os críticos apelidaram de projeto de lei “Não diga gay”. Para Disney, a situação refletia a dificuldade da corporação de se manter como algum tipo de autoridade moral em tempos tão polarizados politicamente.

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“Não existe isso de não ter posição sobre essa questão”, disse ela. “Não existe terreno neutro. Fingir que você pode ficar parado em um trem em movimento é um erro terrível”.

Em última análise, Disney têm cada vez mais dificuldade de reconhecer a empresa que foi o negócio da família durante grande parte de sua vida. Fazer um filme sobre sua desaprovação, diz ela, foi “extremamente desconfortável”. Mas ela não desistiu de um final “felizes para sempre”.

“Eu realmente tenho boas intenções”, diz Disney. “Você pode dizer muitas coisas sobre mim, mas quis fazer o bem”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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