Livro revela cartas de amor de Fernando Pessoa a amante inglesa e mostra ‘criança interior’ do poeta

Obra organizada pelo professor e pesquisador Jerónimo Pizarro traz reproduções de bilhetes e correspondências entre Pessoa e suas namoradas; leia entrevista com o organizador e um trecho do livro

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Por Sérgio Rizzo
Atualização:
Foto: Raquel Wise/Divulgação via Tinta-da-China Brasil
Entrevista comJerónimo PizarroProfessor e pesquisador

Os admiradores de Fernando Pessoa (1888-1935) ganham um pequeno e inesperado tesouro com a publicação no Brasil da nova edição de Cartas de Amor, que traz a correspondência entre o escritor português e sua namorada Ofélia Queiroz (1900-1991).

De acordo com o professor e pesquisador Jerónimo Pizarro, responsável pela organização, edição e apresentação do livro, temos um “pequeno filme amoroso” que revela uma faceta “ridícula” de Pessoa, ao trocar apelidos carinhosos, elogios grandiloquentes e inúmeros “beijinhos” com Ofélia como se ainda fosse um adolescente, embora tivesse mais de 30 anos quando se conheceram, em 8 de outubro de 1919, ambos a trabalhar na firma Félix, Valladas & Freitas, Ltd., que atuava no mercado de brocas e faliu em três meses. As cartas mostram também, segundo Pizarro, a “criança que não se perdeu” dentro dele.

A correspondência com Ofélia cobre dois períodos. O primeiro vai de março a novembro de 1920. Já o segundo acompanha uma reaproximação entre os dois, indo de setembro de 1929 a janeiro de 1930. O volume traz reproduções de páginas de cartas e de poemas, bem como fotos de ambos, de Lisboa e de objetos que marcam esses períodos.

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Ofélia não é, porém, a única destinatária das cartas de amor do jovem Pessoa. O volume reúne também a correspondência do escritor com a inglesa Madge Anderson (1904-1988), que foi diversas vezes a Lisboa entre 1929 e 1935, e que o atraiu. Com Madge, que a família de Pessoa considerava “uma louca”, ele trocou cartas, cartões postais e poemas em inglês. Nada que se compare, entretanto, com a vivacidade reveladora das juras de amor a Ofélia.

Fernando Pessoa e uma carta escrita para o português à inglesa Madge Anderson, um de seus últimos amores. As imagens estão presentes na nova edição de 'Cartas de Amor', organizada por Jerónimo Pizarro e publicada pela Tinta-da-China Brasil. Foto: Tinta-da-China Brasil/Divulgação

Em entrevista exclusiva ao Estadão, Pizarro fala a respeito de aspectos da correspondência que ajudam a conhecer um pouco mais de Pessoa — o “Nininho” que se derrama pelo seu “Bebezinho”.

Ao organizar o material, você considerou que essas cartas têm valor também, além do que revelam de Fernando Pessoa, como uma crônica da vida cotidiana em Lisboa, 100 anos atrás?

Naquele período, como empregado de escritório, Pessoa está muito pressionado pelo regresso da mãe, que durante 15 anos não esteve com o filho. É muito surpreendente que ele fique quase obrigado a procurar casa, a ter que procurar estabilidade, a ter que ser um filho mais pródigo. O encontro com Ofélia coincide com o regresso da mãe e isso obriga a um certo desencontro amoroso. Então, estamos a conhecer muitas coisas que não apenas a vida de Pessoa, não apenas a vida da Ofélia. É a vida da família, que estava esquecida em outros lugares, que aparece, que obriga a uma vida social mais intensa, que obriga a uma vida de escritório muito mais profunda, contínua, séria. A Ofélia quer entender se Pessoa é capaz de comprar uma casa para viverem juntos. Não dava. Nunca teria dado, acho eu.

Apesar de ganhar alguns trocados nos jornais ingleses, com o seu conhecimento da língua inglesa, Pessoa falhou completamente nos negócios de minas, nas tentativas de fazer empresas inglesas terem uma participação econômica em Portugal, de estar mais perto do governo português, pelo menos na área das minas. Ele está em uma área muito curiosa, no aspecto comercial, para tentar se apresentar perante esta namorada, mesmo que não tivesse conhecido a sua família, e para que a sua própria mãe acreditasse que o filho tinha conseguido na vida certas coisas. Pessoa pensava no dia a dia, mas não com grandes perspectivas de futuro. Então, há nas cartas uma vida muito cotidiana numa capital que é europeia, mas que é pequena, provinciana. São mais ou menos os mesmos percursos, as mesmas ruas, os mesmos largos, os mesmos prédios, a brincadeira de ficar numa esquina para cumprimentar quem está na janela.

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Entramos mais ou menos num pequeno filme amoroso em que há muitas coisas que estão a ser feitas diversas vezes, combinadas da mesma forma. Os lugares costumam ser os mesmos e não podem ser outros, e essa parte para mim é quase de cinema, de muitos cumprimentos que tiveram que ser feitos a partir da janela, porque não dá para Pessoa e Ofélia se encontrarem fisicamente sempre.

