Arnaldo Antunes canta e comove a Flip com memórias de Leminski: ‘Ele vivia a poesia’; veja vídeos

Cantor fez a abertura da 23ª Festa Literária Internacional de Paraty, que homenageia o poeta de Curitiba, nesta quarta, 30

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Foto do autor Julia Queiroz
Atualização:

Arnaldo Antunes canta ‘Luzes’ em homenagem a Leminski na Flip 2025

Músico e poeta participou da abertura do evento, que neste ano homenageia Paulo Leminski. Crédito: Julia Queiroz/Estadão

PARATY - A plateia olhava com atenção e escutava com afeto enquanto Arnaldo Antunes cantava, à capela, Luzes - a composição de Paulo Leminski que ele lançou em 2001 - na abertura da 23ª edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, na noite desta quarta-feira, 30.

Foi este tom carinhoso que ditou toda a fala do músico e poeta, convidado pela organização da Flip para falar de Leminski, autor homenageado pela festa em 2025. O Titã, com muito saudosismo, resgatou memórias de sua intensa convivência com o escritor curitibano nos anos 1980, quando ele e sua então esposa, Go Antunes, desenvolveram uma amizade próxima de Leminski e sua então companheira, a poeta Alice Ruiz.

Arnaldo Antunes lê Paulo Leminski na abertura da Flip 2025 Foto: Walter Craveiro/Flip/Divulgação

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Arnaldo começou sua fala celebrando a capacidade de Leminski de unir o erudito e o popular, pela qual ficou tão famoso. Para o cantor, Leminski era “o elo entre a cultura e a contracultura”, ao mesmo tempo “fácil e difícil, capricho e relaxo”, disse, lembrando o livro de poemas de 1983.

Nascido em Curitiba, no Paraná, em 1944, filho de pai polonês e mãe negra, Leminski foi um dos grandes poetas brasileiros do século 20. Mas também foi tradutor, biógrafo, romancista. Poliglota, tinha conhecimento sobre a literatura de todo o mundo, do ocidente ao oriente. “Era um exemplo de erudição sem ostentação”, disse Arnaldo.

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Seu primeiro contato com Leminski foi com o Catatau (1975), o único romance do poeta, no final dos anos 1970. “Me deslumbrou pelo seu jorro extenso e intenso de insights”, lembrou o cantor.

Os dois só vieram a se conhecer por volta de 1985, depois que Go já havia encontrado o poeta e Alice no lançamento de um livro do casal. Arnaldo recordou do primeiro encontro com o escritor: “Ele era do tipo que te deixava inteiramente à vontade logo de cara.”

Logo Go e Arnaldo foram convidados para fazer um lançamento em conjunto com Alice e Leminski. Passaram dias hospedados na casa do casal, onde o poeta queria ver filmes até a madrugada.

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Arnaldo Antunes na mesa de abertura da Flip 2025; músico lembrou convivência com Paulo Leminski, homenageado do evento neste ano Foto: Walter Craveiro/Flip/Divulgação

Depois, receberam Alice e Leminski no apartamento que mantinham próximo ao Cine Belas Artes, na Avenida Paulista. O escritor chegava com casaco de couro, já colocava um disco do Sex Pistols na vitrola e tocava um violão. “Era tudo muito intenso”, disse Arnaldo.

Em uma dessas ocasiões, Leminski presenteou Arnaldo com um poema manuscrito. Depois, o cantor descobriu que o presente também continha outro poema no verso. Ele levou o papel, agora enquadrado, e mostrou aos espectadores na Flip.

Na Flip 2025, Arnaldo Antunes mostra e lê poema presenteado a ele por Paulo Leminski

O cantor e poeta foi o responsável pela abertura da 23ª Festa Literária Internacional de Paraty, que homenageia o escritor. Crédito: Julia Queiroz/Estadão

Outra memória comoveu o público: no final dos anos 1980, Leminski, Alice, Arnaldo e Go passaram um reveillon juntos, ao lado de amigos, na casa de Branco Mello. O poeta, sempre animado e cheio de vida, chegou presenteando todos os convidados com poemas manuscritos.

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“Isso é um exemplo de como ele vivia a poesia. A criação, a arte em geral, não é algo para comentar a vida. É algo para manifestar a vida. Ele entendia isso como ninguém”, disse Arnaldo.

Sentado, depois em pé, lendo, cantando ou interpretando, o cantor lembrou de Leminski com um pouco de tudo pelo qual ele ficou marcado: leveza, afago, inteligência, carinho, emoção e diversão. “Foram poucos anos de convívio, mas ele deixou muita saudade. Ele é uma dessas pessoas que fazem falta não só nossa vida, mas também na cena cultural.”