Coluna quinzenal do roteirista Lusa Silvestre com crônicas sobre a vida vista com ironia dramática

Coluna quinzenal do roteirista Lusa Silvestre com crônicas sobre a vida vista com ironia dramática

O novo Pacaembu virou mix de templo com boate. Futebol que é bom, nada

O antes lendário gramado agora é um carpete verde artificial, daqueles de varanda gourmet – que blasfêmia

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Foto do autor Lusa Silvestre
Atualização:

Leio livros, falo línguas, vejo filmes no Mubi e estou aqui neste periódico contando groselhas quinzenalmente. Sou intelectual, ué – portanto não deveria gostar tanto de futebol, ópio do povo e alienação. Não deveria sequer abrir a página de esportes do jornal. Contudo, é a primeira que leio. Finjo que quero saber da nobre Sabalenka, mas de canto de olho estou conferindo meu tricolor.

Resisti a essa paixão mundana até descobrir que Benjor, Chico, Nando Reis, Didi Mocó, os irmãos do Oasis e até Deadpool adoram futebol. Papa Francisco era torcedor do San Lorenzo. Se eles podem, eu posso.

Soltei a franga. Passei a me organizar para assistir a Champions League nas tardes de quarta. O gramado parecia o Jardim das Tulherias. O jogador chutava e – juro! - a bola ia certinho no gol. Espantoso. Isso às quatro da tarde. Às sete, punha a TV no brasileirão. O gramado tinha mais buraco que a Jacú Pêssego, o volante tentava matar a bola e espirrava o taco, meu time só fazia gol quando passava cometa. Mas eu insistia. Até visitar o novo Pacaembu.

A nova Arena Mercado Livre Pacaembu tem abrigado shows em vez de jogos de futebol Foto: Werther Santana/Estadão

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Já foram? Preparem-se. O antes lendário gramado agora é um carpete verde artificial, daqueles de varanda gourmet – que blasfêmia. Onde tinha o tobogã, lugar do povão, estão construindo um hotel estrelado e provavelmente caro, de um cimento entediante. Pra jogar futebol eu não sei – mas, pra quermesse, pra montar barraca de churrasquinho, o cenário é perfeito.

Me contaram também que taparam a fonte de água que jorrava no estádio desde 1926. Torço pra ser mentira. Desviaram os lençóis freáticos que corriam por baixo do campo pra dar lugar a um estacionamento – que custa 80 paus (!). Não deu certo a hidráulica. Fizeram a final da Copa das Favelas lá, choveu pacas e arrebentou cano. Nem quando usavam o Coliseu para batalha de barco se viu tanta água num estádio. Vexame.

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Um sujeito foi nadar na piscina olímpica do complexo, assaltaram. Deixaram o cara de sunga – algo nunca visto em 85 anos de clássicos e rivalidades. Até hoje, o novo Pacaembu praticamente só hospedou shows e encontros religiosos. Virou mix de templo com boate. Futebol que é bom, nada.

A qualidade dos nossos jogos, a zona sem fim na CBF, os argentinos tirando sarro, a camisa vermelha da seleção, o novo estádio para festas juninas - sinto que estão testando minha paixão. E está funcionando. Percebi durante a eleição do novo papa. Quando a pessoa prefere acompanhar o conclave do que ver Barcelona e Inter de Milão é porque a coisa degringolou de vez.

Opinião por Lusa Silvestre

Roteirista dos filmes 'Estômago', 'O Roubo da Taça', 'Medida Provisória' e 'Sequestro do Voo 375'.