Continua difícil comprar imóvel em Lisboa, não?

Se o Fernando Pessoa vivesse hoje, ele talvez estivesse em uma situação ainda pior, claro. Eu estava a ler que Lisboa é a capital da Europa em que os preços aumentaram três vezes mais do que em outros lugares do continente. É muito complicado neste momento para a maior parte das pessoas, e seria muito mais para alguém que tinha, por vezes, que pedir dinheiro emprestado, que sem a vinda da mãe não teria conseguido comprar um apartamento na sua vida, que dependia de uma correspondência comercial, e que em certos momentos não tinha, digamos, o necessário. Quer dizer, estamos numa época quase pré-bancária em termos de Pessoa. Eu acho que o Pessoa nunca teve conta em um banco. Não tinha poupanças ou algum tipo de rendimento constante.

Para os leitores mais jovens, será também uma revelação da vida cotidiana no século passado ver como as pessoas um dia trocaram cartas de amor e de amizade?

Brinquei sobre isso com os meus estudantes. Um deles, talvez de engenharia, disse-me que não escrevia nada há sete, oito anos. Nem sequer cartas de amor. Eu gostaria de imaginar que, pelo menos para um certo tipo de documentos privados, para cadernos, para notas, para pensamentos, e para a parte amorosa, nós ainda pudéssemos ter o papel. Há certas épocas em que mais facilmente fazemos um papel ridículo. Depois ficamos, não sei, muito protegidos e blindados. Acho que a adolescência é a época em que fazemos mais coisas ridículas. Deveríamos até valorizar esse tipo de coisa. Na universidade, parte do problema neste momento é, claro, o uso da inteligência artificial. Então, é outro motivo para regressar à escrita, não? Eu não quero imaginar que alguns, para fazer uma carta de amor, peçam o apoio do Chat GPT.

Como você analisa esse Pessoa das cartas em seu momento ‘ridículo’?

Eu admito que seja ridículo, eu admito que por vezes seja patético, eu admito que por vezes seja caprichoso. Há muitas coisas aí. Digamos que esse retrato de Pessoa é diferente. E eu acho que é um contrapeso muito necessário à ideia de Pessoa ser parte de uma família dos poetas metafísicos ingleses, estar muito dedicado à filosofia, ter tentado escrever outra crítica quase da razão pura, como Kant, ter tentado escrever um Fausto como Goethe, ter tentado ser mais do que Luis de Camões, ter sonhado ser um Shakespeare, e ter escrito sonetos. Há muitos momentos em que Pessoa parece querer ser essa grande figura da literatura europeia, associada ao Fausto, à tragédia da subjetividade e à crise existencial. O livro de cartas é quase o pré-existencialismo, e nós não imaginamos muito o ridículo nesse tipo de situação.

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Tínhamos um grande desafio que era admitir, pelo menos na minha perspectiva, que em certas páginas que o Pessoa deixou há muito humor. Pelo menos em certos momentos de convívio social, ele podia ser bastante engraçado. Essas cartas permitem perceber que há quase uma criança que Pessoa não perdeu, uma criança interior. Essas cartas parecem de duas crianças a brincar. É como se tivéssemos tido uma relação idílica, quase o primeiro amor, e não devíamos estragar a imagem que tivéssemos do primeiro amor com um certo tipo de complicações. Parece uma relação parada em certo ponto no tempo em que os dois, pelo menos no início, admitem que fossem quase duas crianças a brincar com o crescimento do amor.

E é muito surpreendente pensar que isso está a acontecer com uma pessoa que já nesse momento tinha mais de 30 anos, e que já tinha escrito coisas tão complexas quanto a Ode Marítima. Um grande escritor, intelectual e artista, com mais de 30 anos, quase com a idade de Cristo, essa idade fundamental, e num momento talvez de maior força e conhecimento, e depois das vanguardas todas, e depois de ter percebido que existia Freud, depois de tanta coisa, depois da Primeira Guerra Mundial, e tão infantil em certos aspectos.

Como podemos interpretar as referências nas cartas a alguns dos heterônimos de Pessoa, como se fossem amigos dele?

É difícil saber até que ponto o Pessoa falava ou não falava com os amigos, com a família, até com a Ofélia, do seu mundo imaginário. Até que ponto explicou ou não explicou o que significavam os amigos imaginários, que mais tarde iriam nomear heterônimos. O Álvaro de Campos era autor de poemas que talvez Ofélia ainda não conhecia. Não sei até que ponto a Ofélia foi leitora, digamos, da revista Orfeu. E não sei até que ponto fazia ideia do mundo do poeta.

À esquerda, fotografia de Ofélia Queiroz, que foi namorada de Fernando Pessoa, e à direita, uma dedicatória do autor à amada, datada de 1934. As imagens estão presentes na nova edição de 'Cartas de Amor', organizada por Jerónimo Pizarro e publicada pela Tinta-da-China Brasil. Foto: Tinta-da-China Brasil/Divulgação

Para mim isso não está completamente claro. A verdade é que quase nunca os dois falam de literatura. Parece uma brincadeira em que a pessoa diz que tem certos amigos, ela fica incomodada ou não, sabe reagir ou não. Acho que por vezes ela sente que é uma intromissão, que não deviam estar aí essas figuras. Talvez dificultassem ainda mais chegar a um Pessoa com o qual já era difícil, digamos, atingir uma certa proximidade. Ela muito rapidamente passa de brincar com a existência de outros Fernandos Pessoas a querer que Fernando Pessoa seja só o Fernandinho dela, e não esse conjunto de seres que criam uma série de desculpas para adiar respostas e encontros.

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Leia trechos de Cartas de Amor, org. de Jerónimo Pizarro

29/11/1920

Ofélinha:

Agradeço a tua carta. Ela trouxe-me pena e alívio ao mesmo tempo. Pena, porque estas cousas fazem sempre pena; alívio, porque, na verdade, a única solução é essa — o não prolongarmos mais uma situação que não tem já a justificação do amor, nem de uma parte nem de outra. Da minha, ao menos, fica uma estima profunda, uma amizade inalterável. Não me nega a Ofélinha outro tanto, não é verdade?

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Nem a Ofélinha, nem eu, temos culpa nisto. Só o Destino teria culpa, se o Destino fosse gente, a quem culpas se atribuíssem.

O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mas mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou.

Estas cousas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão de passar o amor e a dor, e todas as mais cousas, que não são mais que partes da vida?

Na sua carta é injusta para comigo, mas compreendo e desculpo; decerto a escreveu com irritação, talvez mesmo com mágoa, mas a maioria da gente — homens ou mulheres — escreveria, no seu caso, num tom ainda mais acerbo, e em termos ainda mais injustos. Mas a Ofélinha tem um feitio ótimo, e mesmo a sua irritação não consegue ter maldade. Quando casar, se não tiver a felicidade que merece, por certo que não será sua a culpa.

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Quanto a mim…

O amor passou. Mas conservo-lhe uma afeição inalterável, e não esquecerei nunca — nunca, creia — nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequenina, nem a sua ternura, a sua dedicação, a sua índole amorável. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe atribuo, fossem uma ilusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que lhas atribuísse.

Não sei o que quer que lhe devolva — cartas ou que mais. Eu preferia não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memória viva de um passado morto, como todos os passados; como alguma cousa de comovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos anos é par do progresso na infelicidade e na desilusão.

Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passo por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor.

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Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil.

Que isto de “outras afeições” e de “outros caminhos” é consigo, Ofélinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofélinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.

Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.

Set. 1935

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Minha querida Madge,

Há muito que tencionava escrever‐te, mas, como nunca sei realmente o que é o tempo, esse dado desconhecido foi‐se arrastando até agora. o que geralmente sucede quando não fazemos nada

Esta minha carta será simplesmente um pedido de desculpas. Chegaste aqui quando eu estava a afundar‐me e por cá ficaste até eu me ter afundado. Desde então, já voltei à superfície, mas teria dificuldade em dizer de que superfície se trata. Lamento muito tudo o que se passou, isto é, a minha descortesia em ter desaparecido, mas não perdeste nada com o meu desaparecimento, que foi a melhor ação que alguns resquícios de decência poderiam ditar a um homem praticamente perdido para tudo isso.

Embora eu tenha subido à aparente superfície, estou agora pronto para me afundar novamente e, desta vez, penso que definitivamente.

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Gostaria que me recordasses com caridade cristã e não com simples desprezo humano, ainda que fosse esse o sentimento certo e apropriado, no mundo tal como ele é.

Muito sinceramente teu,

Set. 1935

Meu querido Fernando,

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A chegada da tua carta foi um grande prazer, mas a sua substância é um tanto angustiante. Sinto que posso compreender a tua atitude, mas ela deixa‐me algo exasperada. Algo deveria ser feito contigo, mas não sei por quem, dada essa tua deplorável falta de força de vontade para o fazeres por ti próprio.

Ouve, Fernando — não consegues recompor‐te até o John e a Eileen chegarem? Parece que eles estão resolvidos a passar as férias em Portugal e vão sair de Londres dentro de uma semana. Vais tirar muito prazer à visita deles se lhes fizeres o truque de “afundar”!

Não sei bem o que significa caridade cristã, mas eu tenho de ti uma opinião mais elevada do que a que tu tens de ti próprio... velho tonto dramático que és! E nem sequer tens a desculpa de falta de sentido de humor!

Saúdo‐te com a maior ternura. A tua amiga

Cartas de Amor

  • Autor: Fernando Pessoa
  • Organização: Jerónimo Pizarro
  • Editora: Tinta-da-China Brasil (208 págs,. R$74,90)